Sim, quero abraçá-los, porque me sinto bem quando me entrelaço a pessoas que recusam que lhes afoguem as esperanças, pessoas que não permitem que lhes ceguem os luzeiros do futuro.
Quero abraçá-los, ainda, por serem possuidores de uma faculdade singular, aquela que corresponde à soma positiva das faculdades comuns, qual seja: ser guerreiro!
Claro, gente guerreira, por vocação. Tão guerreira, que mesmo quando em silêncio, os lábios fechados parecem prontos a estalarem em revelações inesperadas – ainda que mudas. Sim, ainda que mudas, revelações inesperadas e significativas.
Enfim, abraço minhas irmãs e meus irmãos negros, gente que nunca se enfiou a medo por alameda alguma, pelo contrário, sempre esteve em posição de combate. Gente que das muitas vezes em que venceu demandas, não foi em razão da bondade de alguém ou da deficiência do adversário e sim graças às próprias diligencias e aptidões.
Mas não abraço aqueles que fingem desconhecer a desigualdade racial existente em nosso país, fingimento esse que acaba dificultando – quando não impedindo – o sincero e necessário propósito de muitos de promoverem a igualdade racial.
Sim, não os abraço, porque não tenho a natureza morta. E por não ter essa natureza, não aceito o sistema de regras imposto há séculos por essa gente que bafeja a mentira, que infla a vaidade, que empola a presunção.
Se não fosse por tudo isso, não os abraçaria, também porque não gosto de me entrelaçar a nenhuma pessoa estanque ao pensamento, refratária ao sonho, padronizada no senso comum. É que não me dou com quem tenta nivelar por baixo intenções elevadíssimas, e nem com aqueles que apresentam indisposição para equiparar diferenças, diferenças essas que há séculos vem respondendo pelos contrastes sociais existentes neste país. Claro, claro que estou falando do desnível social existente entre brasileiros negros e brancos, do desnível na sua realidade crua e brutal.
Mas é bom que se diga que nem mesmo essa “deferência” dispensada a mim e aos meus irmãos teve ou tem a capacidade de consumir a nossa fé, humilhar a nossa inteligência, inverter a nossa intenção, endurecer o nosso coração. É que aos meus olhos, essa “deferência” não passa de mais um incentivo para se continuar na caminhada, a despeito das pedras do caminho. E se assim penso é porque creio que minha gente há séculos aportou à maturidade, daí a freqüência e a competência com que combatem diuturnamente o racismo, a intolerância, o preconceito e a discriminação.
Porém, como tudo o mais que diz respeito à personalidade dos meus não queridos é coisa imediatamente conhecida e largamente interpretada, vou parando por aqui, mas não sem antes reiterar o meu abraço ao meu pessoal.
Assim, definitivamente, abraço com ternura e respeito todas as minhas irmãs e todos os meus irmãos negros, gente guerreira por vocação, gente que sempre me deu tão positivas provas de grandiosidade, gente perpetuamente voltada para o renascer dos começos.
Recebam, então, as minhas melhores vibrações e o meu melhor abraço negro.

Sônia Maria Pereira Ribeiro