A extinção da SEPPIR, criada para ser um "puxadinho" dos negros subalternos no interior de um Estado ausente e indiferente aos nossos dramas e demandas, e de um Governo que adotou como política a transformação maioria da população brasileira – que é negra – em símbolo e alegoria de uma democracia racial farsesca, é mais um capítulo do fracasso do populismo que se apresenta como falsamente de esquerda.

Não é, e se é que foi algum dia, há muito deixou de sê-lo.

A SEPPIR, criada ainda em março de 2003, no primeiro governo lulista, nunca teve importância alguma e serviu apenas para palanque e biombo para oportunistas de toda espécie. Uns, engordaram os currículos, com títulos vazios, mas pomposos; outros, nem chegaram a engordar os bolsos e contas bancárias com as migalhas caídas da mesa da Casa Grande na forma de emendas e projetos, muitos deles patrocinados pela Petrobrás, enquanto a empresa estava sendo saqueada pela quadrilha revelada na Operação Lava-Jato.

Aliás, seria interessante e pedagógico saber quais os projetos sociais ligados a entidades negras que a Petrobrás patrocinou nos últimos 12 anos. Interessante e revelador, acrescente-se.

Mais do que o fim de um ciclo do ilusionismo de que alguns poucos se fartaram (claro às custas da imensa maioria do povo brasileiro), o fim da SEPPIR, com sua fusão a outras duas áreas (o Ministério agora é das Mulheres, da Igualdade Racial e dos Direitos Humanos, nessa ordem, segundo a própria Presidenta no discurso em que deu posse a titular Nilma Lino Gomes), é a falência do movimento negro chapa branca e racialista que se pretende porta-voz dos 50,7% da população negra brasileira, mas que na verdade fala apenas por umas poucas "panelas" que se reúnem em torno da academia (e de partidos), na expectativa de um espaço nos "puxadinhos" do Estado.

Para que fique claro do que falamos, vamos aos conceitos. Racismo e racialismo são irmãos siameses; no primeiro caso, trata-se da ideia nefasta de que há raças – a branca – superior às demais; no segundo, nega-se a superioridade de raças, porém, admite-se – e mais do que isso, defende-se – a existência delas. Os racialistas não são racistas, porém, acreditam na existência de raças, quando a ciência já deixou patente que existem apenas e unicamente uma única raça: a humana.

Ao misturar alhos com bugalhos, racialistas e racistas compartilham da mesma crença reacionária, se tornam parceiros involuntários, o que coloca o movimento negro sob esse tipo de direção num beco sem saída e o neutraliza e anula como instrumento de transformação social.

O racialismo é reacionário por natureza e é útil – muito útil, diga-se – ao sistema racista, porque ignora a contradição fundamental numa sociedade de classes: a contradição entre exploradores e explorados – negros ou não.

Ao ignorar a contradição fundamental pretende fazer crer que a luta por transformações sociais se resume ao embate de negros x brancos, o que faz regredir a luta por Justiça, Igualdade e democracia que não se resuma a obrigação de votar a cada dois anos nos candidatos que o mercado "elege", ao plano biológico. Eis a fonte de todos os equívocos, repetidos, reiterados.

Ao longo dos 12 anos de existência dessa Secretaria, pomposa na forma, inclusive, como foi apresentada, mas vazia no conteúdo e no orçamento pífio, a SEPPIR não serviu para nada mais, nada menos que lustrar currículos de burocratas obedientes aos esquemas de poder a quem docilmente serviram.

É patético, para não dizer hilário, ouvir declarações de negros da Bahia, Estado que tem 80% da sua população constituída por negros, reagindo a extinção da SEPPIR.

A socióloga Vilma Reis, saiu-se com esta, em entrevista ao Jornal A Tarde, de Salvador: “Não tem como reduzir o papel de nenhuma destas três pastas. São estratégicas como qualquer outro ministério. Nós do movimento negro estamos falando de 52% da população brasileira. Não pode pegar três questões estratégicas e colocar numa única pasta. Não tem quem dê fôlego. Não se consegue definir uma escala de prioridade”, afirmou.

Por sua vez, o vereador Silvio Humberto, do PSB, assim se colocou: “Se tínhamos alguma ideia de que havíamos chegado num ponto de acomodação, agora, mais do que nunca é preciso sair. Porque o racismo não tira férias. E se ele não tira férias, cabe a todos nós usarmos a capacidade de mobilização para ter força política e assegurar as mudanças”.

Ora, o que pretenderam dizer ambos, ilustres líderes do movimento negro baiano, com tais frases altissonantes? Estratégicos para que e para quem, ilustre socióloga Vilma Reis? Que força política é possível mobilizar vereador, se a lógica pela qual se pautam, é a da submissão, da rendição aos esquemas de poder, jamais de independência e autonomia em relação a partidos, a governos e a Estados?

De uma e outra declaração dos porta-vozes de um movimento negro, que deveria representar a maioria da população brasileira, fica a constatação óbvia: trocando-se em miúdos, tais declarações mais expressam a confusão política e ideológica dos seus autores, do que qualquer outra coisa. Mais ainda: não querem dizer absolutamente nada e apenas servem para  marcar a posição dos que se acomodam na posição de fugir como o diabo da cruz de qualquer situação em que tenham que se posicionar contrariando interesses dos esquemas de poder dominante, a quem docilmente servem.

Da próxima vez que forem se manifestar, seria mais conveniente que – na ausência de uma posição – optassem pelo silêncio. Seria mais honesto e mais digno.

 

Dojival Vieira