Em matérias de opinião, a notícia foi vista como sinal de que a política de ação afirmativa dos EUA foi um “equívoco”, um “fracasso” e que, portanto, não deveria ser adotada aqui. Creio eu, aí há um implícito desejo de esvaziar a decisão da UFRGS, de cortar o “mal” pela raiz: se as políticas de ação afirmativa não foram boas para os EUA, não podem ser boas para nós.
Tal conclusão – que se repete cada vez que é anunciada a adoção de cotas por mais uma universidade brasileira, como foi o caso da UFSC nesta semana – ocupa cada vez mais espaço na mídia, a ponto de quase se tornar um truísmo. Porém, é uma conclusão errônea, posto que é baseada em distorções e mitos propagados pelos oponentes do programa americano desde que se tornou lei em 1964. São vários os mitos:
Mito: Ação afirmativa nos EUA se resume a cotas
Fato: Ao contrário da Índia, da Malásia e da Nigéria, os EUA nunca instituíram um programa de cotas. O debate sobre cotas começou em 1969, quando George Schultz, o ministro do trabalho, propôs o Plano de Filadélfia, que estabelecia que os negros deveriam ser contratados compativelmente à sua proporção numa cidade. Aprovado pelo Senado e o Congresso, o plano não especificava cotas, que sempre foram consideradas inconstitucionais, mas sim metas a serem alcançadas.
Mito: O programa de ação afirmativa fracassou nos EUA.
Fato: Repetir essa frase “ad nauseam” não a torna verdadeira. Através do incentivo à educação superior, as ações afirmativas criaram condições para o estabelecimento de uma sólida classe média negra. Por exemplo, em 1998, 7% dos executivos, gerentes e administradores eram negros, quase o dobro da porcentagem em 1950. Em 2003, quase 27% dos negros trabalhavam nessas áreas.
Mito: Os negros foram os maiores beneficiários do programa de ação afirmativa
Fato: As mulheres brancas foram as maiores beneficiárias das ações afirmativas. Um estudo demonstrou que as politicas de ação afirmativa abriram para as mulheres brancas profissões antes redutos dos homens brancos, de modo que, nos anos 1980, elas “constituíam quase que metade da população das profissões”. Hoje em dia, as mulheres brancas ganham mais do que os negros, independente de sexo.
Mito: Ação afirmativa é discriminação às avessas contra os homens brancos
Fato: Essa idéia se popularizou na era Reagan e tomou força nos governos de Bush Pai e Filho. Contudo, apesar dos ganhos das mulheres e das minorias étnico-raciais, os homens brancos continuam a receber os mais altos salários e a ocupar os cargos de maior prestígio.
Desse ângulo, é difícil manter a tese de fracasso. Os vociferantes críticos brasileiros do programa americano ignoram os sucessos que os mais de 40 anos de políticas de ação afirmativa alcançaram. Se é verdade que as políticas não eliminaram o racismo nos EUA, pelo menos elas criaram condições para a acumulação de riqueza não só durante a vida de uma pessoa, mas também de geração para geração. Numa sociedade de classes, faz sentido tentar incluir as minorias, ou poderia haver um descontentamento ainda maior entre elas.
Quando a política foi instituída em 1964, os EUA desfrutavam de grande poder econômico e, portanto, a população se sentia mais amena à idéia de afrouxar o cinto. A eliminação da política tem mais a ver com a onda de conservadorismo que assola o país e com a diminuição da riqueza devido aos gastos com a guerra do que com o “fracasso” do programa.
Talvez seja esse o cerne da questão: por trás da negação do racismo brasileiro e da insistência no “fracasso” da ação afirmativa em outros países estaria o medo de dividir com os negros as posições de poder econômico, político e social, tão confortavelmente guardadas por tão poucos ao longo da nossa história. Mas, pelo jeito, isso é mais difícil de se admitir num país tão preocupado em parecer “cordial” aos olhos do mundo.

Vânia Penha-Lopes