S. Paulo – Um velho combatente anti-racista, acusado de subversão racial pelo regime cubano, o professor Carlos Moore, 65 anos, protagonizou uma cena carregada de emoção, ao contar sua trajetória durante o período da revolução. “Eu mesmo fugi do país protegido pelas Embaixadas africanas. E depois vivi o exílio no Egito, na França, na Nigéria, no Senegal, na Jamaica, Guadalupe, Trinidad Tobago…’, contou com a voz embargada pelas lágrimas.
O episódio aconteceu durante o Seminário Internacional de Ações Afirmativas, promovido pela Coordenadoria Especial de Assuntos da População Negra, da Prefeitura de São Paulo, na semana passada. Ao responder a uma pergunta sobre a situação racial de Cuba, Moore, que vive em Salvador/BA, fez um histórico do Movimento Negro cubano, relatando que, depois de participarem ativamente da guerra da independência da Espanha, os negros foram proibidos de participar do Executivo, da polícia e excluídos até das escolas públicas. Representavam, então, 64% da população da Ilha.
Foi a primeira vez, em sete anos vivendo no Brasil que Moore aceitou falar sobre a questão racial em Cuba. “Eu tinha de dar uma resposta verdadeira a um companheiro que me fez uma pergunta e não podia me esquivar. Eu aceito a responsabilidade sobre o que estou dizendo”, afirmou. O crime de subversão racial não existe na legislação cubana, embora o regime o aplique sistematicamente, sujeitando os acusados a penas que variam de 10 a 15 anos de prisão.
Moore conviveu e trabalhou como segurança e tradutor de Malcom X, o líder negro norte-americano, no último período de sua vida, a partir de novembro de 1.964. Malcom foi morto em 1.965.
Genocídio
Segundo Moore, depois de participarem ativamente das lutas pela independência da Espanha, em 1.912, os negros cubanos organizaram-se no Partido Independentista, o primeiro partido político de negros da Ilha, sendo vítimas de um verdadeiro genocídio em que, de 12 a 15 mil, foram simplesmente assassinados. “Toda a classe média negra cubana foi massacrada”, acrescentou.
No final dos anos 40, depois da segunda Guerra Mundial, o Movimento Negro ressurge em Cuba com Juan José Betancourt Bencomo. Durante o período da Revolução, em 1.959, a população negra estimada era de 45 a 48% da população do país.
Buena Vista
Em 1.959, as “Sociedades de Cor”, como eram chamados os clubes negros, como o Buena Vista Social Club (retratado no filme de Ry Cooder), foram simplesmente extintos e suas sedes derrubadas. “Eram sociedades negras cubanas que foram proibidas. Buena Vista Social Club era um desses clubes. Existiam cerca de 500. Fidel determinou que eram movimentos racistas. E se recusou a se reunir com dirigentes negros”, contou.
Segundo Moore, na época Betancourt publicou uma carta aberta que, em resumo, dizia. “Nós respeitamos vocês como nacionalistas e revolucionários. Mas, não venham nos dizer o que entendem por racismo e discriminação em Cuba”. É também dessa época a “Doutrina Negra: como vencer o Racismo institucional”, uma plataforma com 332 páginas, na qual se propunha a derrota do racismo.
“Todos os dirigentes foram presos. Quem não foi preso teve de fugir. Os clubes negros foram fechados. Em Cuba era proibido se falar no genocídio de 1.912”.
Revolução
Nos primeiros anos da Revolução, o Movimento Negro ressurge com Waltério Carbonell. “Carbonell foi destruido num Hospital Psiquiátrico. Eu mesmo fugi do país, protegido pelas embaixadas africanas. Depois de 28 dias numa prisão, acusado de subversão racial, tinha então 19 anos, e estava convencido de que ia ser executado. Eu e outros dirigentes éramos apontados como porta-vozes do novo racismo negro, submetidos aos Tribunais. Foi obrigado a uma declaração em que confessava que estava errado ao falar de racismo por não conhecer Cuba e confundir Cuba com os EUA”, acrescentou. Segundo Moore, o dirigente, provavelmente 72 anos (ele não sabe ao certo) bastante debilitado e doente , ainda vive, porém, psicologicamente foi destruído.
Moore contou que, com a queda da União Soviética, o Estado cubano reconsiderou a questão racial , e ele, 34 anos depois de ter perdido o direito de se declarar cubano, o recuperou. “Só depois de 34 anos, Fidel Castro me permitiu retornar com a condição de não falar em racismo e não posso ficar mais de 42 dias no meu país”, acrescentou.
Apesar disso, Moore está mais otimista, depois que Raul Castro, irmão de Fidel, assumiu o poder com o afastamento de Fidel com a saúde debilitada. “Depois de 48 anos de repressão, sob essa questão está tomando essa direção sob Raul Castro. O regime passou a admitir discutir o tema do racismo, porém, apenas entre os quadros do Partido Comunista, que representa somente 5% dos cubanos”. Não se atreve a discutir esse tema na sociedade.”
No final, ainda emocionado, e sob aplausos, Moore desculpou-se. “Me aconteceu algo que nunca me acontece. A memória do que aconteceu chegou a me perturbar”.
No momento, a população negra de Cuba é calculada entre 62% e 64% da população do país.

Da Redacao