Nova York/EUA – O escultor, gravurista, pintor, criador, cenógrafo, museólogo, ex-curador da Pinacoteca de S. Paulo e diretor-curador do Museu Afro Brasil, Emanoel Araújo, 71 anos, entende que é necessário acabar com a ambiguidade a respeito de ser ou não ser negro no Brasil, e que isso se dará por meio da consciência e da educação. “A instituição de cotas para negros nas Universidades pode ser o início de uma nova década de mudança no Brasil”, afirma.
No final do mês passado, os ministros do Supremo Tribunal Federal – a mais Alta Corte de Justiça do país -, por unanimidade, declararam a constitucionalidade das ações afirmativas e das cotas no Brasil.
Araújo foi homenageado há cerca de 15 dias com o título de Doutor em Letras e Ciências Humanas pela City University of New Jersey (CUNJ). A cerimônia de entrega do título (foto) aconteceu no Ginásio Poli-Esportivo IZOD, de Newark, cidade próxima a Nova York, com a presença da turma de bacharéis e doutorandos de 2012, e de um público estimado em mais de 10 mil pessoas, que lotou as dependências da casa do conhecido time de basquete New Jersey Nets.
O artista, que é baiano de Santo Amaro da Purificação, cidade onde também nasceu Caetano Veloso, cumpriu uma extensa agenda social no seu retorno a Nova York, onde esteve pela primeira vez há 40 anos: participou de jantar oferecido pelo cônsul brasileiro, Luis Felipe Seixas, de almoço patrocinado pelo professor e colecionador de artes africanas, George Preston; de outro jantar na casa de Reynold Kerr, ex-funcionário da Motorola do Brasil e também colecionador de artes.
Nosso correspondente em Nova York, Edson Cadette, acompanhou a visita do diretor-curador do Museu Afro Brasil e o entrevistou com exclusividade para a Afropress.
Confira
Afropress – Quando veio pela primeira vez à Nova York?
Emanuel – Em 1972. Há exatamente 40 anos. Naquela época o que me marcou bastante foi notar que havia uma camaradagem maior entre os afro-americanos que se cumprimentavam quando passavam um pelo outro dizendo “Fala, irmão”. Talvez pelo fator histórico de pertencerem a uma minoria subjulgada pela maioria branca. Hoje, é claro, isto já não existe mais.
Afropress – E qual foi o motivo da viagem?
Emanuel – Foi, simplesmente, uma viagem turística. Porém, em 1976, fui convidado a visitar o país novamente, só que, desta vez, a viagem ocorreu por conta do Departamento de Estado norte-americano. Esta segunda viagem foi bem mais interessante porque tive a chance de conhecer pessoas de alto prestigio e tambem visitar importantes museus.
Em 1987, voltei novamente mas, à convite da Universidade de Nova York (CUNY). Durante este longo período minha relação com os EUA ficou mais profunda. Conquistei também relações pessoais que mantenho até hoje. Com estas visitas, é claro, a gente adquire uma certa consciência. Especialmente, para nós, afrodescendentes. Foi uma experiência bastante interessante. Além do que também pude ensinar técnicas do meu ofício de escultor. Portanto, este almoço na casa do professor George Preston foi, de uma certa forma, uma homenagem a minha primeira viagem aos EUA.
Afropress – Por que o senhor decidiu vir primeiro à Nova York, em 1972, na sua primeira visita aos EUA?
Emanoel – Na verdade, visitei Nova York e Washington. Primeiro, porque tinha alguns amigos que estavam vindo junto comigo para as duas cidades. Nova York, é claro, é uma cidade que todo mundo sonha em visitar. É sempre uma surpresa maravilhosa. Imagine, então, para um jovem vindo do interior da Bahia há 40 anos atrás. E Washington porque é onde se encontram os principais museus e monumentos do país.
Afropress – Qual foi o motivo do almoço na casa do professor George N. Preston?
Emanuel Araújo – Eu conheço o senhor Preston há varias décadas, e ele, de uma certa forma, foi o responsável por eu ser convidado para ser professor visitante do sistema de faculdades públicas de Nova York (CUNY), em 1986. Agora ele também teve uma participação importante na homenagem que estou recebendo pelo sistema de faculdades publicas de New Jersey (CUNJ).
Afropress – Como o senhor se sente tendo seu trabalho desenvolvido no Brasil sendo reconhecido aqui nos EUA desta maneira?
Emanuel – Me sinto muito gratificado com a homenagem pelo Estado de New Jersey.
Afropress – Em 2004, foi inaugurado em São Paulo o Museu Afro Brasil. Oito anos depois como o senhor está vendo a sua criação?
Emanoel – Bem, sou um pouco suspeito para falar o que penso do Museu porque vivo dentro dele diáriamente. Mas, é verdade que ele está bem diferente daquela acanhada inauguração, em 2004. O Museu cresceu muito em seu acervo. Ele também se consolidou, finalmente, como um importante Museu. As exposições começaram, finalmente, a acontecer. Tivemos enormes dificuldades no começo por causa da falta de patrocínio, pela localização etc. Mas tudo isto foi superado. E agora o Museu segue seu trajeto natural. Ou seja, uma instituição cultural com uma tipologia muito particular. Uma tipologia que, para o Brasil, ainda é novidade. Um Museu que não sendo museu de antropologia, sendo, sim, um museu de história, arte e memória, se propõe a uma revisão histórica do negro dentro da sociedade e na cultura brasileira. O Museu é uma espécie de espelho de auto estima. E nós queremos que as crianças que venham ao Museu saibam de seu passado, evidentemente doloroso, por causa da questão da escravidão e do tráfico negreiro.
Mas, que também aprendam sobre a participação importante de afrodescendentes ilustres no desenvolvimento do Brasil. Ou seja, poetas, escritores, pintores etc. E muitas destas manifestações positivas ainda estão ausentes da história do Brasil.
Afropress – Faça as considerações que achar necessárias ao leitores de Afropress.
Emanoel – Eu gostaria de dizer que o Museu Afro Brasil é um fato inédito no mundo. E quando digo inédito no mundo, não há arrogância nenhuma de minha parte. Aqui, em Nova York há a Biblioteca Schomburg que, óbviamente, tem uma importância muito grande para os EUA e, principalmente, para a comunidade afro-americana. Mas, esta Biblioteca não é exatamente aquele Museu, que envolve aspectos culturais da participação do negro.
É diferente a nossa formação. A nossa formação religiosa, a nossa formação sincrética, a questão católica brasileira, há uma outra forma, há uma outra vivência, há um outro componente de raça que nem está definida ainda. Mas, que há, sem duvida, uma outra formação, isto há. Então, na realidade, o Museu serve para mostrar isso. Nós sabemos do preconceito, do racismo etc. e o Museu Afro Brasil é uma arma contra isso.
Por outro lado, há uma ambiguidade no Brasil, que não existe nos EUA porque aqui há uma formação muito mais pragmática, do que a formação brasileira. Então esta formação, a nossa, é mais ambígua. Muita gente que é negra acha que não é, e muita gente não assume estas coisas; há ainda uma questão colonial que ainda paira, de uma certa forma, na consciência das pessoas na formação delas.
O Museu Afro Brasil, num certo sentido, é mais do que um contraponto, é um pilar de resistência para mostrar o que nós somos, de fato. Mestiços, todos, afinal de contas. Que, estranhamente, no século XIX havia pessoas importantes da raça negra como Paula Brito, o primeiro editor brasileiro, Nilo Peçanha, o primeiro presidente negro. Porém, muitas destas pessoas não receberam o reconhecimento devido. E para nós, isto sempre foi natural porque nem mesmo o presidente Nilo Peçanha se via como negro.
Esta é uma questão que eu chamo de ambiguidade. É e não é. Ao mesmo tempo é, e ao mesmo tempo não é. Portanto, nós precisamos reafirmar esta questão toda, através da consciência das pessoas, mas tambem através da educação delas. Agora com a obrigatoriedade das cotas nas universidades, eu acho que começa uma nova década de mudança no Brasil.
Afropress – Em nome da Afropress e de seus leitores gostaria de agradecer imensamente pela entrevista.
Emanoel – Obrigado a vocês também.

Da Redacao