S. Paulo – O Programa de Inclusão com Mérito no Ensino Superior Público Paulista (PIMESP), lançado pelo Conselho de Reitores das Universidades de S. Paulo, com o aval do governador Geraldo Alckmin, reserva apenas 10% das vagas existentes nas universidades estaduais paulistas para pretos pardos e indígenas, segundo análise feita pela professora Lighia Matsushigue, dirigente da Associação dos Docentes da USP (ADUSP) e diretora da regional/SP da Associação Nacional dos Docentes das Instituições de Ensino Superior/Sindicato Nacional (ANDES/SN) – durante a audiência pública na Assembléia Legislativa na noite desta quarta-feira (13/03).

A audiência foi convocada pela Comissão de Educação da Assembléia, presidida pela deputada Leci Brandão, do PC do B, a única negra entre os 94 deputados paulistas e, embora os reitores da USP, Unesp e Unicamp tenham sido convidados, apenas o da Unesp, Júlio Cezar Durigan, compareceu. João Grandino Rodas, da USP, e Fernando Ferreira Costa, da Unicamp, mandaram representantes.

Estavam presentes, além dos deputados Adriano Diogo, Telma de Souza, Alencar Santana, Luiz Cláudio Marcolino e Marco Aurélio, do PT, Carlos Gianazzi, do PSOL, Samuel Moreira e Roberto Engler, do PSDB, e Beto Trícoli, do PV, representantes dos movimentos sociais e da Frente Pró-Cotas, que se opõe ao projeto.

A representante de Rodas, Telma Zorn, Pró-reitora de Graduação, ameaçou se retirar e reagiu com deselegância ao ser vaiada pelos estudantes presentes. “Vou embora”, ameaçou, sendo contida pela mesa. 

De acordo com a professora Lighia, o Programa – lançado na esteira das iniciativas do Governo Federal, inclusive a Lei 12.711/2012, que criou as cotas sociorraciais, sancionada no ano passado pela Presidente Dilma Rousseff -, "não muda a cara da Universidade pública paulista majoritariamente branca”.

“Eles se propõe a reservar 10% das vagas para inclusão da população negra. Eles acham que o resto já está incluído. Isso não muda a cara da universidade pública paulista, infelizmente”, assinalou.

Números

O reitor da Universidade Virtual Paulista (Univesp), Carlos Vogt, responsável pelo Programa, garantiu que 50% das vagas serão reservadas aos estudantes das escolas públicas e, destes, 35% serão destinados aos estudantes pretos, pardos e indígenas – reunidos sob a sigla PPI.

Ocorre que, as tabelas distribuídas por Vogt deixam claro que, por exemplo, no caso da USP, falta incluir apenas 1.128 pretos, pardos e indígenas e oriundos da Escola pública, o que resulta no percentual de 10% das 10.733 vagas, segundo a professora Matsushigue, que pertence ao Instituto de Física da USP.

Há um outro aspecto que ela chama a atenção, segundo ela. “Eles projetam que não vai mudar esse número de vagas nos próximos três anos. Não vão aumentar as vagas. Isso é terrível porque é necessário aumentar o número de vagas no sistema público”, afirmou.

Só 10%

Segundo ela, no sistema de ensino superior paulista apenas 10% das matrículas pertencem a instituições públicas (municipais, estaduais e federais) e 90% estão nas mãos de instituições privadas – o mercado capitalista do ensino. “Falta vaga pública. Só 10% das vagas disponibilizadas para o ensino superior está  está nas escolas do sistema público”, afirmou.

Hoje apenas 16% dos alunos da Unicamp e da Unesp são oriundos das escolas públicas do ensino médio. Na USP, esse percentual é ainda menor:  apenas 14%.

College

Para Lighia, o Programa proposto pelos Reitores das Estaduais paulistas, com o aval de Alckmin, não é claro quanto aos números com os quais trabalha. Ela também critica a proposta do “college”, a criação de um curso superior de 2 anos para estudantes do ensino médio – com a expectativa de que se tiverem bom aproveitamento poderão ter acesso as FATECs ou a cursos das três principais públicas – USP, Unesp e Unicamp.

“A impressão é que é uma cortina de fumaça para vender ensino à distância e beneficiar a Univesp que já está mal das pernas. O negócio do ensino à distância é trágico e mais fajuta nas particulares do que os cursos presenciais”, afirmou.

Ela acrescenta que na criação do “college”  – como etapa intermediária, além disso, pode estar embutida uma manobra para desviar alunos das universidades públicas de ponta. “Fica claro que pretendem desviar uma parte da demanda das Universidades Públicas para as FATECs”, afirma .

Ela disse que isso fica claro porque a proposta prevê que com 70% de aproveitamento no primeiro ano, o aluno tem vaga nas FATECs e que, no segundo ano, com o mesmo aproveitamento, pode ter acesso a um curso na USP, Unesp ou Unicamp. “Só que o currículo do segundo ano, por exemplo, não tem Química, não tem Física e há matérias para estimular o empreendedorismo. É muito, muito esquisito”, finalizou.

Mesmo no “college”, ela disse que não está claro como serão preenchidas 60% das vagas, uma vez que a proposta é reservar 40% para PPI – Pretos, pardos e indígenas. “São 40% de PPIs para “college”, mas eles não dizem como será feita a escolha dos 60% restantes”, conclui.

Crédito das Fotos: Blog da Frente Pró-Cotas – ALESP

Da Redacao