Rio – A advogada Maysa Evangelista, que funcionou como assistente de acusação do Ministério Público, no julgamento do assassino do jornaleiro Jonas Eduardo Santos de Souza, na semana passada, acusou de racismo os integrantes do Tribunal do Júri, que fizeram parte do Conselho de Sentença e absolveram o segurança Natalício Marins, alegando que o mesmo agiu em legítima defesa. “O júri foi racista e eu posso afirmar isso com toda a certeza, pois observei durante todo o tempo o comportamento dos seus membros”, afirmou. A advogada lembrou que, dos sete membros do Conselho de Sentença, cinco eram homens brancos, e apenas duas mulheres, igualmente brancas.
Natalício Marins, o segurança da Protege, executou o jornaleiro com um tiro no peito, no dia 22 de dezembro do ano passado, quando este tentava entrar na Agência, da qual era cliente há 10 anos e foi barrado na porta giratória.
Segundo Evangelista, que funcionou como assistente do promotor Paulo Rangel, no julgamento realizado pelo 2º Tribunal do Júri, do Rio, as atitudes racistas e desrespeitosas à vítima puderam ser comprovadas com os comentários feitos pelos quatro advogados contratados pelo Itaú e pela Protege, em pleno júri, um deles de Porto Alegre, e outra de S. Paulo, de nome Marcília. A Afropress não conseguiu localizar esses profissionais. A Asssesoria de Imprensa do Itaú foi procurada, porém, não retornou.
Um desses comentários, a chocou particularmente: “Quem não atiraria, se um negro, com um compleição física forte, caminhasse em sua direção, chamando-o de viadinho, filho da p…”, teria afirmado um dos advogados. A advogada disse que expressões desse tipo foram ouvidas durante o debate.
Outro fato que causou estranheza foi o fato de a gerente da agência onde o jornaleiro foi morto, ter testemunhado a favor do assassino. Evangelista disse que as câmeras da agência mostram imagens que reforçam que “os brancos que se dirigiam à agência entravam normalmente, sem serem barrados”. “Só o negro, o Jonas, foi barrado. Eu não tenho dúvida. E foi barrado porque era negro”, afirmou, acrescentando acreditar que o Tribunal de Justiça deverá anular o julgamento e marcar outro.
Repercussão
O advogado Humberto Adami, que logo após a morte do jornaleiro, liderou movimento de protesto que chegou a paralisar a agência durante um dia (foto), disse que a absolvição do assassino demonstra a dificuldade do aparelho judicial brasileiro funcionar nas questões raciais. “Mais uma vez se comprova a dificuldade do aparelho judicial funcionar nas questões raciais e a necessidade de termos operadores de direito em nível suficiente para atender as demandas. Eu penso que as entidades do Movimento Negro e Sindical devem refletir melhor para investir em estagiários para esse tipo de tema”, afirmou.
Adami disse que a absolvição do assassino de Jonas deveria também provocar uma reflexão nos que estão fazendo agrados ao Banco Itaú. “Deveriam vir a público e dizer que estavam errados. O Banco investiu pesadamente na absolvição do assassino”. Ele também acha que deve ser cobrada a ausência de entidades negras ao julgamento. “Mais uma vez se repete o roteiro: muita gente em frente das câmeras e logo depois, o sumiço e quase abandono”, comentou.
Adami também defendeu que a OAB apure a conduta dos advogados que participaram do julgamento. “A OAB deve apurar a conduta desses advogados. Embora tenham isenção de voz, não podem ofender a vítima, desrespeitando como fizeram os familiares e expondo suas teses racistas”, concluiu.

Da Redacao