PORTO ALEGRE/RS – O advogado Antônio Carlos Côrtes, personagem da história do movimento negro gaúcho e brasileiro como fundador do Grupo Palmares, disse que, ao saber do assassinato do soldador João Alberto Silveira Freitas (20/11/2020), sentiu a mesma indignação de quando soube da morte de George Floyd (maio/2020), o homem negro morto pela Polícia do Estado de Minneápolis, EUA.

“Parece que enxugamos gelo. Viver no segundo Estado mais racista do Brasil (Rio Grande do Sul) é saber qual de nós será o próximo. Vou morrer lutando contra estes assassinos e quem abandona o verbo de ser negro por verba”, afirmou.

Na entrevista a Afropress, o advogado que acaba de ser condecorado pelo Governo gaúcho com a Medalha Simões Lopes Neto, falou da indignação com “quem abandona o verbo de ser negro por verba”, uma referência ao acordo assinado pelo Carrefour com entidades do movimento negro paulista (Educafro e Centro Santo Dias), que exclui a responsabilidade da empresa; cobrou uma atuação fiscalizadora rigorosa do Ministério Público; reiterou o protesto diante das entidades, inclusive, a histórica Sociedade Floresta Aurora que participou de projetos com o Carrefour e, ao comentar a posição de certos grupos que defendem tais acertos, foi conclusivo.

“Respondo com palavras de Solano Trindade –  “irmãos negros, opressores em quaisquer parte do mundo não são meus irmãos. Irmãos negros oprimidos, em quaisquer parte do mundo são meus irmãos”. Tenho lado. Fico com o coletivo e Cia.

Confira o inteiro teor da entrevista ao editor, jornalista Dojival Vieira.

AFROPRESS – Como um ativista histórico, fundador do Grupo Palmares, junto com Oliveira Silveira, como se sentiu ao saber do assassinato de João Alberto Silveira Freitas, por seguranças do Carrefour?

ANTÔNIO CARLOS CÔRTES – Senti a mesma revolta da morte do George Floyd. Parece que enxugamos gelo. Viver no segundo Estado mais racista do Brasil (só perdemos para Santa Catarina) é saber qual de nós será o próximo. Vou morrer lutando contra estes assassinos e quem abandona o verbo de ser negro por verba.

AFROPRESS – Considerando as circunstâncias do crime, como encara e interpreta a tímida reação do movimento negro, inclusive da parcela organizada, ao contrário com o que ocorreu nos EUA após o assassinato de George Floyd?

ACC – A pergunta inteligente traz no bojo a resposta.

Precisamos progredir de movimento negro, para negro em movimento.

AFROPRESS – Como está acompanhando os acordos feitos pelas duas ONGs de S. Paulo, que estão sendo questionados na Justiça?

ACC – Justiça é içar o justo. Penso que o MP como fiscal da Lei deve acompanhar o caso de perto.

AFROPRESS –  Considerando que tais acordos violam o texto legal e se inserem no contexto de um processo de cooptação de entidades negras, como está vendo o esforço por parte do Coletivo Cidadania, Antirracismo e Direitos Humanos, no sentido de impedir que o Carrefour seja excluído da responsabilidade civil em tais acordos?

ACC – Respondo com palavras de Solano Trindade ” irmãos negros, opressores em quaisquer parte do mundo não são meus irmãos. Irmãos negros oprimidos, em quaisquer parte do mundo são meus irmãos”. Tenho lado. Fico com o coletivo e Cia.

AFROPRESS – Não achas, como advogado experiente, que tais acordos podem influenciar o julgamento dos assassinos na esfera penal?

ACC – Sem dúvida. Sou advogado jubilado pela OAB do RS.  Acordo tem corda. A mesma que asfixiou João Alberto .

AFROPRESS – O senhor se posicionou publicamente contra a adesão do Floresta Aurora – entidade histórica do movimento negro gaúcho e brasileiro – ao projeto de cooptação do Carrefour.  Como acha que se pode reverter esse processo extensivo a outras entidades negras?

ACC – O Floresta completa  150 anos neste 2022. É a mais antiga sociedade negra do país. Fundada em 1872. Antes da Abolição de 1888.

Mantenho posição quanto a adesão. Sequer respeitaram um ex- presidente e membro nato do Conselho Deliberativo. Como não fui desagravado por ninguém da mais que Centenária Sociedade, só    espero que não coloquem no muro externo placa de agradecimento ao Carrefour.

Espero sim, que outras entidades contempladas sejam fiscalizadas a rigor pelo MP.

AFROPRESS – O procurador Jorge Terra, presidente da Comissão da Verdade sobre a escravidão gaúcha, afirmou que “o acordo Carrefour Educafro é estranho e contraria a lógica”. É também este o seu sentimento?

ACC – Tecnicamente, tem razão. Como não conheço a fundo todos meandros do acordo, me reservo direito de não opinar.

AFROPRESS –  Peço que faça as considerações que julgar pertinentes.

ACC – Recebi do Governo do  RS, a Medalha Simões Lopes Neto. Das maiores honrarias do Estado. Logo, prossigo para conquistar aquilo pelo qual também fui conquistado.