A professora de Letras da PUC-Rio, Rosa Marina de Brito Meyer, postou em uma rede social a foto de um cidadão de bermuda e camiseta regata, sentado a uma mesa, em um dos aeroportos do país. Pela foto, é possível deduzir que o senhor está aguardando o horário de embarque no avião. Até aí, nada demais. O problema é que a "mestra", em tom jocoso, tentou ridicularizar a situação, e soltou o verbo: "Aeroporto ou rodoviária? Viramos uma rodoviária? Cadê o glamour?”. 

O que mais surpreende é que ela não ficou sozinha. Para espanto de muita gente boa (imagino!), o “magnífico” reitor da UNIRIO, Prof. Dr. Luiz Pedro San Gil Jutuca, respondeu a provocação da colega: "O "glamour" foi para o espaço". No que a “digníssima” docente da PUC-Rio retrucou: "Puxa, mas para o glamour falta muuuito! Isso está mais para estiva".  

Pensa que parou por aqui? Nada disso… Outra coleguinha, a coordenadora de graduação e professora da PUC-Rio, Daniela Vargas, acrescentou em seu comentário: "hehe. E sabe o que é pior? Quando esse tipo de passageiro senta exatamente ao seu lado e fica roçando o braço peludo no seu, porque – claro! – não respeita (ou não cabe) nos limites de seu assento".

Um diálogo comum? Óbvio que não! A lógica perversa de dominação foi escancarada sem pudor. Quando os digníssimos professores doutores viram que a "conversinha ingênua sobre aeroportos" tinha ido parar na grande mídia, eles imediatamente lamentaram a "má interpretação" de suas falas e garantiram que não pretendiam se manifestar de forma preconceituosa ou ofensiva em relação ao passageiro. Resta perguntar para essas pessoas tão pouco esclarecidas sobre preconceito e discriminação: Qual era então a intenção de alguém que fotografa um desconhecido e publica a foto com legenda pejorativa se não a de humilhar e ofender?

A grande questão que precisamos levantar é a de que, aqui nesse país Educação é um fator de distinção, e não de transformação. Faz parte de nossa cultura festejar quando um familiar entra no ensino superior, mesmo que ele saia da mesma forma que entrou, sem nenhum conteúdo.

No plano simbólico a universidade nos faz superior aos demais, é um triunfo sobre os demais. Pertencer a uma universidade proporciona uma espécie de ascensão, mesmo que a instituição de ensino esteja mal no ENADE (Exame Nacional de Desempenho dos Estudantes). O senso comum nos diz que lugar de trabalhador não é nos clubes sociais, nos elevadores sociais, nos shoppings centers, nas universidades… nem nos aviões.

Afinal, devem pensar os nossos ilustres acadêmicos, de que adiantou o doutorado se ainda assim eu tenho que dividir com esse “outro” – o moço da foto, visto por tão sensíveis e educados olhos, como pobre, iletrado, suburbano e sem glamour – o mesmo espaço, ainda que este seja público? Mas não é apenas esta tentativa de segregação que indigna… O que incomoda é saber que educadores, aqueles que possuem instrumentos para promover as mudanças necessárias, como multiplicadores que são de ideias, continuam a perpetuar as exclusões e os privilégios.

Nota da Redação:

Marcelino Conti é também Pesquisador do Núcleo Fluminense de Estudos e Pesquisa (NUFEP/UFF) e do Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia – Instituto de Estudos Comparados em Administração Institucional de Conflitos (INCT-InEAC).

Marcelino Conti de Souza