Se por um lado no que se refere à liturgia, aos preceitos rituais, os poderes hierárquicos da tradição são absolutos, no que se refere as ações projetadas para fora elas entram em espaços de luta e afirmação.
É aqui nesse contexto que se situam os afoxés, cujas armas são a estética do encantamento composta de beleza e alegria, valores da linguagem da tradição nagô se espraiando pelo espaço urbano do carnaval.
Nas vilas e cidades nagô-yoruba na África é comum festivais religiosos acontecerem em espaços públicos, as entidades desfilam acompanhadas pelo povo em procissão,
como o culto Gelede dedicado as Mães Ancestrais, em Ketu, festivais do culto aos Baba Egun, os ancestrais masculinos, em diversas cidades do antigo império yoruba, as oferendas do Ataojá ao rio Oxun para o rei Laro, ancestral fundador da cidade de Oshogbo, onde Oxun é o orixá patrono, ocasião que ocorre a visita de vários reis vizinhos que reforçam os laços de amizade, o festival Epa em Ekiti, onde ocorre um cortejo de entidades que proporciona a elaboração da saga da humanidade, na presença das maiores autoridades locais, dentre muitos e muitos outros cortejos.
No Brasil, num contexto histórico adverso para manter viva essas tradições africanas dos cortejos, eles acontecem em meio a certas referências católicas como a procissão da sociedade de N. Senhora da Boa Morte em Cachoeira, a famosa Lavagem do Bonfim em Salvador, e outras referências africano brasileiras como os cortejos das Congadas, a coroação dos reis e rainhas do congo, espalhadas pelo país.
Algumas instituições se deslocam para o carnaval, como por exemplo os Maracatus.
O afoxé Troça Carnavalesca Pai Buruko, foi fundado em Salvador por Deoscoredes Maximiliano dos Santos, descendente da tradicional linhagem Asipa, nos dias de hoje Mestre Didi Alapini, na roça do Ilê Axé Opo Afonjá, no tempo da inesquecível Mãe Aninha, Iyalorixá Oba Biyi, nos fins da década de 30. Ele e mais alguns amigos seguiram as orientações da avó Aninha, e depois de algumas tratativas foi criado o Pai Burukô.
Afoxé é palavra da língua yoruba composta de duas outras palavras, afo, que é sopro, hálito que acompanha a emissão da palavra pronunciada, de quem a pronuncia, e axé, que em geral se traduz por força espiritual, força emanada de uma visão sagrada de mundo.
A levada das mensagens dos integrantes do grupo carnavalesco se faz através do ritmo ijexá, que é característico de Oxun patrona da música.
Os instrumentos são básicamente pequenos tambores ou atabaques, os agogô, os xekeré,
e ainda, na partida também os clarins para a execução do hino.
Antes de mais nada porém, para que as mensagens sejam bem recebidas , e tudo ocorra bem são feitos os preceitos necessários as entidades para que protejam e abram os caminhos por onde circulará a Troça…
O Pai Burukô canta e dramatiza os valores e os desejos de liberdade de sua gente afirmando desde suas vestimentas, o cabedal de herança do contínuo civilizatório africano e as estratégias da luta de reposição e afirmação existencial no contexto em que acontece.
O afoxé possui alguns momentos característicos após o hino, afirmações e reinvindicações como nos versos,”jiribumbum, qui tera é nossa”, “visitá governadô prá esse vida miorô” a dramatização do “oluô” que brinca com os assistentes “jogando búzios”, “aile aila Buruko já vai jogá”, a “fuga”, “pai Buruko soldadevém”, “entra em beco sái in beco”, as brincadeiras ao som do ijexá ou do samba de roda, “o samba aqui tava bão gente de fora chego trapaiô”, as despedidas, ” minha gente vam simbora qui o vapo já suviô essa gente anda dizendo qui o agogô num presto…”
O afoxé vai evoluindo no ritmo encantador do ijexá e na alegria de seus componentes irmanados na liberdade da afirmação de seus valores através da brincadeira, da troça, Troça Carnavalesca Pai Buruko.

Marco Aurélio Luz