Multiforme e caótica, Johannesburgo, atordoa visitante de 1ª viagem
Depois de oito horas de viagem em que não consegui pregar o olho por conta de um grupo ruidoso de torcedores argentinos, passei a quarta-feira feito um sonâmbulo, procurando decifrar as primeiras imagens da África. Só agora começo a me achar.
Outra tentação é a de tentar entender tudo de imediato, traçando grandes generalizações a partir dos fragmentos de realidade com que entramos em contato. Rodamos três quarteirões e “concluímos”: puxa, ninguém anda a pé em Johannesburgo -ou, pior ainda, na África do Sul.
Depois de receber três sorrisos encantadores, saímos dizendo que os sul-africanos são o povo mais simpático do mundo. Mais ou menos como o Dunga, que, ao ver em Harare meia dúzia de escolares uniformizados e sorridentes, concluiu que a educação no Zimbábue era desenvolvida.
O fato é que a África nos entra por todos os poros, por todos os sentidos, e temos dificuldade em dar conta de tanta informação, de tanta novidade. Sentimos quase necessidade de nos confortar com interpretações e definições.
Ontem fomos a Soweto ver o tedioso treino da seleção brasileira. Aliás, uma sacanagem com o público local o único treino aberto ser um bate-bola e exercícios físicos.
No carro, Tostão, Juca Kfouri e eu íamos comentando tudo o que víamos. É uma das maiores favelas do mundo, mas na parte que vimos dela as casas são ajeitadinhas, de alvenaria, e as ruas são asfaltadas. Nada que lembre a feiura suprema das favelas de São Paulo e Rio.
Entretanto sabemos que há um Soweto mais miserável e deteriorado, tanto quanto sabemos que, entre aqueles rostos simpáticos e aqueles graciosos corpos bamboleantes, já rolou e ainda rola muito sangue.
Algumas informações chocam até mesmo a nós, já habituados com as iniquidades do Terceiro Mundo. Tostão lembrou, por exemplo, que todo o sistema de saúde na África do Sul é privado, o que, em um país que tem milhões de miseráveis, é um genocídio.
Também o transporte público é praticamente inexistente em Johannesburgo. Os pobres -ou seja, a imensa maioria- são deixados à própria sorte. Ainda assim, nas ruas se dança, se canta, se assopra a irritante vuvuzela. Misteriosa África.
O texto foi publicado, primeiro, na edição de 04/06 do Jornal Folha de S. Paulo.

José Geraldo Couto