A mãe África celebrou nesta semana o aniversário da criação, em 25 de Maio de 1963, em Addis Abeba, capital da Etiópia, da Organização da Unidade Africana (OUA), rebatizada em 2002 União Africana (UA). Olhando o panorama atual do continente começo por recordar uma conversa recente que tive com um amigo angolano em que ele me disse, em tom de brincadeira muito séria, que em África aprendeu a nunca descalçar as suas botas de militar devido à incertezas quanto ao futuro.

No mesmo sentido, sobre um continente onde apenas o hoje conta verdadeiramente, Agostinho Neto, o poeta-guerrilheiro e primeiro presidente de Angola, questionava: ''ah! quem comparou a África a uma interrogação cujo ponto é Madagascar?''. 

Podem soar muito afro-pessimistas mas ambas abordagens são de todo legítimas em resultado do trágico histórico do continente, tanto ontem quanto hoje.

Não me impressionam, por isso, os relatórios internacionais que exaltam o continente com elevados índices de crescimento, aumento de consumo interno, aumento de reservas internacionais, queda da dívida externa, aumento do volume de transações internacionais, emergência de uma elite empresarial africana visivelmente rica etc.

Qualquer observador mais atento sabe que estes desenvolvimentos são, em bom grau, impulsionados por economias – como as chinesa, brasileira, indiana e outras emergentes, principalmente a primeira -, que se desenvolveram e, em consequência, buscam novos mercados para seus produtos e serviços, bem como a exploração dos recursos naturais africanos em áreas outrora quase exclusivamente sob o domínio de europeus e norte-americanos. 

Portanto, em minha opinião, o ambiente do otimismo que se tenta vender em resultado de algum inegável progresso econômico não se reflete, na maioria dos países do continente, no essencial: emprego, estabilidade social e melhoria de vida das populações. Pelo contrário, neles se agravaram o nível de vida da maioria, particularmente o de uma juventude desempregada e desesperançada que parte aos milhares para latitudes fora e dentro do continente, neste caso principalmente para África do Sul, em busca de um lugar ao sol da vida. Criaram-se elites político-empresariais e militares corruptas que capturaram e privatizaram os Estados gerindo-os como se fossem suas empresas privadas.

José Eduardo dos Santos, por exemplo, presidente de Angola desde 1979, reclamou publicamente, num discurso proferido em 2013 sobre o Estado da Nação, o direito dos africanos fazerem a sua própria acumulação primitiva de capital, processo pelo qual passaram e se beneficiaram os países industrializados do hemisfério norte em séculos passados. Mas esqueceu-se de enfatizar que tal processo foi feito com regras, valores humanos, éticos e morais hoje condenáveis.

Nada contra africanos ricos. Pelo contrário, que os haja e muitos! Mas que as regras do processo de acumulação de capital estejam assentes hoje num mínimo de decência, humanidade, ética, moral e que sejam transparentes, feitas com boa governança, em igualdade de oportunidades e com justa redistribuição de renda, o que não parece ser o caso de Angola e muitos outros.

O regresso de guerras aos Grandes Lagos, há mais ou menos década e meia, retirou aos povos da região perspectivas de um futuro próximo mais risonho. Na base das mesmas, como sempre, os interesses de uns quantos políticos locais sedentos de riqueza e do poder a qualquer preço que, espicaçados por nebulosos e poderosos interesses geopolíticos e econômicos externos, arrastam seus povos em sangrentos conflitos que visam o controle de preciosos recursos naturais que, tal como o petróleo, se tornam riquezas malditas para os africanos como são, entre outros, os casos do ouro, diamantes e coltan. 

Golpes de Estado ou suas tentativas nos últimos anos em países como o Madagascar, Mali, Nigéria, República Democrática do Congo, República Centro Africana, Sudão do Sul, Guiné-Bissau, e mais recentemente, no Burundi, ameaçam a estabilidade política, econômica e social de todo o continente. E, para agravar ainda mais o panorama, surge ou agrava-se nos últimos tempos o fundamentalismo religioso de grupos como o Al Qaeda do Magreb Islâmico que atua na região que compreende o Mali, Mauritânia, Argélia e Líbia, o Al-Shabaab (Somália e Quênia) e do Boko Haram (Nigéria, Camarões e Chade), só para citar os mais conhecidos. 

Países como a Libéria e a Serra Leoa  que nas décadas de 90/2.000 se confrontaram entre si e se confrontaram com fratricidas guerras civis internas tendo como pano de fundo o controle de diamantes na região (retratado no filme diamantes de sangue) fazendo milhares de vítimas mortais e milhões de refugiados, mal respiraram a paz e foram, a par da Guiné Conacri, assolados devastadoramente pelo surto do ébola que ainda hoje continua e que, para além de ceifar milhares de vidas, afeta drásticamente as respectivas tarefas de reconstrução e desenvolvimento que vinham tendo. E o crédito do combate ao ébola vai todo para ajudas e intervenções externas quando na realidade são os próprios médicos, enfermeiros e estruturas de governo locais os que mais combatem a terrível enfermidade.  
  
Da esperança do impacto positivo de ventos de democracia originados pela chamada primavera árabe iniciada no final de 2010, países magrebinos como o Egito, a Tunísia e a Líbia, vivem hoje em constante instabilidade politica e social. O último, que sob Kadhafi era o país africano com maior índice de desenvolvimento humano, tornou-se rapidamente num estado falido após a intervenção da OTAN (diga-se mais precisamente os EUA, França e Reino Unido) em socorro dos ''democratas'' locais, numa operação  que mais pareceu um de ajuste de contas com o antigo ditador líbio por seus alegados apoios ao chamado terrorismo internacional e desafios abertos aos poderosos do mundo. 

Quem, atento à política internacional, não se lembra do célebre ataque que, em 2009, Kadahfi fez ao Conselho de Segurança da ONU, rasgando a carta desta organização que, no entender do escritor camaronês Jean-Paul Pougala, a ''África deveria abandonar para registrar a sua rejeição a uma visão de mundo que se baseia na aniquilação dos que são mais fracos.“  Vai um dia a África honrar o plano do líbio de uma moeda única para todo o continente, livre da concorrência do dólar, do euro e do franco CFA, (moeda com que a França vem controlando alguns países africanos desde suas independências), uma das prováveis causas do seu brutal derrube e morte?

Perante um quadro assim nada animador em vários países de África, ao qual se pode acrescentar autênticas farsas eleitorais, enrugadas ditaduras com botox de democracias, preocupantes violações dos direitos humanos com repressão de liberdades básicas, não sendo de todo um afro-pessimista, não partilho da euforia dos que apressadamente mataram o afro-pessimismo, embora sejam reconhecidos inegáveis progressos no que toca, particularmente, ao panorama econômico.

Em benefício da dúvida para com os atuais governantes africanos, há que se ter igualmente em consideração que são democracias recentes, ou seus projetos, e que os africanos ainda engatinham como independentes, com todos os constrangimentos herdados de ocupações coloniais e de guerras fratricidas. São democracias frágeis, algumas não passando de ditaduras disfarçadas, mas tanto num caso como no outro estão definitivamente lançadas as sementes para um futuro mais auspicioso, de acordo com cada realidade.

Neste sentido são reconhecidos os avanços nas práticas de democracia e boa governança creditadas, particularmente, à países insulares como Cabo Verde,  Maurícias e Seychelles, e continentais como a Namíbia, o Gana e o Botswana, para citar alguns exemplos.

Resulta pois em erro crasso reduzir qualquer abordagem ao olhar externo estereotipado e preconcebido dos que como ''independentes'' e ''democratas'' são, na perspectiva da história, tios, avôs, bisavôs ou tataravôs. Porém, o tal benefício não pode servir para que todos os fracassos sejam justificados como se faz no Brasil onde, passados quase duzentos anos de independência, aos portugueses se apontam as origens de todos os males do país. 

De assinalar igualmente a quase paz na região austral do continente, afetada num passado bem recente pelas fratricidas guerras civis em Moçambique e Angola. A mesma se encontra hoje em pujante crescimento econômico, embora volta e meia haja ameaças de um regresso à guerra entre antigos beligerantes no primeiro e siga um esquecido conflito com os separatistas de Cabinda, no segundo. 

No que toca à corrupção, o Índice de Percepção, da Transparência Internacional, elaborada em 2014 mostra o Botswana ocupando a mesma posição que Portugal (31), sendo menos corrupto que países da União Europeia (UE) como a Polônia (35) e a Espanha (37). Cabo Verde (42) e Seychelles (43), sofrem menos com a corrupção do que membros da UE  como Hungria (47) e República Checa (57). 

Outros países africanos como Maurícias (47), Namíbia (55), Lesotho (55), Ruanda (55), Gana (61) e mesmo a África do Sul (67), de Jacob Zuma, com todos os seus escândalos envolvendo corrupção, apresentam nesta matéria índices mais baixos do que países europeus, asiáticos, iberoamericanos e caribenhos.

Os citados exemplos mostram como é errado olhar para todo o continente na perspectiva de um só país. São várias as Áfricas, cada uma com suas múltiplas realidades e tradições, enfrentando problemas mais ou menos graves. Umas com guerra, outras com ausência dela. Umas com profundas divisões e conflitos étnicos e religiosos, outras com vibrantes manifestações culturais que vão influenciando o mundo como o kizomba ou o kuduro, de Angola. Umas, com extraordinários empreendedores, outras com saqueadores. Umas, com políticos honestos, outras com malandros na política, como em todo o mundo. 

Mas quase todas carentes de infraestruturas de saúde e educação bem como de redes elétricas, viárias, ferroviárias, aéreas e portuárias indispensáveis a uma interconexão que permita maior comércio intercontinental, industrialização, progresso, desenvolvimento integrado e sustentável do continente, o que também mostra que o longo e farto banquete da exploração colonial óbviamente esteve longe de servir aos africanos. 

Assim, mesmo perante o quadro mais otimista, não sou dos que caem na armadilha da conversa da inserção do continente no processo chamado de globalização porque a mesma cheira-me a esturro, com os mesmos dados perversos e viciados de sempre para satisfazer os interesses de poderosos abutres externos que usam raposas internas para lograr seus objetivos.

E, se a satisfação de tais interesses é  questionada, quem o faz arrisca-se ao mesmo fim do extinto líder líbio. Assim, parafraseando uma vez mais Agostinho Neto, diria que hoje a África continua sendo ''um corpo inerte, onde cada abutre vem beliscar o seu pedaço''.

As generosas utopias que guiaram as lutas de libertação não morreram. As utopias não morrem. Enganam-se os que, trocando o caráter e a dignidade por cifrões, pensam que as mataram. Voltarão um dia ressuscitadas e fortemente abraçadas pelos mais belos dos belos filhos de África que, sem dúvidas, a governarão imbuídos de um verdadeiro espírito ubunto, a filosofia de vida fraterna e solidária, sem qualquer ''ismo'', que coloca o coletivo acima do individual e que sempre caracterizou as sociedades africanas.

Até lá, e apesar de todo o pesado fardo de ontem e de hoje, os africanos seguem caminhando, resistindo, chorando mas também cantando, dançando, criando e sorrindo de olhos postos num verdadeiro, justo e moderno renascimento. 
  

Alberto Castro