É claro que o telespectador(a) não verá na televisão brasileira e tampouco o leitor(a) lerá nos principais jornais do país sobre o outro lado do Sudão. O lado que mostra o país crescendo, negócios sendo abertos, hotéis sendo levantados, supermercados fartos de produtos, carros da marca BMW cruzando as ruas, etc.
O Sudão é rico em petróleo, e mesmo com o embargo de companhias norte-americanas e européias para forçar o país a acabar com a crise em Darfur, o país cresce com investimentos vindos de outros países como a China (que anda investindo maciçamente na Mãe-Pátria), Malásia, Índia, Kuait e os Emirados Árabes. Estes países juntos já investiram mais de 2 bilhões de dólares no Sudão.
Ainda há muito o que fazer, começando pela péssima distribuição de renda, entretanto, o PIB cresceu 8% em 2005 e de acordo com o FMI cresceu mais de 10% o ano passado. E o Brasil com toda infra-estrutura que possui e investimentos que entram não consegue crescer mais do que 3.5% ao ano na (já) era Lula.
Os chamados produtos primários sempre foram à base de crescimento da economia local, mas o atual crescimento vem do aumento da produção do petróleo bruto. Parece que o governo sudanês percebeu que a melhor maneira para fazer o país crescer é investir o dinheiro público na ampliação e melhoramento da infra-estrutura. Milhões de dólares estão sendo investidos em novas estradas, pontes, hidroelétricas, hospitais, escolas, etc.
Em 1997, os EUA impuseram um embargo comercial, congelaram bens do governo sudanês e praticamente pararam com o comércio entre os dois países. A principal razão desta atitude foi à ligação do terrorista Osama Bin Laden com o Sudão onde ele viveu durante parte dos anos 90. Entretanto, em 1999 quando as primeiras gotas de petróleo começaram a cair, a economia voltou a crescer. Um grupo de tecnocratas do governo treinado no exterior começou a seguir a cartilha de orientação do FMI, ou seja: cortar as despesas surpérfluas do Estado, privatizar, manter a inflação sob o controle e aumentar investimentos na infra-estrutura.
Até mesmo os expatriados começaram a retornar, atraídos, é claro, pelas novas oportuniddes de negócios. Esta nova realidade passará desapercebida pelos nossos “fazedores” de opiniões. Infelizmente por causa do preconceito brasileiro em relação ao Continente africano, imagens esteriotipadas da África ainda continuam presentes no imaginário brasileiro.
Película
A primeira imagem que vemos no filme Casa de Areia é de um grupo de colonos caminhando enfrentando uma tempestade de areia como se fôssem pequenas formigas em uma praia. Sabemos que o lugar é o Maranhão (NE), e o ano é 1910 – apenas 32 anos após a abolição da escravatura no país.
As duas mulheres do grupo estão acompanhando o líder em sua utópica aventura de colonização. Após a súbita morte deste e a debandada dos demais, mãe e filha se vêem sozinhas entregues à sua própria sorte. Elas conseguem sobreviver graças à ajuda de uma comunidade de ex-escravos.
O filme mostra a trajetória delas (Fernanda Montenegro e Fernanda Torres alternando papéis) em um período de 60 anos, e também seu envolvimento com esta comunidade. Durante o período em que viveram junto a esta comunidade de ex-escravos nada ficamos sabendo do relacionamento delas com as mulheres.
O filme conta ainda com as participações de Seu Jorge como o jovem líder dos quilombolas chamado Maior, e Luis Melodia, interpretando o mesmo líder só que mais velho. Vemos também a participação de Emiliano Queiroz como o comerciante Chico que faz a ponte entre a comunidade e o mundo exterior, Jorge Mautener como o militar Luis, e Stênio Garcia no mesmo papel só que mais velho.
Apesar da bela fotografia, pouco se discute o final da escravidão. O filme perdeu a oportunidade de mostrar um pouco melhor o relacionamento entre mãe, filha e a comunidade de ex-escravos. Afinal, sabemos que se estes quilombolas fugiram para este lugar foi exatamente para escaparem das amarras dos senhores de escravos brancos. Não acredito que os ex-escravos aceitariam sem conflitos o relacionamento com seus opressores como o filme tentou mostrar.
Desportista
Provavelmente você nunca ouviu falar de Jackie Robson, ou o porque dele ser tão famoso aqui nos EUA. Este ano este desportista afro-americano foi lembrado novamente porque, há exatamente 60 anos, fez história como o primeiro jogador negro a participar de um time de “baseball” na liga profissional que era exclusiva para os brancos.
Em 1947, o senhor Robson (1919-1972) transformou o esporte profissional mais popular do país após quebrar a barreira da cor. Até então os jogadores de “baseball” negros (em muitos casos superiores aos jogadores brancos) eram relegados a jogar naquilo que ficou conhecido aqui como “The Negro League” (A Liga Negra), ou seja, os jogadores afro-americanos eram segregados da liga profissional, e também mais rentável dos brancos.
Um pioneiro na luta pela igualdade de oportunidades aos afro-americanos, o senhor Robinson aguentou uma torrente de abusos e humilhações nas primeiras temporadas no time do “Brooklyn Dodgers”, de Nova York. Alguns de seus companheiros de time montaram até uma campanha para tirá-lo da equipe, enquanto jogadores racistas dos outros times junto com torcedores o xingavam, ameaçavam e infernizavam sua vida dentro e fora dos gramados.
Jackie Robson não se deixou abater, vestiu-se de uma enorme coragem e respondeu em campo com atuações brilhantes, inclusive levando seu time ao título da temporada de 1947, e ele mesmo recebendo o troféu como o jogador revelação do ano.
No Brasil, a nossa maior estrela do futebol jamais comentou um único caso sobre o racismo que é notório nos gramados brasileiros, e que provavelmente ele deve ter sofrido muito quando começou sua carreira profissional.
Uma das grandes conquistas do senhor Robinson durante suas temporadas como atleta profissional foi abrir caminho para outros atletas afro-americanos nas grandes ligas. Depois de se aposentar, ele continuou sendo um grande defensor dos direitos civis dos afro-americanos enquanto ao mesmo tempo construía uma carreira de sucesso nos negócios.
Diferentemente do Jogador Pelé que peca muito por sua subserviência, o senhor Robinson escreveu uma autobiografia intitulada “I Never Had It Made” onde conta em detalhes como foi enfrentar e vencer o racismo norte-americano.

Edson Cadette