Sitges/Catalunha/Espanha – Sitges (pronuncia-se Sitis), cidade da costa mediterrânea espanhola situada a 36 km ao sul de Barcelona, e considerada a Saint Tropez da Catalunha, é um exemplo de como a crise européia se reflete nos milhares de imigrantes africanos que buscam a sobrevivência vivendo de bicos – muitos deles, "sin papeles", como aqui são tratados os que não tem sua permanência legalizada.

No calcadão que divide a praia da rua e das dezenas de bares, nos quais famílias espanholas ainda não atingidas pela crise se divertem nos fins de semana, mesmo no inverno como agora, um grupo de pelo menos 50 africanos de diferentes países, a maioria dos quais senegaleses, divide um espaço de pouco mais de duzentos metros para exibir suas mercadorias comum olho nos possíveis fregueses e outro na Polícia e nos fiscais da Alcadia.

A apenas poucos metros das esteiras com bolsas, relógios, camisetas, CDs e DVDs, todos pirateados, uma placa avisa aos possíveis e raros compradores: "No compres productos "Top Manta". A designação "Top Manta" é usada porque os ambulantes imigrados desenvolveram uma técnica própria para escapar à fiscalização e evitar a perda das mercadorias. Assim que sentem ou veem sinais de que os fiscais se aproximam, antes mesmo de serem abordados, puxam uma cordinha que envolve os produtos e a esteira se transforma em saco, o que facilita a fuga.

O editor de Afropress, jornalista Dojival Vieira, que está em viagem a familiares na Espanha, observou por quase uma hora na tarde deste sábado (08/12), o movimento dos camelôs africanos no calçadão de Sitges. Nesse tempo ninguém demonstrou interesse pelos produtos. A maioria das pessoas  – casais e famílias inteiras aproveitando a tarde ensolarada, ainda que sob uma temperatura média de 12 graus típica desse período do inverno europeu, não parou diante das esteiras estendidas.

Oscar, cujo sobrenome, ele preferiu não revelar, mas que aceitou falar, chegou da Costa do Marfim há três anos. Vendia bolsas com imitações de Louis Vitton e de outras marcas, todas piratas, a preços que variavam de 30 a 50 Euros – valores muito abaixo dos cobrados nos shoppings e ou lojas de marcas. Ele contou que vive em Villanueva, que fica próximo a praia e faz parte da Comarca de Garraf, a qual pertence a cidade de Sitges.

Sitges, além da beleza e da fama da praia de San Sebastian, considerada a melhor da Europa, segundo o suplemento do New York Times Style Magazine, do New York Times, é sede permanente do Festival Internacional de Cinema da Catalunha, um dos eventos cinematográficos mais importes da Europa, pioneiro no cinema fantástico, ciência-ficção e terror.

Segundo Oscar, que disse não ser um “sin papeles”, é possível sobreviver do comercio ilegal. Enquanto falava, porém, sua mulher que o acompanhava à distancia, chamou sua atenção com gestos sinalizando que se arriscava.

Mesmo assim ele concordou em ser fotografado e despediu-se com o cumprimento clássico de negros americanos no Harlem: a mão fechada com os dedos tocando levemente os do interlocutor: “hasta luego, muito gusto”.

Outro ambulante, do Senegal, aceitou conversar quando ouviu falar do Brasil. “Brasil, grande país, futebol…”, disse de olho no calçadão.

No geral, a crise que atinge a Espanha com desemprego recordé (uma de cada quatro pessoas está desempregada) e crescimento negativo, atinge os pobres, latino-americanos e imigrantes africanos, que, de acordó com o relato de um motorista de táxi, chega a situações dramáticas de quase escravidão.

Mais de 400 mil famílias que não conseguiram pagar as parcelas de financiamento de seus imóveis foram despejadas, desde o início de 2008, de acordó com dados divulgados pela Plataforma dos Afetados pelas Hipotecas. Só de abril a junho deste ano, uma média de 526 famílias foram expulsas de suas casas.

A maior parte dessas famílias é de pobres, latino-americanos e imigrantes africanos, o que desencadeou uma onda de suicídios que assustou o Governo e fez com que os bancos anunciassem provisoriamente a suspensão dos despejos.

De acordó com Josep Oliver, professor de economía da Universidade Autônoma de Barcelona e um dos autores do Anuário de Imigração da Espanha do Ministério do Interior “80% dos imigrantes não tem outra saída, senão o aeroporto”.

Dojival Vieira