Apesar da sua entrada num partido notoriamente de direita – naquela época ainda PFL, hoje DEM -seus militantes não possuíam tal marca, muito menos se pode creditar que com isso se houvesse formado um movimento negro de direita, ao menos no Rio de Janeiro. Mais do que isso, aqueles militantes negros estavam se desviando de uma certa cantilena negro-esquerdista que no mínimo continha a mesma dose de oportunismo em obter posições na máquina de governo que lhes projetassem social e politicamente.
Com a vitória de Barack Obama nas eleições presidenciais norte-americana, a eleição de um presidente negro nos EUA provoca o imaginário da sociedade e não deixa de ser um novo paradigma para o movimento negro brasileiro. É neste contexto que se torna atual a discussão de um movimento negro de tendência liberal que catalize aspirações de diversos setores populacionais negros e que com isso se distinguia de uma certa ortodoxia negro-esquerdista que
inculturada não consegue enxergar muitas mudanças ocorridas no cenário político.
O texto abaixo está referido a uma dessas críticas à entrevista do jornalista Roberto de Carvalho iniciador do grupo e publicada no sítio Questões Negras com o título O fantasma que assustou o movimento negro no Rio.
Há um tipo de crítica feita ao grupo afro-liberal que é uma amostra do tipo de impasse que impede por exemplo, o desenvolvimento do Conneb – Congresso Nacional de Negros e Negras Brasileiros. Não é uma critica de substância apoiada em fatos ou em busca de causas, é uma crítica feita em suposições e ataques de caráter pessoal que tenta se escorar numa outra posição política-ideológica e partidária e que não considera qualquer elemento tático ou estratégico.
É uma crítica autoritária de viés fascista que tenta se apoiar em chavões políticos e que por serem simplesmente mencionados teriam o poder mágico de legitimarem seu interlocutor por conterem aquilo que o mesmo consegue entender como absoluto como se crê em Deus.
A legitimidade dessa crítica auto-intitulada esquerda se apresenta como algo bizarro. Uma esquerda que quer vigorar (impor-se, ser legítima) por sua mera evocação como se fosse o símbolo da pureza de princípios e fins. Algo que as práticas políticas (os meios) não comprovam e nem conformam o caráter de alguém. E os fins? Ah!… os fins!
A maneira tosca de tal crítica, o modo como se manifesta traça um quadro infeliz de um setor do movimento negro brasileiro cada vez mais minoritário e isolado politicamente, mas que ainda subsiste como um parasita apoiado em forças mestras como o movimento sindical e alguns partidos de esquerda.
O que se tornou tal força do movimento negro senão a vanguarda reacionária das forças emergentes do povo negro? O que deixou de ser tal força política senão a esperança de uma estratégia que se esgotou sobre suas próprias conquistas e não soube renovar-se? Quanta insipiência que não consegue conter-se, por tanta insubstância só lhes resta alimentar-se de suas próprias entranhas vazias já que seu alimento digerido continha várias substâncias e origens e esgotou-se, ao menos para estes seres.
Por tal esgotamento foi que surgiu o afro-liberal ocupando um espaço gerado pela imobilidade e pelo farisaísmo do chamado movimento negro de “esquerda” (seja lá o que isso quer dizer).
Em verdade, desde os “negros do Brizola” o “movimento negro” do Rio de Janeiro – e certamente noutros estados – tem fornecido quadros políticos que, bem ou mal, tem representado um mínimo de dignidade para a política local. O insuficiente que satisfaz de tão acostumados que estamos a penúria material e a servidão moral e política.
Exatamente, em torno desse mínimo tem sido que uns poucos se locupletam formando uma espécie de barreira em torno de algumas posições político-burocráticas. A existência de uma força política afro-liberal seria, no mínimo, desejável para confrontar em poder e ações no jogo democrático o que os “negros dos partidos de esquerda” conquistassem e que pudessem representar avanços diante do movimento negro para o povo negro e não apenas para sua própria ascensão social “simbólica”.
O movimento negro não precisa ser de esquerda ou de direita, isto é fazer o papel da política que legitima o racismo. Ao mesmo tempo e por isso, o movimento negro só faz sentido se for plural e democrático.
Só tendo razão de existir e de se considerar um movimento social se puder representar e abrigar todas as posições políticas e avançar em vez de impedir os avanços políticos que as emergentes forças sociais negras requerem. E salvem o Conneb!
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José Ricardo