Historiador, político, acadêmico, antigo diplomata e assumidamente um afrodescendente, Luis Guillhermo Solís, de centro-esquerda, é desde a última quinta-feira, 8 de maio, o 47 º presidente da Costa Rica, cargo para o qual foi eleito em abril com a promessa de inaugurar uma nova era de ''democracia cidadã'' regida por renovadas formas de participação popular na condução e, sobretudo, baseada na fiscalização ativa dos assuntos públicos, conforme enfatizou no seu discurso de posse. A sua investidura no mais alto cargo da nação centro-americana foi o ponto alto de um processo eleitoral no qual ele escreveu uma tripla história.

Professor, a promessa da sua predisposição ao diálogo no quadro de uma democracia participativa foi reiteirada nas seguintes termos: ''Corrijam-me quando me equivocar, busquem-me quando me perder, dêem-me forças quando fraquejar, reclamem se não os escuto. Repudiem-me se os abandono, se não estou aqui quando mais necessitem, se usurpar com má intenção a confiança depositada em mim com tanta generosidade por um povo que demanda honestidade e bom governo.''

Ex-membro do Partido Nacional de Libertação (PNL), fundado por José Figueres Ferrer, que após tomar o poder em 1948 estabeleceu o quadro democrático que vigora até hoje, Solís foi secretário-geral da sigla entre 2002-2003. Desvinculou-se oficialmente em 2005 desapontado com escândalos de suborno envolvendo vários dos seus lideres e também com irregularidades nas suas eleições internas.

De volta à vida acadêmica, aproximou-se do Partido de Ação Cidadã (PAC), sigla que se assume como social-democrata e progressista, criada em 2002 por ex-libertacionistas igualmente inconformados com a corrupção reinante no PNL. Filiou-se em 2009 e em 2012 tornou-se seu candidato à Presidência da República com a promessa de promover uma democracia cidadã, limpar a corrupção, travar e rever os acordos de livre comércio com os EUA, criar maiores investimentos em infraestruturas, melhorar os cuidados universais de saúde e fortalecer o sistema de segurança social. 

Com esse pacote de promessas ganhou simpatia de setores sindicais e sociais. De acordo com La Prensa, do Panamá, ganhou principalmente a confiança do eleitor ''silencioso'' que, sem mostrar o seu apoio, fez da realidade o cenário menos esperado no primeiro turno das eleições, realizado em 2 de fevereiro ao surpreender o país e o oficialismo derrotando o favorito Johnny Araya (PNL). Fez, assim, história ao romper com o bipartidismo do do PNL e do Partido da Unidade Social Cristã (PUSC) que havia governado durante 32 anos o país com a democracia representativa mais regular da América Central.

Na realidade foram 66 anos de domínio bipartidário na Costa Rica porque o PUSC, formado em 1983, é herdeiro de partidos conservadores da tradição política caudilhista costarriquense assente no calderonismo, surgido na figura de Rafael Ángel Calderón, na década de 1940. 

Sem concorrente devido a desistência do candidato oficialista, em resultado de sondagens que o colocavam atrás de Solís, o segundo turno eleitoral ocorrido em 6 de abril foi uma passeata de consagração para o professor universitário progressista. Com o apoio, entre outros, da esquerdista Frente Ampla, do jovem advogado e ambientalista José María Villalta, que havia sido o terceiro candidato mais votado, algo considerado igualmente insólito no país para um candidato oriundo da esquerda tida como radical, obteve cerca de 78% da preferência do eleitorado com quase 1,3 milhões de votos. Com esta cifra ele voltou a fazer história como o primeiro presidente ''tico'', como também são conhecidos os costarriquenses, a ser respaldado com mais de um milhão de votos.

Filho, neto e bisneto por via materna de uma família afro-jamaicana que chegou à Costa Rica no início do século XX, Luis Guillhermo Solís Rivera, nasceu em 25 de abril de 1958 na capital, San José, filho de Vivienne Rivera Allen, professora, e de Freddy Solís Avendaño, sapateiro. Licenciado em História pela Universidade da Costa Rica, tem mestrado em Estudos Latino-Americanos com ênfase em História e Ciências Políticas pela Universidade de Tulane, EUA. Nos seus 30 anos dedicados ao ensino, também lecionou nas universidades estadunidenses de Michigan e Flórida. 

Segundo a imprensa local, o mandatário sempre enfatizou publicamente o orgulho que sente de sua afrodescendência. De acordo com uma reportagem de Alfonso J. Hernández Castro, da Radio Monumental, de San José, o então candidato Solís ''vislumbrou ser o primeiro presidente afrodescendente reconhecido da Costa Rica'' num discurso feito num evento em Agosto de 2013 durante o qual recebeu as credenciais como o candidato oficial do PAC.

Reporta o jornalista que ele iniciou a sua intervenção com referências à sua bisavó jamaicana, Mary Taylor e à sua avó Eugenia Allen. Em Carta Aberta aos eleitores publicada em 17 de julho de 2013 no diário digital Informa-tico.com, ele escreveu: ''O filho da professora e do sapateiro, o neto da mãe afrodescendente, chefe de família e da lavadeira que costurava para os outros pede-lhes um voto de confiança olhando-os nos olhos com humildade''. A sua eleição confirmou que, uma vez mais, ele estava fazendo história.

O elevamento público da sua ancestralidade africana e o orgulho que sente na mesma parece em nada se relacionar com qualquer tipo de efeito Obama, cuja popularidade anda muito em baixo dentro e fora dos EUA. Muito menos com uma capitalização oportunista de votos do eleitorado afrodescendente que representa apenas 8% da população, a maioria dos quais, como ele, descendente de imigrantes jamaicanos dos séculos XIX-XX.  Gente que, pelos relatos, ainda sofre de  grande racismo e marginalização, similar aos seus pares afrodescendentes em quase toda a América Latina. 

A emocionante homenagem que fez à sua mãe, e com ela implicitamente à todas concidadãs mães afrodescendentes, no final do seu pronunciamento de investidura mostra as razões porque ele se orgulha da sua origem afro-caribenha. ''Há mais de um quarto de século, uma professora costarriquense escreveu uma carta aos seus netos e netas, uma das quais sequer havia nascido e não chegaria a conhecer. Nessa carta ela, filha e neta de mães afrodescendentes, que como tantas mulheres da nossa pátria foram chefes de família e assumiram a criação de muitos filhos, fazia um balanço de uma vida que intimamente sabia já quase chegada ao fim'', disse para encerrar com os seguintes trechos da carta:

''Não há que temer a liberdade, a possibilidade de construir sonhos inalcançáveis. Amarrar-se ao cotidiano nos impede de ver o universo transcendente. As estrelas brilham mais quando se observam na noite mais escura e madrugada ainda não desponta. O propósito da vida é insondável só para aqueles que não têm capacidade de criar ilusões, porque se encontram aprisionados nas terríveis redes do prático. Nesta civilização materialista, onde o consumo fez sucumbir o saber, há que agarrar-se teimosamente à capacidade de sonhar que é um atributo especial da humanidade.''

''A vida me ensinou que o exemplo é a melhor pregação. A Verdade tem muitas verdades porque em sua busca se podem percorrer muitos caminhos. Mas essa diversidade não desorienta quando se faz acompanhar do resultado, da sinceridade. Não é sábio quem tem palavras de conhecimento mas quem as sabe refletir, com ações, em sua própria existência. A inspiração sempre eleva, mas apenas o exemplo vivifica.''

''E no caminho que todos percorremos, desde a madrugada até o ocaso, somos peregrinos de uma mesma causa, portadores de uma mesma tocha, bardos de uma mesma canção. Com vozes díspares, em uma grande cacofonia de vontades, balbuciamos um hino eterno e misericordioso, o único hino que pode dar sentido à existência e razão à História: o hino sempre novo da esperança''.

Foto: www.rcinet.ca

 

 

Alberto Castro