O comportamento discriminatório tem muitas formas de manifestação, uma delas é pela mídia. Nossa mídia, que é formadora de um senso comum, também está sujeita aos problemas desse senso comum e tende a reproduzir seu meio.
No momento da definição do que é notícia, nas próprias agências, há um problema não resolvido. O problema é que o filtro inicial inclui a ideia brasileira da democracia racial. Este é um pensamento que é colocado como uma das matrizes do nosso racismo.
Não seria possível resolver esse dilema sem repensar a notícia na sua fonte. A criação de uma agência de notícias poderia ser uma das soluções. A partir deste dilema e das questões levantadas pela Conferência de Durban surgiu a Afropress. Seu trabalho seria de agendamento do negro na mídia. Seu trabalho e sua história são o alvo de minha monografia.
O tema da monografia se insere nos estudos de grupos sociais invisibilizados pelo atual formato de agendamento da notícia. O grupo em questão é a rede de atores sociais que trabalha com racismo contra o negro no Brasil. Esse grupo decidiu pautar a mídia, criando uma agência voltada para essa minoria social.
Por ser a primeira agência de notícias voltada para o negro brasileiro, a Afropress se destaca dentre as outras ao produzir um valor-notícia que se volta para o étnico/racial. Desta forma, acontecimentos que não seriam notícia para uma imprensa que não está acostumada ou interessada em notícias de cunho racial, para a Afropress é notícia.
Esse enfoque específico da notícia produziu resultados como a exposição do caso de um vigia, negro, que é espancado e preso, acusado de roubar seu próprio carro. O caso teve repercussão nacional e internacional, mas foi a Afropress que primeiro o divulgou, após o vigia ter procurado outros meios noticiosos para publicizar o ocorrido.
Também será analisada a condição da Afropress como agência que se propõe a militar pelo negro brasileiro e como isso se relaciona com os chamados cânones do jornalismo: a neutralidade, a objetividade e a imparcialidade.
A partir de entrevistas a usuários do site e a jornalistas em geral, busquei saber como esses cânones são tratados por eles e como fica uma agência que escolhe uma linha temática em detrimento de muitas outras.
Para isso não há como não questionar esses cânones, não há como não questionar os atuais critérios do agendamento da notícia e o próprio conceito de notícia. Isto porque, se vivemos numa sociedade em que o racismo está presente, ela terá que ser repensada em todos os seus aspectos, inclusive no seu jornalismo.
Fazer esta reflexão é um dos objetivos desta monografia que hoje coloco à disposição dos leitores/usuários do site da Afropress e/ou de quem mais se interessar pelo tema. Espero que o trabalho possa contribuir de alguma maneira a todos e também espero receber essa contribuição por meio de críticas, sugestões ou comentários que venha a merecer.
Concluí o TCC com o auxílio de muitos e recebo outra vez o auxílio da Afropress na disponibilização dele. Obrigado a todos.
*O trabalho foi defendido em julho passado na Faculdade de Comunicação da UnB
Nota da Redação
Afropress passa a postar em capítulos a tese defendida pelo aluno do Curso de Comunicação da UnB, Cláudio Vicente

1- INTRODUÇÃO
Esse trabalho tenta atender a muitas demandas. Por um lado trata de como a condição do negro no Brasil se reflete no comportamento da imprensa. Por outro, como uma agência que se propôs a agendar o negro se relaciona com seu meio. Nessa relação nos propomos a questionar, entre outros elementos, os cânones do jornalismo.
No que se refere à condição do negro no Brasil, esse é um tema sempre por explorar. É fato que já temos pesquisas e publicações de peso a esse respeito, mas também é fato que há uma imensa distância entre a produção acadêmica e a solução dos problemas relacionados ao negro na sociedade brasileira.
Destes problemas, o maior é o racismo. A dimensão do racismo no Brasil é o que mais preocupa. Por seu formato diferenciado acaba por afetar mais da metade da população brasileira, que é negra, segundo o último censo.
O comportamento discriminatório tem muitas formas de manifestação, uma delas é pela mídia. Nossa mídia, que é formadora de um senso comum, também está sujeita aos problemas desse senso comum e tende a reproduzir seu meio. No momento da definição do que é notícia, nas próprias agências, há um problema não resolvido.
Acontece na medida em que no momento de se decidir o que é ou não é notícia o filtro inicial é da democracia racial, pensamento tão criticado e colocado como matriz de nosso racismo. Não seria possível resolver esse dilema sem repensar a notícia na sua fonte.
A criação de uma agência de notícias poderia ser uma das soluções. A partir deste dilema e das questões levantadas pela Conferência de Durban surgiu a Afropress. Seu trabalho seria de agendamento do negro na mídia. Seu trabalho e sua história serão o alvo desta monografia.
O tema desta monografia se insere nos estudos de grupos sociais invisibilizados pelo atual formato de agendamento da notícia. O grupo em questão é a rede de atores sociais que trabalha com racismo contra o negro no Brasil. Esse grupo decidiu pautar a mídia, criando uma agência voltada para essa minoria social (1).
Por ser a primeira agência de notícias voltada para o negro brasileiro, a Afropress se destaca dentre as outras ao produzir um valor-notícia que se volta para o étnico/racial. Desta forma, acontecimentos que não seriam notícia para uma imprensa que não está acostumada ou interessada em notícias de cunho racial, para a Afropress é notícia. Esse enfoque específico da notícia produziu resultados como a exposição do caso de um vigia, negro, que é espancado e preso, acusado de roubar seu próprio carro.
O caso teve repercussão nacional e internacional, mas foi a Afropress que primeiro o divulgou, após o vigia ter procurado outros meios noticiosos para publicizar o ocorrido. Também analisaremos a condição da Afropress como agência que se propõe a militar pelo negro brasileiro e como isso se relaciona com os chamados cânones do jornalismo: a neutralidade, a objetividade e a imparcialidade.
A partir de entrevistas a usuários do site e a jornalistas em geral, buscaremos saber como esses cânones são tratados por eles e como fica uma agência que escolhe uma linha temática em detrimento de muitas outras.
(1) Para efeito deste trabalho, minoria social é um grupo de pessoas, que, em virtude de suas características físicas ou culturais, sofre tratamento desigual e é objeto de discriminação coletiva (SILVA:1987).

Cláudio Vicente