Manhattan, Nova York – No começo do ano de 2006, li uma interessante materia no Jornal Folha de São Paulo sobre um pequeno site (ênfase no pequeno) chamado Afropress. É verdade que, à epoca, já haviam alguns portais com informações direcionadas à comunidade afro-brasileira. Sites estes que repassavam (e seguem repassando) as poucas matérias relacionadas a negros brasileiros, que às vezes são publicadas na grande imprensa escrita e on line, em geral. O portal Geledés sob o comando da filósofa Sueli Carneiro e com o apoio da poderosa Fundação Ford era o mais conhecido deste grupo. O outro, que já não existe, era o jornal Irohin, editado pelo jornalista Edson Cardoso, atual assessor especial da ministra Luiza Bairros, da SEPPIR.

Na época, desiludido com a politica, um dos fundadores do Partido dos Trabalhadores, o advogado, jornalista e tambem ex-político, o Dojival Viera, resolveu criar um site que pudesse dar voz a todos aqueles que estivem dispostos a escrever sobre suas experiências como afro-brasileiros, e como as nuances do racismo brasieliro seguiam sendo um impedimento para o avanço social do negro brasileiro. Um triste legado dos mais de 350 anos de escravismo colonial.

Sabemos que para a grande mídia, qualquer tentativa de informar a comunidade afro-brasileira sobre noticias que digam respeito a ela própria e a sua história, soam como afronta a nossa (deles) idéia de um país racialmente democrático. Esta continua sendo a maneira enviesada de Jornalismo que perpetuava (e segue perpetuando) a invisibilidade negra no Brasil, e também seus anseios, suas lutras, alegrias e frustrações.

 

Morando há mais de 15 anos em Nova York, e cansado do que lia dos correspondentes brasileiros nos EUA sobre a cultura do país mostrando uma Nova York onde a rica cultura afro-americana seguia sendo completamente colocada em segundo plano, quando não totalmente ignorada, resolvi mandar um e-mail ao Dojival me colocando à sua disposição como um negro brasileiro que há mais de uma década vivia nos EUA, para onde havia ido tentar a vida.

 

Depois de uma conversa telefônica rápida, combinamos que eu mandaria notícias voluntariamente sobre minhas experiências como um negro brasileiro nascido e criado na Zona Leste paulistana, vivendo nos EUA. Num primeiro momento, acho que ele não acreditou muito no que eu disse e na promessa que fiz de escrever regularmente. Experiências passadas haviam mostraram a ele que as pessoas entravam em contacto, mandavam alguns artigos e desistiam ao saberem que não seriam recompensadas financeiramente. Porém, de qualquer forma, pe pediu que mandasse os artigos.

 

Nestes mais de seis anos como correspondente da Afropress (o nome da coluna foi sugerido por Dojival) escrevi sobre os mais  variados assuntos. É claro que a ênfase sempre foi tudo aquilo relacionado a comunidade afro-americana e tambem afro-brasileira. Não fiquei restrito a estes assuntos, no entanto, mas como correspondente numa cidade como Nova York em que a oferta cultural é de uma grandeza ímpar fica praticamente impossível passar uma semana sem escrever sobre algum evento importante relacionado a comunidade afro-americana.

 

Neste anos como correspondente da Afropress entrevistei várias personalidades brasileiras e americanas, entre as quais, o primeiro prefeito negro de Nova York, David D. Dinkins, o músico Jair de Oliviera Jr. (Jairzinho), o ator Lázaro Ramos, o ex-ministro da cultura e cantor baiano, Gilberto Gil, o cineasta negro Jeferson De, a acadêmica norte-americana Anette Gordon-Reed, o presidente do Sindicato dos Artistas do Rio de Janeiro, Jorge Coutinho, entre outros.

 

Como correspondente tambem sobre as duas campanhas do presidente Barack Obama, em 2008 e 2012, inclusive relatando a minha experiência como ativista de ambas – as duas vitoriosas.

 

Enviei dezenas de artigos sobre filmes, teatro, cinema, livros, exposições e pessoas influentes que contribuíram para a cultura norte americana, em geral. Em momento algum sofri qualquer tipo de censura por parte do editor da Afropress. Ele me deu total liberdade para expressar, por meio dos meus artigos, minhas experiências como um afro-brasileiro vivendo em Nova York.

 

A Afropress está entrando em uma nova fase. Uma fase que certamente agradará aos seus leitores e deixará seus destratores mais preocupados ainda. Nesta nova fase espero seguir contribuindo com informações que sejam relevantes a todos aqueles que querem saber melhor sobre a rica cultura diversificada norte-americana. Para estes,  prometo seguir com o mesmo profissionalismo e seriedade.

 

Edson Cadette