Todo o aniversário clama por uma celebração, pequena e íntima que seja. No caso da Afropress existem todos os motivos para celebrar em grande e eles se resumem ao simples fato de há dez anos a esta parte a agência aparecer e se manter no ar de forma permanente e estóica na luta por fazer da sociedade brasileira um espaço livre dessa autêntica bomba nuclear chamada racismo que tantas vítimas já causou e continua a causar à humanidade.

É um decênio de participação na linha da frente de uma luta destemida e sem tréguas de Davi contra Golias pela igualdade racial, justiça e inclusão social, política e econômica no Brasil. Um decênio de derrota para os racistas e fascistas que volta e meia a tentaram silenciar e que certamente espreitam uma oportunidade de voltar à carga, com todos os seus fluxos biliares de ódio racial.  

Coincide o decênio da criação da Afropress com a o da proclamação da Década Internacional dos Afrodescendentes (2015-2024), instituída pela resolução 68/237 da Assembleia Geral da ONU no dia 23 de dezembro último. Aumenta assim a responsabilidade da agência e a de todos os que a fazemos na árdua e muitas vezes incompreendida tarefa de conscientização das sociedades em que estamos inseridos, dos respectivos governos, quanto à necessidade cimeira de luta sem concessões ao preconceito étnico-racial e ao racismo, à xenofobia e à demais formas de intolerância, principalmente nesta era de insanos extremismos.

No restrito âmbito da luta contra o racismo, poucos são os países que mostram inequívocos comprometimentos e avanços embora todos ou quase todos se vangloriem de suas legislações avançadas neste domínio. Segundo a ONU, em todas as Américas são cerca de 200 milhões as pessoas que se identificam como afrodescendentes cujos antepassados de forma forçada e trágica fizeram desenvolver as nações do norte envolvidas no processo contribuindo para a acumulação primitiva de capital das suas elites enquanto eles e seus descendentes se viam totalmente privados, destituídos de igual possibilidade.

A par dos distintos traços de africanidade herdada, une a esmagadora maioria afrodescendente o retrato da pobreza, da discriminação sociorracial e da consequente marginalização. Une-os também a vontade e a determinação em honrar a memória dos ancestrais, reescrever a narrativa histórica contada sobre eles apenas na perspectiva de seus algozes de um lado e do outro do Atlântico, resgatar e manter vivas as suas manifestações socioculturais que tanto influenciaram o mundo, as Américas em particular, permitindo que resistissem.

Urge por isso retomar o tão combatido debate reivindicativo sobre a reparação para que a justiça seja feita aos que, cativos, foram destituídos de toda as hipóteses de acumulação de riqueza para legar aos seus descendentes.

A história não é um documento morto de importância como muitos, por conveniência política ou ideológica, às vezes a tentam pintar, apagar ou reduzir. São tão válidas as suas páginas mais belas que enaltecem os nossos feitos e que, por isso, mantemos sempre abertas, como as suas páginas mais cruéis. Estas não devem ser simplesmente fechadas e esquecidas para, de uma forma confortável e cobarde, fugirmos para a frente pensando que assim nos libertarmos dela. 

Acontecimentos recentes e bem presentes um pouco por todo o mundo demonstram que cedo ou tarde ela retorna e pode ser terrivelmente punidora quando não aprendemos as suas lições. Basta ver o insulto para toda a humanidade que são as tragédias quase cotidianas no mar Mediterrâneo enquanto políticos europeus egoístas, para dizer o mínimo, alguns com frescas responsabilidades históricas e morais, esgrimem entre si argumentos sobre quem acolhe quem e quem não acolhe ninguém.

A riqueza e o conforto que hoje desfrutam anestesiou-os, não os permite acordar e olhar criticamente as páginas da suas própria história. Vale que ela, implacável, acaba um dia por fazê-los acordar para a leitura de suas páginas descartadas. E isso normalmente acontece à duras penas.

Voltando ao decênio da Afropress, durante o mesmo o mundo viu os EUA elegerem por duas vezes Barack Obama, sem dúvida um tremendo avanço num país de doloroso caminho na luta pela igualdade racial. Mas os que se apressaram a enaltecer apenas as grandes virtudes da América anunciando apressadamente o feito como sendo a inauguração da sua era pós-racial desiludiram-se. Testemunharam recentes acontecimentos com raízes em ódio racial em que o massacre numa igreja de Charleston foi a tragédia maior. Como o próprio Obama reconheceu, os EUA têm um problema com o racismo que não encontra paralelo em sociedades igualmente desenvolvidas. Um problema que mostra a necessidade de um novo e revigorado movimento pelos direitos civis dos negros. 

Foi um decênio em que o mundo viu o jovem britânico Lewis Hamilton quebrar as barreiras raciais num desporto até então apenas branco e sagrar-se bicampeão mundial de Fórmula 1. Viu o igualmente britânico Steve McQueen fazer história com o filme ''12 Anos de Escravidão'', tornando-se no primeiro diretor negro a ganhar o Oscar desde que a maior premiação do cinema mundial foi instituída em 1929.  

Mas, a mesma Inglaterra marcadamente multicultural que produziu Hamilton e McQueen ainda não erradicou atitudes doentias de gente como alguns adeptos do Chelsea que impediram um homem de entrar no metrô de Paris, por ser negro. A mesma Inglaterra generosa de abolicionistas e humanistas como William Wilberforce e Olaudah Equiano, tem hoje um primeiro ministro que se recusa a receber refugiados de suas outrora espoliadas colônias. 

O decênio viu também belezas negras como a angolana Leila Lopes (2011), a queniano-mexicana Lupita Nyongo'o (2012) e a japonesa Ariana Miyamoto (2015) quebrarem barreiras estéticas num universo fértil em preconceitos raciais ao serem eleitas, respectivamente, Miss Universo, mulher mais bonita do mundo e Miss Japão, pese embora todos os simbolismos, negociatas e marketing existentes em torno desse tipo de controversos eventos.    

A própria África sub-subsahariana, ainda a braços com a cura de profundas feridas do recente colonialismo, viu a Zâmbia ter um vice-presidente branco, Guy Scott (2011-2014), que se tornou presidente interino (2014-2015) por falecimento do titular Michael Sata. E ele não foi o primeiro africano branco a liderar um país democrático na era pós-colonial do continente. Esta distinção vai para Paul Bérenger, primeiro-ministro das Maurícias entre 2003 e 2005, atualmente líder da oposição. Certamente nem um e nem o outro serão os primeiros e últimos africanos brancos a assumir o topo do destino dos seus países. 

No Brasil, o decênio da Afropress viu Joaquim Barbosa no comando da mais alta Corte do país. Mas testemunhou também no governo Dilma o desaparecimento de faces negras, ao contrário do que prometia o governo Lula que deu visibilidade a quatro ministros negros: Benedita da Silva, Gilberto Gil, Orlando Silva e Matilde Ribeiro.

Resta agora Nilma Gomes que substituiu Luiza Bairros como titular da SEPPIR, uma Secretaria de segundo escalão com categoria ministério, uma espécie de reserva ministerial para negros. Algo vai muito mal num país de maioria negra que produziu Barbosa mas não encontra negros à altura para ministérios de primeiro escalão.

Enquanto isso, países europeus como a França e a Grã-Bretanha cuja população negra ronda mais ou menos 3%, respectivamente, vêm integrando mais representantes de minorias étnicas que o Brasil em seus elencos governativos, incluindo o primeiro escalão. A título de exemplo, Christiane Taubira, ministra da justiça é simplesmente a terceira figura mais importante na hierarquia do governo francês.     

Foram aqui apontados apenas alguns exemplos que mostram que foi possível driblar o racismo e progredir um pouco por todo o mundo, outros que mostram o contrário e outros que se apresentam muito preocupantes. À estes acrescento, no caso brasileiro, a intolerância para com religiões de matriz africanas e o número cada vez mais preocupante de jovens negros que, tal como nos EUA, têm suas vidas ceifadas de forma prematura e brutal por forças de segurança que refletem um racismo estrutural e institucional profundamente enraizado nas respectivas sociedades e mais ou menos presente um pouco por todo o mundo.

À Afropress, sua equipe de jornalistas e colaboradores nas mais diversas áreas, e ao Dojival Vieira em particular, seu mentor e editor, uma palavra de reconhecimento, agradecimento e incentivo à continuação da luta desigual e sem tréguas contra o racismo, essa bomba nuclear de múltiplas consequências que faz perigar o futuro da humanidade no seu progresso e na sua sã convivência.

Estamos juntos e misturados para mais uma década de batalhas incessantes. 


 

 

Alberto Castro