S. Paulo – Pouco mais de setenta e duas horas depois do violento ataque de racistas e neonazistas, a Afropress voltou ao ar na tarde desta quarta-feira (15/10), graças a rápida mobilização da equipe de redação e do pessoal de Tecnologia de Informação (TI), que tomou as providências técnicas necessárias para o retorno.

Desde sábado (11/10), além das providências junto às autoridades policiais, visando a identificação e a punição dos criminosos, leitores no Brasil e em todo o mundo manifestaram sua repulsa e solidariedade aos profissionais que há nove anos mantém a Afropress no ar.

Em Nota oficial, o Sindicato dos Jornalistas do Estado de S. Paulo condenou o ataque racista e, na sua página na Internet, além da solidariedade aos jornalistas, reproduziu o Comunicado  “Não passarão!”, em que a direção do veículo comunica a decisão de “após as providências junto às autoridades policiais” e em respeito aos leitores de pedir ao provedor, a Locaweb, a retirada provisória da página do ar.

No Comunicado, a redação de Afropress lembra que esta não foi a primeira vez em que o veículo é "alvo desse tipo de violência”, e cobra das autoridades a identificação e a punição severa dos responsáveis. “Nem um passo atrás”, termina o Comunicado.

Na tarde desta segunda-feira (13/10), o editor, jornalista Dojival Vieira, em companhia da coordenadora da Redação, Dolores Medeiros, esteve reunido com o Delegado Seccional Armando de Oliveira Costa Filho (foto ao lado), para fazer o registro da Ocorrência e pedir a abertura da investigação por parte das autoridades da Polícia de S. Paulo. O Boletim 07/2014, elaborado pelo delegado Marco Antonio Bernardo, que participou da reunião registra os crimes de “invasão de dispositivo informático”, "injúria", "prática de discriminação" e "ameaças.”

Reunião

A reunião foi antecedida na tarde e na noite de sábado por rápida intervenção por parte dos promotores Eduardo Dias, assessor especial do Secretário da Segurança Pública de S. Paulo, Fernando Grella, e Christiano Jorge Santos (fotos abaixo), do Núcleo de Combate à Discriminação do Ministério Público de S. Paulo.

O editor de Afropress destacou a ação dos dois promotores e dos delegados Costa Filho e Bernardo, que promoteram realizar todas as diligências necessárias e agir junto à Delegacia de Investigações Criminais e à própria Delegacia de Combate à Discriminação (DECRADI), visando a identificação dos responsáveis pelos ataques.

Apesar da legislação disponível, as autoridades reconhecem ser necessário a criação de um Grupo Especial, com pessoal técnico para agir em casos desse tipo.

Solidariedade

Desde sábado, leitores em todo o mundo, se manifestaram por correspondência, telefonemas e pela rede social. O correspondente de Afropress em Londres, Alberto Castro, desencadeou movimento de solidariedade, junto a jornalistas em Portugal e países africanos da Comunidade de Países de Língua Portuguesa (CPLP). "Acabei de acessar a página da Afropress e dou com absurdos completamente insanos: ''Estupre uma crianca negra e ajude o mundo''; ''Estupro infantil deveria ser legalizado, diz ministro do PT''; ''Ajude o mundo estuprando mulheres''; ''Brasil segue exemplo do Japao e libera pornografia infantil''; ''Chutei um negro tao forte, peguei a negrice''. Imagino que se trata de um reles e repugnante ataque racista a Afropress. Espero que esgote todas as possibilidades na denuncia dessa insanidade e que leve o assunto até as ultimas consequencias na identificação e severa punição dos autores na justica. Estou chocado e revoltadissimo. Mais uma razão para a Afropress continuar a árdua batalha contra qualquer tipo de preconceito e intolerância. Minha total solidariedade!", escreveu.

A Página Global, portal de Lisboa, dirigida pelo jornalista Mário Mota, por meio de um artigo sob o título “Racismo e Xenofobia”, também expressou sua solidariedade. “Afropress, publicação brasileira a que habitualmente recorremos na compilação dos seus artigos em abordagem ao racismo existente no Brasil e pelo mundo, sofreu um ataque racista repugnante na sua página online – um exemplo é a imagem que aqui publicamos e que será mais legível se clicar sobre ela. Os racistas e neonazis viraram do avesso a publicação. É intolerável o crescendo do racismo e da xenofobia que grassa no Brasil. Hediondo. Só assim  podemos considerar o que aconteceu ao Afropress e à pessoa do seu diretor, Dojival Vieira, e dos que ali trabalham. A Justiça brasileira não tem por que ficar inativa ou ser perdulária perante tal crime à humanidade sem que com isso comprove a sua conivência com o racismo e o neonazismo, algo em que não queremos acreditar", afirmou Mota.

No Brasil

No Brasil, os jornalistas Marcos Romão, Rosiane Rodrigues e a doutora em Comunicação pela Unisinos, Leslie Chaves, cuja tese de doutorado é sobre a Afropress – a primeira Agência online no Brasil, com produção de conteúdo jornalístico – condenaram os ataques e manifestaram solidariedade: "Lamentável os ataques sofridos pela Afropress. Foram publicados absurdos no site que originalmente é utilizado para informar à população e dar visibilidade às questões que dizem respeito à maioria da população brasileira! Algo tem que ser feito urgentemente para punir os responsáveis por esta violência!”, escreveu Chaves.

A Ouvidoria Nacional da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR), da Presidência da República, por meio do ouvidor Carlos Alberto Santos Jr., manifestou repulsa aos ataques e disse que pedirá a entrada da Polícia Federal no caso.

Também centenas de leitores, entre os quais Marcos Benedito, liderança da Central Única dos Trabalhadores, o fotógrafo Sandro Cajé, Maria Inês Villalva, Fátima do Carmo, Júlio Tavares, Ilzver Mattos, Márcio Tadeu, Spírito Santo, Gabriel Silveira, de Barcelona, e Natália de Santana, Revi, de Londres, manifestaram a repulsa aos ataques.

 

Da Redacao