A Carta da Agenda Indígena entregue ao Secretário do Trabalho de S. Paulo, Geraldo Vinholi, pelo índio “baniwa”, Eurico Sena, ou Surisawa relaciona 10 propostas, que vão do respeito à condição de cidadãos aos membros de todas as etnias e povos indígenas, à participação na “Virada Cultural”, passando por reivindicações nas áreas da saúde, educação e trabalho.
A Agenda é uma iniciativa da Secretaria do Trabalho, por intermédio da Comissão Intersecretarial de Monitoramento e Gestão da Diversidade (CIM-Diversidade) da Prefeitura e Comissão de Indígenas. De 13 a 19 de abril, as condições de vida dos 60 mil índios, que moram na capital paulista, de cerca de 30 nações diferentes, foram discutidas através da recém-formada Comissão Indígena. Em todo o Brasil, os indígenas são mais de de 200 Nações e cerca de 180 línguas.
A Comissão de Indígenas reúne lideranças de seis das cerca de 30 nações e a audiência com o secretário municipal do trabalho, Geraldo Vinholi e com Dojival Vieira, presidente da CIM-Diversidade, na quinta feira (19/04) foi lida a Carta em “Baniwa” (língua da etnia de mesmo nome, situada na região de S. Gabriel da Cachoeira, às margens do Rio Negro, no Amazonas.
O texto chama à atenção dos órgãos públicos para a importância da preservação da cultura indígena e da união entre os povos e, principalmente, para as necessidades dos índios que vivem na Capital.
“Parentes, e todos aqueles que se sentem excluídos, fechem os olhos e ouvidos. Venham para a nova aldeia que estamos juntos construindo. Façamos uma oca segura de democracia, para que não possa como os rastros na areia que, na primeira chuva desaparecem, mas que sejam como as cores do arco-íris, que permanecem fiéis à sua origem”, encerra o manifesto que acompanha a Carta.
No próximo dia 29 de abril, haverá uma leitura pública da Carta no Real Parque, onde vivem os Pankararus. Índios dessa tribo ajudaram a construir o Estádio do Morumbi na década de 50.
A Agenda Indígena contém dez pontos:
1 – Respeito à condição de cidadãos aos membros de todas as etnias e povos indígenas, que vivem fora de suas aldeias, no meio urbano, buscando a sensibilização de acadêmicos, mundo empresarial, educadores e gestores públicos para a importância e necessidade de preservação de suas identidades culturais;
2 – Participação das nações indígenas radicadas em São Paulo em todas as atividades e manifestações culturais da cidade, como por exemplo, a Virada Cultural de São Paulo;
3 – Criação de canais de acesso com a Fundação Nacional de Saúde (Funasa), órgão do Ministério da Saúde do Governo Federal, e Secretaria Municipal de Saúde, visando à adoção de políticas públicas com foco na saúde indígena, respeitando suas tradições culturais;
4 – Adoção de medidas que promovam o desenvolvimento e a capacitação profissional nos Centros de Educação e Cultura Indígena (CECIs) existentes na capital paulista;
5 – Promoção e formação de professores da rede de ensino municipal, visando à inserção da temática da cultura e história indígenas em sala de aula;
6 – Promoção de uma campanha de sensibilização para os Direitos Indígenas junto às Subprefeituras, Secretarias, Coordenadorias, Comissões e Autarquias, bem como aos gestores sobre a necessidade de adoção de políticas públicas para a população indígena, que vive em aldeia ou não, da cidade de São Paulo;
7 – Promoção de um Censo Demográfico das populações indígenas radicadas na cidade de São Paulo, buscando o conhecimento de suas reivindicações e demandas;
8 – Criação do Centro de Referência Indígena na cidade de São Paulo para geração de trabalho e renda, que funcione como ponto de escoamento da produção artesanal indígena, difusão e promoção das culturas indígenas, bem como a capacitação dos profissionais envolvidos;
9 – Inserção de Indígenas como beneficiários dos programas da Secretaria do Trabalho, como Pró-Jovem, Capacita Sampa, São Paulo Inclui, São Paulo Confia (Microcrédito) entre outros;
10 – Fortalecimento da Comissão de Indígenas, co-promotora da Agenda Indígena de São Paulo, como espaço de organização, mobilização e interlocução junto ao Poder Público, dos Povos Indígenas radicados na capital paulista.
Veja a Carta da Agenda Indígena
CARTA DA AGENDA INDÍGENA SÃO PAULO 2007
Chamamos a atenção de todos os povos desta Nação.
Este é o momento de fazermos uma profunda reflexão da nossa história como Povos Indígenas Brasileiros.
Diante das circunstâncias atuais, não podemos mais tratar dos nossos assuntos de maneira isolada. É preciso tornar nossa voz uníssona, em busca da verdadeira Democracia, Liberdade e Justiça numa sociedade pluriétinica e avançar para construir o verdadeiro Brasil.
Precisamos formar uma aliança, uma união consistente entre TODOS os brasileiros e os POVOS INDÍGENAS radicados em S. Paulo, para superarmos a exclusão a que estes povos têm sido relegados por tanto tempo.
Chamamos a atenção de toda sociedade civil e de todos os homens de bem para que nos percebam e entendam essa exigência dos nossos tempos.
Hoje elogiam a cultura moderna, mas desqualificam ou desconhecem as culturas das minorias étnicas e indígenas.
Esta riqueza originária de mais de 200 etnias e 180 línguas diferentes que são faladas no país, demonstra que somos ricos em pluralidade étnica e cultural, e que, apesar de todas as práticas de extermínio que sofremos até hoje, continuamos resistindo e existindo.
Todos sabemos que não há um lugar sequer calmo nas cidades do não-indio. Não há lugar onde se possa ouvir o desabrochar da folhagem na primavera ou o barulho da chuva e da cachoeira. Mas, será que pensamos assim por sermos utópicos selvagens que nada compreendem?
O barulho parece apenas insultar os seus ouvidos. E que vida é aquela se um homem não pode ouvir a voz solitária do uirapurú ou, de noite, a conversa dos sapos em volta de um brejo? Somos indígenas e nada compreendemos dessa bárbárie de uns contra os outros.
O indígena prefere o suave sussurro do vento a sobrevoar a superfície de uma lagoa e o cheiro do próprio vento, purificado por uma chuva do meio-dia da exuberante floresta amazônica.
O ar é precioso para o homem originário, porque todas as criaturas respiram em comum – os animais, as aves, o mira. O kariwa (não-índio) parece não perceber o ar que respira. Como um peixe preso no kacuri em prolongada agonia, ele é insensível ao ar fétido.
Mas se conhecer o nosso mundo, terá de se lembrar que o ar é precioso para nós. Que o ar reparte seu espírito com toda a vida que ele sustenta. O vento que deu ao nosso bisavô o seu primeiro sopro de vida, também recebe seu último suspiro.
Por isso, se queres viver como a mata, deverá mantê-la preservada, feito um shopping, como um lugar em que o próprio homem ocidental possa ir saborear o vento, adoçado com a fragrância metropolitana.
Parentes, e todos aqueles que se sentem excluídos, fechem os olhos e ouvidos. Venham para a nova aldeia que estamos juntos construindo. Façamos uma oca segura de democracia, para que não possa como os rastros na areia que, na primeira chuva desaparecem, mas que sejam como as cores do arco-íris, que permanecem fiéis à sua origem.
SÃO PAULO, 19 DE ABRIL DE 2.007.
COMISSÃO INDÍGENA DE SÃO PAULO
Eurico – Baniwa
Sátiro – Terena
Ava – Fulni-ô
Benedito – Pankararé
Marcílio – Atkum
Veja o vídeo sobre os Pankararus que vivem na favela Real Parque em S. Paulo

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Matéria produzida por Redação de Afropress com informações da jornalista Juliana Nicolucci da Assessoria de Imprensa da SMtrab