Eurico, ou Surisawa, nasceu às margens do Rio Içana, afluente do Rio Negro, região de São Gabriel da Cachoeira, a 630 km de Manaus, numa família baniwa de quatro irmãos, três homens e uma mulher. Fala três línguas – o baniwa, o nheenghatú (a língua geral falada no período da colonização) e o português, que só aprendeu depois dos 12 anos.
Aos 14 anos deixou a Aldeia para estudar. Até os 12 anos, não conhecia uma única palavra do Português. Depois de fazer o Ensino Médio na Escola dos Padres Salesianos, em São Gabriel, retornou a aldeia, que fica a 200 km da cidade.
Aos 20 anos, em 1995, seguiu para Manaus, onde prestou vestibular de Filosofia da Universidade Federal do Amazonas e Filosofia nos Salesianos. Desde 2003 vive em S. Paulo, no bairro de Santana, zona Norte.
Quando lhe perguntam se ainda pensa em voltar para a selva, Eurico ou Surisawa fica sério. “Antes queria voltar. Hoje apareceram outras responsabilidades pelo Brasil inteiro”, conta. O Núcleo de Estudos Jurídicos do Indígena, da Faculdade de Salesianos (NEJI), integrado por 4 professores e advogados, tem sido requisitado para apresentar projetos, que prevêem assistência jurídica e informação para as nações indígenas. Já viajou para aldeias em Mato Grosso, Amazonas, entre outros Estados e tudo indica que os convites não vão parar.
Uma das responsabilidades que Eurico acaba de assumir é com a Agenda Indígena de S. Paulo, proposta pela Comissão da Diversidade da Secretaria do Trabalho. “É uma oportunidade de articulação e organização. A sociedade indígena está precisando de uma organização social. As aldeias têm lideranças, mas uma capacidade de articulação limitada. Não têm gente consciente da questão política. É um momento propício para se fazer um trabalho”, acrescenta.
Além das reuniões da Agenda indígena, que acontecem em uma sala da Secretaria, ele está empenhado em desenvolver um projeto piloto nas quatro aldeias de S. Paulo, começando pela Aldeia do Jaraguá.
O Projeto prevê o levantamento da situação do meio ambiente, das áreas, da água, do solo, a fim de garantir condições de sobrevivência digna às 40 famílias guaranis, que vivem na área. A Bovespa já se prontificou a apoiar, A Western Union, onde Eurico trabalha como consultor, também.
Em relação as dificuldades em ser índio numa metrópole como S. Paulo, Eurico/Surisawa diz não querer regalias. “Eu tenho que assumir meu papel como cidadão. Eu não quero regalias, sou cidadão. Não posso dizer: – quero isso porque sou índio… na Alemanha, nos Estados Unidos, no Brasil, em qualquer lugar, nunca vou deixar de ser índio”, conclui.
Depois de formado diz que pretende ter um escritório e viver vida normal.”Quero ser respeitado, independente de ser índio”, acrescenta, afastando de vez a possibilidade de retorno a sua aldeia baniwa, um povo de cerca de 4 mil indígenas espalhados por três países – Brasil, Colômbia e Venezuela.

Eurico Lourenço Sena ou Surisawa