Agora, sim! Agora a música do país vai poder entrar na linha evolutiva que se ensaiou com o feeling e não deu em nada, por conta do conservadorismo daqueles que ainda tudo faziam baseados na mixórdia dos ritmos congos. Ela agora vai recuperar o atraso de 50 anos em relação à música brasileira: vai aposentar congas, güiros, bongôs, cencerros, maracas e baixo acústico; e resumir tudo na economia do violão e da flauta. A partir dessa revolução básica – e do fim dos embargos, claro! – vai importar guitarras e teclados, padronizar suas harmonias dentro dos cânones legado pelos Beatles, para então, chegar, evoluída e gradativamente, ao rock’n’roll, ao soul, ao boogaloo, ao funk, ao hip-hop, à boquinha-da-garrafa e ao créu. E assim, finalmente, os tambores e suas polirritmias complexas, as claves marcando aqueles mil códigos indecifráveis para cada uma das dúzias de gêneros, a africanidade enfim, vão se recolher no quartinho dos fundos daquele velho solar no bairro de Jesús María. Então, aí sim, a música do país entrará feliz, na era da globalização, ficando igualzinha à de todo o Planeta.
A religião, por sua vez, agora vai atingir excelsas alturas! As estatísticas não vão mais admitir a tal da “dupla confissão”, que agrega 1,4% da população do país. Todos vão ser cristãos, em princípio sob a proteção de São Cristóvão, padroeiro da Capital, recolhidas aos seus sacrários as escurinhas Vírgen de Regla e a del Cobre. E como os tempos são outros, em cada esquina, inclusive como incentivo à livre iniciativa, se abrirá um tabernáculo, com ministros e diáconos, vindos do Brasil e competindo entre si, para difundir a palavra do Senhor, cada um do seu jeito, com histéricos altos-falantes e sofríveis cantores, para inclusive morderem sua fatia no mercado musical, amplamente controlado pela Sociedade General de Autores de Espanha, SGAE, e pelos grandes conglomerados de telefonia e comunicação. E, nessa ordem de coisas, os santeros, babalaus, mayomberos, abacuás etc, todos transferidos para Santiago, em Oriente, serão incorporados ao Ministério do Turismo, pelo qual serão destacados para apresentações em navios, aeroportos etc, a dar boas-vindas aos visitantes que chegam. Em datas especificas, como o carnaval, ser-lhes-ão concedidas rápidas oportunidades de exibirem suas danças e pantomimas, exóticas e pitorescas, em vibrantes espetáculos públicos, na rua (Tropicana nem pensar!) que certamente rivalizarão com os maiores do mundo.
O decreto de reforma agrária será revogado, sendo os atingidos ou seus sucessores – a começar pela família Castro – amplamente reintegrados na posse de suas terras ou indenizados em euros, na forma da Lei. A indústria farmacêutica será toda gerenciada pelos laboratórios internacionais, o atendimento médico hospitalar ficando por conta exclusiva da Golden Cross. O esporte será comandado por um ministro vindo diretamente do Brasil, indicado pelo Sr. Havelange ou preposto.
A educação vai ser menos formal: teremos “artigos 99, em 1 mês, sem necessidade de freqüência”; cursos profissionalizantes e por correspondência em todos os níveis, focados nas áreas de percussão, capoeira, tae-kwon-do, modelo-manequim, DJ, street dance e basquete de rua. E mais: o analfabetismo funcional (em inglês) será reconhecido como especialidade.
Quanto às liberdades individuais, todos, inclusive crianças, serão livres para viver onde quiserem, principalmente ao relento, desenvolvendo assim sua criatividade na obtenção do sustento. O conceito de poluição ambiental fica abolido, incentivando-se a indústria automobilística a equipar os novos modelos fabricados com alto-falantes de ponta, de máxima potência, instalados nos porta-malas. Do ponto de vista da liberdade de expressão e comportamento, a memória general Arnaldo Ochoa, herói da República, acusado de tráfico de drogas e fuzilado em julho de 1989, será reabilitada. Não haverá repressão ao uso de estupefacientes, nem naturais nem sintéticos, cada um sendo dono do seu nariz e de sua cabeça.
As sedes dos Poderes serão otimizadas, construindo-se, nos lugares dos prédios que hoje ocupam, inclusive o obsoleto Capitólio, palácios de mármore e aço escovado, principalmente, face à sua suprema importância, os do Poder Judiciário, cujos membros deverão ser remunerados de maneira diferenciada, inclusive com o aporte de complementos tais como, auxílio para gasolina, propina pal saco (auxílio-paletó), ajuda-moradia etc.
Quanto ao Sistema Financeiro, os bancos terão liberdade para fixar, sem restrição, suas taxas de juros e tarifas de serviço.
Last but not least, a composição étnica da sociedade jamais será divulgada, para evitar confusões ou pleitos por ações afirmativas. Nada de “europeus ibéricos, 37% ; eurafricanos, 51%; afro-americanos, 11%” ! Para todos os efeitos, Mariana Grajales, António Maceo, Guillermón Moncada, Flor Crombet, Juan Guallberto Gómez, fundadores da pátria, além dos atuais vice-presidentes Juan Almeida e Estebán Lazo eram e são “queimadinhos de praia”.
Esto es la cosa!
Reproduzido de Meu Lote – www.neilopes.blogger.com.br – com autorização do autor.

Nei Lopes