Rio – Com direito a celebração com dança pataxó, a Alemanha venceu a Argentina por 1 a zero e conquistou a Copa do Mundo de Futebol 2014. A celebração, com todos dançando em volta da taça da FIFA em pleno Maracanã, foi mais um dos legados que os alemães levam do Brasil fruto da interação criada durante o período em que a seleção esteve concentrada no Centro de Treinamento instalado em Santa Cruz Cabrália, no sul da Bahia, onde estão as terras desses povos originários.

Na coletiva antes de deixarem a terra pataxó, o próprio cacique pediu a Thomas Muller e a Philipp Laham. “Primeiro falei que eles exageraram demais contra o Brasil e que 2 a zero tava bom. Depois, pedi que eles não deixassem a Argentina ganhar”. Os pataxós, se tornaram tristemente conhecidos após o assassinato do índio Galdino Jesus dos Santos, que era do povo pataxó hã hã hãe, em 1.997, em Brasília. Galdino foi morto enquanto dormia em uma parada de ônibus e jovens da classe média atearam fogo em seu corpo.

Pajelança

Meia hora antes da final, os índios se encontraram em frente à casa do pajé Itambé para rezar pela Alemanha de Shweinsteiger, Ozil e Khedira. A dança foi uma forma de agradecimento. Eles também participaram da última entrevista coletiva da equipe campeã mundial, com cocares lanças e rostos pintados. 

“Reunimos os grupos indígenas em um círculo. Acendemos os cachimbos e tocamos os maracás. Aí, em nossa língua, fazemos os nossos pedidos e orações. E os pedidos dessa vez são para que os alemães vençam”, revelou o cacique sobre o ritual antes do início do jogo decisivo da Copa 2014.

A dança na qual os alemães se inspiraram chama-se "anguaré", de acordo com o cacique Zeca Pataxó, e é tradicionalmente realizada para celebrar conquistas. Foi ensinada pelos indios no dia 09 de junho no primeiro treino da Alemanha. "Foi um pouco difícil ensinar porque eles não entendiam direito, nós tínhamos que puxar, ensinar como pisar", disse o cacique. Depois de assistir a celebração alemã, comentou: "Ficou meio sem jeito, mas valeu a intenção deles. Eles se saíram bem e é isso que importa", elogiou.

Toda a comunidade pataxó de Santa Cruz Cabrália torceu para a Alemanha na final. "Ontem a gente assistiu ao jogo com todo mundo vestido de camisa da Alemanha. Alguns estavam vestidos com camisa do Flamento (que se parece com o segundo uniforme alemão), e mostra que nós torcíamos mesmo para eles. Antes do jogo, fizemos uma oração para que eles tivessem força e pudessem ser campeões. E tuo deu certo, graças a Deus", concluiu.

Enquanto no Brasil, o legado da Copa é alvo de discussões acirradas, para o povo pataxó, o legado que os alemães deixaram pode ser contabilizado com o centro de treinamento, patrocínio de projetos sociais e R$ 30 mil que serão utilizados para a compra de uma ambulância.

Quem são

Os pataxós são um povo indígena de língua da família maxakali, do tronco macro-jê, que é conservada por muitos grupos que já falam o português, mas mantém a língua maxacali.

Em 2010 eram 1.833 pessoas segundo dados da Fundação Nacional de Saúde. Vivem em sua maioria na Terra Indígena Barra Velha do Monte Pascoal, no sul do município de Porto Seguro, a menos de um quilômetro da costa, entre as embocaduras dos rios Caraíva e Corumbau.

Da Redacao