Santos/SP – A Polícia Federal em Santos começa a ouvir a partir das 10h da próxima quarta-feira (12/08), o grupo de estudantes que respondem a Inquérito na PF por terem denunciado a prática de racismo institucional na direção do campus Silva Jardim, da Unifesp Baixada.

Os estudantes começaram a receber intimações para depor na semana passada. Nas intimações apenas o lembrete de que devem comparecer para “prestar declarações no interesse da Justiça”. Os depoimentos estão marcados para os dias 12, 20, 25 e 26 deste mês, às 10h e 9h, respectivamente na Delegacia da PF, na Rua Riachuelo.

Intimados

Ao todo são sete os intimados, seis do Curso de Serviço Social – Lana Caroline Barbosa Zizo, Damiso Ajamu da Silva Faustino, Maria Clara Pereira Soares (fotos abaixo), Maurício de Oliveira Filho (foto ao lado), Juliana Florentino Carvalho da Silva e Tatiane de Souza Santos -, e uma aluna do Curso de Educação Física – Bianca Bittencourt Bovolenta.

Todos são acusados pela professora Regina Célia Spadari, que exerceu a direção do campus até o final do ano passado e foi substituída no início deste ano pela professora Sylvia Helena Souza da Silva Batista. O “crime” cometido, segundo a ex-diretora, foi o de terem denunciado que a direção da Escola – no caso ela própria – se pautou por estereótipos racistas ao exigir crachá de duas alunas negras e, posteriormente, expulsá-las da sala de computação, onde participavam da II Semana da Consciência Negra, em novembro do ano passado.

Além do Inquérito na PF, há uma sindicância interna que poderá resultar em punições. A atual diretora ainda não se manifestou sobre a atitude da ex-diretora, que continua dando aulas na Universidade.

Alunas negras

O caso aconteceu no dia 27 de novembro do ano passado durante a realização da II Semana da Consciência Negra. No dia 1ª de dezembro, Spadari pediu a Polícia Federal a abertura de investigações.

Além de tomar como uma questão pessoal, ela acusa os alunos de depredação do patrimônio público porque, posteriormente ao episódio da expulsão das alunas, paredes e muros da Escola foram pichados com a frase “direção racista”. Os estudantes negam autoria das pichações e que tenham acusado Spadari de racista.

Ditadura

No velho estilo utilizado à época da ditadura militar, quando a repressão nos campi das Universidades acontecia com a instalação de Inquéritos Policiais Militares (IPM), a diretora chegou a cogitar, no depoimento, da entrada da Polícia Federal no campus, hipótese que acabou descartando pois “poderia agravar a animosidade instalada”. Ela ainda se disse preocupada com sua própria segurança.

No depoimento, porém, embora acuse os alunos  nominalmente, ela admite que não viu quem foram os autores da suposta depredação e que testemunhas, entre os quais citou o funcionário Claudio Amor Leonello, do setor de serviços, “é que a informaram que os alunos haviam cometido o ato da pichação”.

Segundo advogados ouvidos por Afropress, se a ex-diretora se sentiu ofendida com a frase genérica deveria ter representado na Polícia Civil por injúria e difamação, no prazo de seis meses, apresentando provas, além de outras medidas para proteger o direito de imagem, nunca levar o caso à Polícia Federal que, a rigor, só poderia apurar eventual “depredação do patrimônio público federal”, nunca a acusação de racismo.

Mobilização

Embora a Universidade esteja parcialmente em greve, os estudantes reagiram com indignação ao chamado para depor na Federal. Na segunda-feira (03/08), reuniram-se para debater o caso e decidiram denunciar a "criminalização do livre debate" e convocar toda a universidade a acompanhar os depoimentos.

Na reunião estiveram presentes os advogados Carlos Alberto Silva e Dojival Vieira, que acompanharão os depoimentos e os desdobramentos do caso. Segundo os advogados, “há uma clara tentativa de intimidação e de cerceamento do livre debate de ideias na Universidade, o que configura atentado a liberdade de pensamento e expressão, ainda mais quando se entrega estudantes a Polícia Federal”.

Centro Acadêmico

Em Nota divulgada pelas redes sociais, o Centro Acadêmico Livre do Serviço Social Ricardo Ferreira Gama, conclama os alunos à resistência: “Ninguém vai nos calar! Lutar não é crime!

“A intimidação aos movimentos sociais como forma de cerceamento da liberdade de manifestação é prática conhecida de longa data em nossa sociedade. A direção da Unifesp que se calou diante do racismo no trote do início de 2014, agora denuncia 07 estudantes que se manifestaram contra a prática de racismo institucional. Como se não bastasse, o faz com inverdades com a intenção de escancarada de calar aqueles que se levantam contra as opressões. Como se não bastasse, o faz justamente contra as pessoas que sofreram com o racismo na ocasião [referência as duas estudantes negras expulsas da sala]. Mas, fica aqui o recado: ninguém vai nos calar”, acrescenta a Nota.

Ao final convoca os estudantes a comparecer aos depoimentos na Polícia Federal – Rua Riachuelo, 27 – próximo a Praça Mauá, em Santos “para demonstrar apoio a todos os que lutam contra o racismo”.

Da Redacao