Rio – É de uma menina negra, que depois de uma derrota nas Olimpíadas de Londres 2012, foi alvo de ofensas racistas e quase abandonou o esporte, a primeira medalha de ouro conquistada pelo Brasil nos Jogos Olímpicos do Rio. A carioca, nascida na Cidade de Deus, Rafaela Silva, é ouro dos leves (57 kg) do judô, vencendo a mongol Sumiya Dorjsuren, a número um no ranking mundial.

Em Londres, ela foi eliminada por tentar um golpe ilegal e acabou por ser bombardeada com mensagens racistas nas redes sociais. Chegaram a dizer que ela era “uma vergonha para a família e para o país”. Em algumas mensagens, racistas a agrediram xingando a judoca de "macaca que devia estar na jaula". Após receber a medalha olímpica, a judoca deu o troco: "A macaca que devia estar na jaula hoje é campeã", desabafou.

“Treinei muito depois de Londres porque não queria repetir o sofrimento. Depois da minha derrota, muita gente me criticou, disse que eu era uma vergonha para minha família, para meu país. E agora sou campeã olímpica", disse a nova campeã olímpica.

Ela disse que até 2014 estava desacreditada. “Mas agora eu vim e treinei o máximo que eu podia e meu resultado veio através dos meus treinamentos. O ginásio chegava a tremer e eu consegui contribuir", acrescentou. 

História de superação

Rafaela nasceu na Cidade de Deus, comunidade pobre e violenta do Rio, que se notabilizou com o filme homônimo de Fernando Meireles. Em 2013, ela foi campeã mundial, também em sua casa, no Rio de Janeiro. Nenhum outro judoca do país tem títulos olímpicos e mundiais. Sarah Menezes, Aurélio Miguel e Rogério Sampaio têm ouros olímpicos, mas nunca venceram Mundiais. João Derly (duas vezes), Tiago Camilo, Luciano Correa e Mayra Aguiar tem o Mundial, mas não o ouro olímpico.

A história da judoca começou em uma academia montada em sua rua, quando tinha cinco anos e seus pais buscavam uma atividade para acalmar a menina brigona. O destino fez com que Geraldo Bernardes, o técnico de Flavio Canto, medalhista de bronze dos Jogos de Atenas-2004, se interesse pela garota. Ela foi treinar no Instituto Reação, que Bernardes e Canto criaram para ensinar judô em comunidades carentes.

Em 2008 o trabalho já dava resultado, com o título mundial sub-20. Em 2009, foi a melhor brasileira no Mundial de Roterdã, com um quinto lugar. A família, Bernardes, Canto e uma psicóloga não deixaram. No ano seguinte, ela já era campeã mundial e líder do ranking da Federação Internacional de Judô. Nos últimos três anos, subiu ao pódio em quase todos os torneios que disputou. A primeira medalha do judô na Rio-2016 não poderia vir de uma candidata melhor.

Segundo o técnico da judoca, Mário Tsutsui, a luta mais difícil foi a da semifinal. "A luta mais difícil foi contra a romena, pelo Golden score, mas quando ela passou a romena e vimos a mongol ganhando, ficamos confiantes e sabíamos que ela tinha uma chance muito grande de ganhar a medalha de ouro”, comentou. 

Da Redacao