Uberlândia/MG – O jornalista José Amaral Neto, de Uberlândia (Nº 70.855) quer ser eleito para a Assembléia Legislativa de Minas pelo PT do B, porque segundo ele o Movimento Negro mineiro “precisa de um parâmetro político. “Em nenhum lugar do Brasil, nem com a eleição de Caó [Carlos Alberto Caó de Oliveira] e Benedita da Silva, no Rio, ou Wagner do Nascimento, em Uberaba, “o movimento negro conseguiu sair do discurso”, afirma.
O resultado disso, de acordo com Amaral, é que “vimos Benedita e Matilde [ex-ministras do Governo Lula] serem escorraçadas “sem um único pé de mobilização política, pois nossos parlamentares atuais medem-se no medo de perderem seus cargos”, acrescenta.
O jornalista (foto) disse que, se eleito, vai lutar, entre outras coisas, pela melhoria do acesso à informação sobre como entidades do movimento social, no qual se inclui o Movimento Negro, “podem usufruir, de verdade, das verbas públicas na defesa do interesse social e de sobrevivência”. “Hoje somente as entidades “de amigos dos amigos do rei” sabem o caminho das pedras”, conclui.
Leia, na íntegra, mais uma entrevista da série e que faz parte do esforço de Afropress para estimular o voto em candidatos negros e antirracistas a deputados estaduais, federais e senadores, em todo o Brasil nas eleições de 3 outubro. O espaço é aberto a todos candidatos comprometidos com esta agenda, independente de partidos, às 5ªs feiras e aos domingos.
Afropress – Por que é candidato a Deputado Estadual e quais são suas principais propostas se eleito?
José Amaral Neto – Eu Sou candidato a Deputado Estadual para estabelecer um parâmetro político dentro do Movimento Negro em Minas Gerais, a partir do Triângulo Mineiro – tendo como hepicentro Uberlândia. Em nenhum lugar do Brasil, nem com a eleição de Caó e Benedita, no Rio, ou Wagner do Nascimento, em Uberaba, o Movimento Negro conseguiu sair do discurso. Vimos Benedita e Matilde serem escorraçadas sem um único “pé” de mobilização política, pois nossos parlamentares atuais medem-se no medo de perderem seus cargos.
As propostas são nossas urgências: melhorar o acesso a informação sobre como as entidades do Movimento Social, no qual se incluí o Movimento Negro, podem usufruir, de verdade, das verbas públicas na defesa do interesse social e de sobrevivência. Hoje somente as entidades de “amigos dos amigos do rei” sabem o caminho das pedras.
Até hoje nenhum dos membros atuais e anteriores dos parlamentos (Assembléias e Congresso) teve questionado quais eram “suas principais propostas se eleito… Precisamos ir além do discurso – colocar a mão na massa – sair da zona de conforto, se é que se quer ser reconhecido, ouvido, ter sucesso e ver a idéia virar realidade.
Afropress – Como acompanhou o debate sobre o Estatuto da Igualdade Racial aprovado e qual a sua posição a respeito?
Amaral Neto – Estatuto da Criança e Adolescente, Estatuto do Idoso… Se não conseguimos em dez anos executar com firmeza a Lei 10.639 para que serve esse embroglio?…
Os debates se resvalaram por palavras cheias de mágoas, rancor e desdém. Muitos se arvoraram e depois aceitaram estar presentes no gabinete do Ministro. Paulo Paim nunca disse a que veio e nunca utilizou seu gabinete para ir além do “eixo” buscar apoio e mobilização ao seu intento.
Com ou sem Estatuto, vejo que o caminho é elegermos pessoas que não temam se posicionar e usem seu gabinete político para viajar o Brasil e apoiar o maior número de irmãs e irmãos, que queiram ocupar o seu espaço de direito democrático na política de sua cidade.
Afropress – Qual a sua posição em relação às cotas e ações afirmativas e se considera necessário o aperfeiçoamento do Estatuto aprovado e recém-sancionado pelo Presidente da República?
Amaral Neto – A realidade é somente uma – como esse Estatuto vai ser executado e fiscalizado? Vai ser da mesma maneira que a Lei 10639?
As cotas e ações afirmativas ainda granjeiam como mera discussão de quintal – a SEPPIR, a Palmares e a TV Brasil foram criados para que a exclusão social recebesse a maquiagem necessária e os saberes através de um canal de debate que unisse todas as mídias. Onde estão as cartilhas da Palmares nas escolas? Onde está o Jornal Informativo da SEPPIR nos endereços do Povo Preto? Onde estão as ações da SEPPIR-Palmares concomitantes aos interesses das várias entidades e instituições do Movimento Negro que precisam de apoio e regulação?
É claro que vão responder que falar do lado de fora é mais fácil; então dê licença – desocupe o assento e nos deixem entrar. Cadê a campanha nacional de esclarecimento para aprovação do Feriado Nacional do 20 de Novembro?
Fui informado pessoalmente, durante evento preparatório da Conapir, por um alto funcionário da SEPPIR que os informes e apupos literários editados pelo “ministério especial” são destinados aos organismos públicos, pois ao povo nem as batatas. Que vitória é essa com a “aparição” desse Estatuto?
Afropress – Como se posiciona em relação aos assassinatos de jovens negros na cidade de S. Paulo, que ganharam a mídia com a morte dos dois motoboys e mais do ajudante de pedreiro Cristiano da Silva, nas mãos da Polícia Militar?
Amaral Neto – Em Minas Gerais, e aqui na minha cidade Uberlândia (pelo menos um homicidio violento a cada dois dias), não é diferente. O Comando Militar é que precisa rever sua ação – ainda se divulga nos quartéis que bandido bom é bandiddo morto e a cor dos marginais é preta; muito se fala na caserna que segurança se faz com constrangimento e ação de intimidação. O Comando Militar em suas várias instâncias precisa exercer o poder pela liderança e respeito.
A polícia, em seu todo, precisa entender que sua existência não pode ser associada à violência, mas sim para a prevenção e apoio social a todo e qualquer cidadão.
Lembro ainda o caso do irmão atacado no pátio de um supermercado em Osasco.
Com um mandato asseguro que estaria utilizando os mecanismos que um gabinete de deputado permite para que uma mobilização “de corpo presente” estivesse de vigília até que resultados satisfatórios fossem disponibilizados em respeito aos que estão à mercê dos desmandos daqueles que se acham acima da Lei e do bem e do mal.
Afropress – Fale um pouco de sua trajetória pessoal e política e na importância da eleição de candidatos negros e anti-racistas nestas eleições.
Amaral Neto – Racista é aquele que defende a sua raça; devemos lutar é contra o preconceito e o pré-conceito, seja ele contra gordos, nerds, mulheres, negros, nordestinos, e muitos outros grupos étnicos e sociais que são vilipendiados e humilhados todos os dias.
Se admitirmos ser antirracistas negamos a existência da nossa luta em favor da nossa raça negra. Os judeus defendem o direito de serem judeus (eles tem até a própria comida kosher); os arábes entendem que não lhes basta o petróleo.
Entendem eles que a sua religião deve guiar o mundo, pois a sua raça está mais próxima do Criador. Se assim é quero expressar que os Deusas e Deuses Orixás devem ocupar espaço nesse panteão racialista, pois fazem parte do imaginário do universo a mais de cinco mil anos.
Comecei a militar no Elite Clube de Uberaba-MG, terra do engenheiro Wagner do Nascimento, que foi prefeito nesta cidade de 1983 a 1988. Grande político. Um negro atento ao momento em que ocupou o poder, entretanto, dissociado dos conclaves do “eixo”.
A sua margem viu surgir o MNU, o QuilombHoje, o IPCN, entre outros e não ocupou-se em entendê-los e apoiá-los. Não é uma critica, é uma constatação, pois este irmão, hoje saudosamente lembrado, amargou ostracismo assim que deixou a prefeitura de Uberaba; nem quando deputado federal teve destacado seu trabalho e, recolheu-se a um empreendimento em Brasília. Os que se seguiram depois dele (…) Para saber mais sobre mim acesse: www.cql.com.br/jancom
Afropress – Faça as considerações que julgar pertinentes.
Amaral Neto – Precisamos esclarecer uma coisa: ninguém sabe nada, nem eu. Aprendemos todos os dias. Quase sempre quando acreditamos estar contribuindo com nossas argumentações, aparece alguém magoado com o que leu.
Tenho por premissa somente escrever ou defender aquilo que acredito. Em 2010 não é simplesmente votar em negras e negros, mas sim em pessoas que estejam comprometidas com o processo político, e não eleitoreiro. Não se pode votar numa pessoa por falta de opção, mas sim por convicção de que o que ela fala, ela vai transformar em ação.
Não pode ser preto por preto, mas sim o preto que quer ser preto e defender o preto custe o que custar. Não é o que você tem, mas o que você candidato pode oferecer com o seu curriculum. Não adianta ter curso superior, mestrado, doutorado, se o candidato não sabe ouvir e entender o que se pede dentro do Movimento Negro.
Precisamos ir além dos discursos. O poder politico se alcança com um projeto a longo prazo. O meu em Minas Gerais começa em 2010, passa por 2012 e se consolidará mais vitorioso ainda em 2014.
Em 2010, é claro que quero vencer; mas isso não é um fim, mas sim, um meio para se chegar em 2012 e 2014 com musculatura democrática e partidária. Isso precisa acontecer em rede. Uns pelos outros. Eu ajudo você, que me ajuda e que ajudamos outros ali e acolá. Agradeço a você Dojival pelo apoio. Juntos somos fortes, meu amigo!

Da Redacao