S. Paulo – O vereador Anderson Silva, de Francisco Morato, candidato a Deputado Estadual pelo PT (Nº 13000), diz que pretende transformar o mandato, se eleito, e a própria Assembléia Legislativa “numa caixa de ressonância, das formulações dos movimentos sociais”. “Defendo um projeto político para a periferia, baseado em minha vida como militante de base, que sempre dialogou com os movimentos que participo, tanto o Hip Hop quanto o movimento negro construindo pela base”, afirmou.
Entre as propostas, Anderson (foto), que ocupa pela segunda vez um mandato na Câmara de Francisco Morato,cidade da região metropolitana da Grande S. Paulo, defende a mudança do nome do Palácio dos Bandeirantes – atual sede do Governo Estadual – para “Palácio dos Quilombolas”, bem como a “extinção de todas as referências positivas feitas aos bandeirantes”. “Os quilombolas são os heróis que este Estado tem que reverenciar”, afirma ele.
Veja, na íntegra, a entrevista da série e que faz parte do esforço de Afropress para estimular o voto em candidatos negros e antirracistas a deputados estaduais, federais e senadores, em todo o Brasil nas eleições de 3 outubro. O espaço é aberto a todos candidatos comprometidos com esta agenda, independente de partidos, às 5ªs feiras e aos domingos. O próximo entrevistado é o advogado Sérgio São Bernardo, candidato a Deputado Estadual pelo PT da Bahia.
Afropress – Por que é candidato a Deputado Estadual e quais são suas principais propostas se eleito?
Anderson Silva – Sou candidato, pois não encontrei em nenhuma das candidaturas postas, pelo menos nas que conheço, uma afinidade ideológica ou similaridade com questões que acredito que eu possa defender.
Defendo um projeto político para a periferia, baseado em minha vida como militante de base, que sempre dialogou com os movimentos que participo,tanto o Hip Hop, quanto o Movimento Negro, construindo pela base; sem relação de dirigente e sim de ativista dedicado a um projeto de construção que vise à emancipação política da periferia.
Como principal proposta defendo o estreitamento do dialogo com os movimentos sociais, transformando a ALESP (Assembléia Legislativa de São Paulo) e nosso mandato numa caixa de ressonância, das formulações dos movimentos sociais.
Mas também pontuo propostas mais objetivas tais como: defesa do feriado estadual em respeito a memória de Zumbi dos Palmares; valorização dos Conselhos Estaduais de Participação Cidadã e Popular; estudos e leis que visem diminuir o genocídio da juventude negra e periférica; a troca de nome do Palácio dos Bandeirantes para Palácio dos Quilombolas, que são os heróis que este estado tem que reverenciar; bem como lutar pela extinção de todas as referencias positivas feitas aos bandeirantes; declarar o futebol de várzea patrimônio imaterial do estado de SP; elaborar centros de formação políticas para as periferias; defender a implementação de todas as propostas tiradas no ENJUNE Estadual e no nacional que foi concretizado em Lauro Freitas/BA, por acreditar que estas propostas representam o anseio da esmagadora maioria negra e periferia nesse país, nos eixos ali apontados;
Afropress – Como acompanhou o debate sobre o Estatuto da Igualdade Racial aprovado e qual a sua posição a respeito?
Anderson – Na questão geral sobre o EIR, me considero um dos inúmeros propositores e propositoras que ele teve, a começar pelo fato dele ter se desenhando no momento que eu estava mais atuante na minha militância negra, participei de inúmeros momentos que servirão para elaborar e nortear o legislativo nacional em função da sua concepção, portanto, não tem como disssociar a formulação dele com minha militância.
Na questão mais direta, fiquei em sintonia com inúmeros momentos de discussão e aprovação dele, inclusive, estive em alguns momentos em Brasília para fazer discussão e participar de provocações a respeito do mesmo.
Agora, sobre sua aprovação e como ele ficou, digo que passando a chateação e revolta inicial, pois acredito que ele foi mutilado em sua essência e utilidade, que seria esperar muito desses legisladores que estão e dessa correlação de forças que temos no Congresso Nacional extremamente desfavorável, não podemos ser ingênuos e achar que estamos fortes o bastante para propor mudanças nesta sociedade racista com facilidade, não estamos.
Temos muito que avançar e acredito que o fato de não termos o Estatuto que queríamos nos permitirá continuar articulando e lutando pela busca da emancipação política do nosso povo.
Vejo nesta derrota momentânea, estimulo para a gente buscar nos fortalecer mais e espero que realmente seja isso que aconteça, como legislador que sou (estou no segundo mandato de vereador da minha cidade) sei que as leis são um reflexo do momento e que não são estáticas, podem e devem ser modificadas, conforme a consciência e pressão da sociedade;
Afropress – Qual a sua posição em relação às cotas e ações afirmativas e se considera necessário o aperfeiçoamento do Estatuto aprovado e recém sancionado pelo Presidente da República?
Anderson – Sou completamente a favor das cotas, mas discordo dos percentuais. Acredito que o numero deveria seguir minimamente o IBGE, de acordo com nosso tamanho da localidade. Esse deveria ser o índice para definição do percentual das cotas, em todos os espaços. Defendo as cotas raciais como medida importante e a cota social como medida acessória, pois as cotas sociais não servem como medida para diminuir o racismo no meu entendimento.
Além das cotas defendo também políticas de reparações, acredito que cada cidadão e cidadã do fenótipo negróide, deveria receber uma verba indenizatória do Estado pelos crimes de escravidão, alem de uma compensação financeira para os países africanos que tiveram seu povo seqüestrado. Sobre o aperfeiçoamento do Estatuto deixei minhas impressões na questão anterior.
Afropress – Como se posiciona em relação aos assassinatos de jovens negros nas periferias das cidades brasileiras pela Polícia Militar?
Anderson – Meu posicionamento é de revolta e indignação. Somos todos nós que custeamos este aparelho repressor e racista chamado Polícia Militar. Já está mais que na hora de mudarmos essa instituição arcaica e nociva a nossa juventude. A PM age de forma totalmente despreparada no que diz respeito a questão racial e opera sobre uma lógica de extermínio da juventude negra nas periferias brasileiras, precisamos propor profundas mudanças nisto, garantindo uma policia mais cidadã e próxima da nossa gente.
Defendo a desmilitarização total da polícia e de uma formação mais rigorosa nas questões das relações interpessoais da instituição e da população negra; além de defender câmeras de monitoramento da ação policial e de armas de uso não letal em atividades de fins pacíficos.
Afropress -Fale um pouco de sua trajetória pessoal e política e na importância da eleição de candidatos negros e antirracistas nestas eleições.
Anderson – Bom, minha vida foi uma vida como a de muitos dos nossos manos e manas da periferia. Nasci na periferia de SP, na Vila Brasilândia, morando de aluguel, onde, fugindo disto meu pai mergulhou ainda mais longe indo parar em Francisco Morato, cidade da periferia da região metropolitana, e no bairro do Jardim Alegria, periferia de Morato.
Observe que minha infância e vivencia foram sempre ligadas a periferia e suas dificuldades. Onde me criei em Morato, sempre faltou tudo, asfalto, água encanada, esgoto, segurança, educação de qualidade, posto de saúde, enfim, só carência. Neste território eu tinha tudo pra fracassar e desacertar, como vários e varias fizeram, mas pelas ondas do radio, fui convocado para me “alistar” no movimento Hip Hop e isso mudou minha vida.
Começou meu pioneirismo em muita coisa, criei o primeiro grupo de Rap de Morato, fui presidente de grêmio na minha escola, criei um grupo de conscientização para nosso povo, a O.C.P.P. (Organização Consciente do Povo Preto), fui eleito o primeiro vereador do movimento Hip Hop do país em 2004 e o primeiro do PT da minha cidade; fui co-autor do ENJUNE, Encontro Nacional de Juventude Negra; fui um dos idealizadores da JN13, grupo de Juventude Negra do PT.
Como parlamentar apresentei e transformei em Lei o dia 20 de novembro feriado municipal na minha cidade; revisei sozinho toda a Lei Orgânica e regimento interno da cidade; criei a tribuna popular livre; conselho da comunidade negra; conselho da cultura; fui o primeiro vereador a trazer emendas federais para a cidade etc. Fui reeleito em 2008 e dos três reeleitos na minha cidade somente eu tive crescimento nos votos. Teria muita coisa pra falar pois tenho uma biografia extensa apesar da minha pouca idade, mas a síntese é esta aí.
Sobre a minha luta antirracista, tudo começou junto com minha consciência social adquirida pelo Hip Hop. Vejo que o maior crime de racismo contra nossa gente foi a ignorância e a inércia que foi implantada em nossa essência; estes dois nos impõe limitações terríveis no sentido de nos organizarmos e nos emanciparmos politicamente. A falta de um plano e uma ação, somada a ignorância que temos sobre o jogo da política, nos coloca sempre em posição de inferioridade nas disputas.
Mudar isso exigiria da gente, uma capacidade maior de nos entendermos e nos respeitarmos, além de ter uma visão nítida do que precisamos, não podemos ficar presos a dogmas e teorias sociais arcaicas ou ultrapassadas que não nos permite pautar a sociedade que vivemos.
Por acreditar na luta institucional pelo poder, acreditar que através das vitórias eleitorais poderemos um dia construir uma sociedade socialista, eu sinto que devemos levar a massa e nosso povo em especial, para um nível de conscientização onde ele entenda esses mecanismo, abandone a indiferença e assuma sua responsabilidade sobre seu destino.
Temos que concentrar todos nossos esforços para isto, penso muito no despertar político da nossa gente e no protagonismo negro na política.
Afropress – Faça as considerações que julgar pertinentes.
Anderson – Agradeço a Afropress pelo espaço, ao companheiro Dojival, que é um importante quadro na nossa luta. Desejo sucesso e sorte nesta caminhada. Seria uma honra e uma alegria muito grande tê-lo como companheiro e camarada na ALESP. Saúdo o leitor e a leitora e espero que minhas respostas promovam uma boa reflexão e ponderação consciente sobre essas eleições.
Peço uma análise sobre o que foi exposto aqui e um entendimento que nos somente de precisamos de nós mesmos, que temos de deixar de sermos massa de manobra e passarmos a construir nossa própria história. Desejo ver posto um projeto político para a periferia, onde que estes 4p´s realmente tenha o sentido de poder para o povo preto. Abraços e tamu juntos!!!

Da Redacao