Brasília – A audiência com Lula foi antecedida de uma reunião de quase duas horas, com os ministros Márcio Tomás Bastos, da Justiça, Luis Dulci, Secretário Geral da Presidência, e Matilde Ribeiro, da Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial da Presidência (Seppir).
A audiência foi aberta por Vânia Santana. “Nós estamos aqui em memória de um grupo que sempre lutou pela dignidade, pela liberdade e pela vida”, afirmou Vânia, para em seguida acrescentar. “Este Estado, senhor ministro, tem faltado com o respeito com 45% da população brasileira. Estamos aqui com os nossos recursos e com a convicção de que as nossas demandas são corretas. Travar a luta contra o racismo é fundamental para a sociedade brasileira”, afirmou.
Antes de encerrar ela pediu a Mário Teodoro, do Irohin, que falasse sobre os estudos que demonstram o custo/racismo no país. Segundo Teodoro, estudos nas áreas de Educação, Saneamento básico e Habitação, revelam que, para se chegar à igualdade racial no Brasil, serão necessários investimentos de cerca de R$ 67,2 bilhões, o que dá uma idéia do tamanho da dívida com a população negra.
Edson Cardoso, do Irohin, Cida Bento, do CEERT, e os ativistas Hamilton Barbosa e Marcos Rezende também denunciaram as perseguições às religiões de matriz africana, em especial por parte das Igrejas Neopentecostais, como a Universal do Reino de Deus.
Bastos disse que instruiu a Polícia Federal a ficar atenta a todo o tipo de manifestação envolvendo a liberdade de culto e acrescentou que as Corregedorias tem instrução para trabalhar com todo o vigor. “Eu peço que nos noticiem estes casos. Denunciem para que agente possa apurar com todo o rigor”, afirmou.
Diante da exposição da professora Cida Bento, que usou a palavra genocídio para se referir aos assassinatos de jovens, disse que não considera a palavra genocídio uma palavra forte para descrever o que se passa no Brasil. “Eu não acho que a palavra seja forte. De fato a situação atinge níveis de guerra civil. Em matéria de repressão nós temos um projeto de combate à criminalidade, mas é importante destacar que o importante é mudar as instituições, que devem ser confiáveis”, acrescentou.
O presidente do Olodum, João Jorge, defendeu uma campanha do Ministério da Justiça sobre a importância da liberdade religiosa, especialmente em função das TVs serem concessões públicas. “A Seppir e o Ministério da Justiça podem fazer isso. As TVs educativas são redes públicas”.
João Jorge disse que o país está 50 anos atrasado em relação à Índia, Estados Unidos e Africa do Sul, na questão das ações afirmativas. “Essa caminhada é uma questão de justiça reparadora, ministro”, sublinhou.
O presidente da ONG ABC sem Racismo e jornalista responsável pela Afropress, Dojival Vieira, acrescentou que é inadmissível a forma como se naturaliza e exclusão e a morte de jovens negros e frisou que, muitas medidas não dependem de recursos, mas de decisão do Estado e que podem sinalizar para a sociedade a rejeição ao racismo. Lembrou o caso do combate ao racismo na Internet que já tem um acusado processado criminalmente pela Justiça de Brasília – o estudante Marcelo Valle Silveira Mello – e a campanha contra o racismo assumida pelo Governo da República Theca e que tem o brasileiro Adauto, jogador do Slavia Praga, como atleta símbolo. “Talvez, seja esta, ministro, a última chance neste início de século XXI de o Estado brasileiro se reconciliar com a população negra, deixando a prática de jogar a questão da desigualdade racial para debaixo do tape. Se perdermos essa oportunidade ninguém sabe se haverá outra”, afirmou.
Ao responder a questão, o ministro admitiu. “A omissão é, de fato, a pior forma de cumplicidade”. Ele acrescentou que há necessidade de a Polícia ter corregedorias independentes para perder “essa impregnação de classe e racial”.
Além dos deputados federais, Luis Alberto, do PT da Bahia e João Grandão, do PT de Mato Grosso, participaram da reunião os dirigentes da Seppir, João Carlos Nogueira e Antonio Silva.

Da Redacao