Brasília – Passados três meses e quatro dias desde que a presidente da República Dilma Rousseff recebeu uma comissão de negros como parte da agenda para dar satisfação às manifestações de rua que abalaram o país em junho, e que ainda não se encerraram embora tenham diminuído de intensidade e tamanho, o Palácio do Planalto até agora não deu nenhuma resposta à demandas históricas da população negra, algumas das quais levantadas durante a reunião.

Uma das reivindicações da reunião com Dilma ocorrida no dia 19 de julho foi a adoção de cotas no serviço público federal, tema que ganhou relevo na conversa depois que o diretor executivo da Educafro, Frei David Raimundo dos Santos, contou ter questionado fortemente a Presidente sobre "se teria medo de adotar cotas", mesmo após o Supremo Tribunal Federal ter decidido por unanimidade considerá-las constitucionais para negros e indígenas.

Segundo lideranças ouvidas pela Afropress, a razão do silêncio do Planalto seriam duas: primeiro os 21 membros da delegação – com excessão do reitor da Universidade Zumbi dos Palmares, José Vicente, e do diretor executivo da Educafro, Frei David Raimundo dos Santos – foram todos indicados a dedo pela ministra chefe da SEPPIR Luiza Bairros; segundo, que os autoproclamados representantes – a maioria dos quais ligados a partidos da base do Governo – assumiram o papel chapa-branca e, destoando do sentimento de cobrança das ruas, saíram da reunião elogiando “a sensibilidade da Presidente”.

Tanto Vicente (foto), quanto David, embora tenham comparecido em respeito ao convite do secretário-geral da Presidência, ministro Gilberto Carvalho, fizeram ressalvas a forma como o encontro foi conduzido. "A reunião na verdade, pode-se dizer, foi uma extensão da SEPPIR, com uma agenda já delimitada, já definida pelos integrantes do CNPIR [Conselho Nacional de Promoção da Igualdade Racial]. Não coube qualquer tipo de intervenção mais profunda de quem não era integrante do CNPIR. Foram escolhidas seis pessoas para falar por votação. Não fizemos uso da palavra. A palavra oficial foi realizada por essas seis pessoas", contou Vicente. O Conselho, criado por decreto, é formado por entidades da sociedade civil, e é órgão de assessoramento da ministra.

Cotas no serviço público

Mesmo a intervenção de David (foto), que contou ter falado à revelia do combinado e travado um duro diálogo com Dilma ao questionar se a Presidente teria medo de cotas no serviço público, acabou caindo no vazio porque David, que chegou a dar um prazo de 60 dias para fazer manifestações no Palácio do Planalto cobrando a adoção das medidas, parece ter recuado da posição.

 

A reunião teve a participação dos ministros Aloiso Mercadante, da Educação e Gilberto Carvalho, chefe da Secretaria Geral da Presidencia e responsável pela articulação com os movimentos sociais. Ao final da reunião, Luiza Bairros, assumiu o papel de porta-voz do movimento social, o que provocou protestos até mesmo de lideranças da Coordenação Nacional de Entidades Negras (CONEN), ligada ao PT, como Gilberto Leal, da Bahia. "Luiza Bairros é ministra do Governo. Não fala por nós, o movimento negro, que somos um movimento social. Somos parte da sociedade civil", disse Leal.

No seu estilo acadêmico desconectado da realidade em que se especializou, a ministra ao final disse que a presidente teria reafirmado que “as ações afirmativas e, mais especificamente a das cotas, constituem um elemento central na luta pela promoção da igualdade racial no Brasil”.

Elogios

Os dois representantes do movimento que, à época, – Valdeci Pedreira do Nascimento, do Instituto Odara da Mulher Negra, e Edson França, coordenador geral da UNEGRO – elogiaram a sensibilidade da Presidente para o Blog do Planalto. “O acolhimento da Presidenta foi fundamental. Positivo o movimento sentar, chegar num mínimo de unidade no sentido de apresentar essas proposições, considerando inclusive a reforma política como uma das ações estruturantes e de mudanças relevantes que devem acontecer no nosso país, como também apresentar as avaliações positivas e apontar as negativas e garantir desdobramentos num conjunto de ações que para nós são prioritárias, e ouvir da presidente um compromisso dela em promover a igualdade no país, com todos os desafios que tem”, afirmou.

Também para França o encontro foi positivo. “Trabalhamos alguns eixos que consideramos importantes, tendo como ponto focal a reforma política”, disse. Logo após a reunião em comentários pelas redes sociais, França e Marcos Rezende, do Coletivo Nacional de Entidades Negras  (CEN) – ligado a uma das correntes do PT – chegaram a desmentir o caráter "chapa branca" do encontro atacando as matérias de Afropress nas redes sociais, considerando-as "tendenciosas".

Rezende, inclusive, teria sido escalado como porta-voz para dar entrevista a Paulo Henrique Amorim – o âncora da TV Record – considerado o representante oficial da rede de blogueiros alinhados ao Palácio do Planalto.

A expectativa agora é de que a Presidente defina quais as medidas de um pacote, que vem sendo adiado desde o ano passado, no próximo mês de novembro – mês da Consciência Negra -, em especial durante a III Conferência Nacional de Promoção da Igualdade Racial, marcada para acontecer entre os dias 05 e 07, em Brasília. 

Da Redacao