No aniversário de 57 anos do tristemente conhecido golpe militar que, por 21 anos, impôs uma ditadura que prendeu, cassou, suprimiu as liberdades, torturou, matou e desapareceu com corpos de brasileiros, é preciso dizer com toda firmeza, e com destemor. A ditadura continua produzindo tragédias e causando mortes, dor e sofrimento a milhares de brasileiros.

Precisamente neste 31 de março de uma quartelada que deixou um rastro de dor em milhares de famílias, seguimos a marcha fúnebre de 320 mil mortes provocadas, não pela pandemia, mas pelo governo militar que se instalou a partir de 2018 por meio da fraude e de um golpe que impediu a vitória da oposição nas eleições.

A recente declaração de suspeição do ex-juiz Sérgio Moro pela mais alta Corte de Justiça do País, o Supremo Tribunal Federal (STF), desnudou as entranhas da patranha e do golpe e a natureza dos algozes do povo brasileiro, enganado e levado a votar num extremista protofascista, apresentado como salvador da Pátria e assumido como seu candidato pelos militares.

Muitos desses generais que se acercaram do governante que o mundo todo conhece como um genocida, candidato a sentar no banco dos réus do Tribunal Penal Internacional de Haia, são saudosistas da ditadura corrupta e das suas atrocidades, e louvam como “homem de honra”, o monstro torturador Brilhante Ustra.

Ainda hoje com a desfaçatez e o cinismo que os caracteriza, ameaçam o povo com golpes e contra golpes. Na verdade, desde a República que os historiadores registram como um golpe de Estado, não fazem outra coisa, não pensam outra coisa, senão assumir o papel de tutores da República, uma espécie de partido militar, o partido armado do Capital.

Bolsonaro, ele próprio, e os seus apoiadores neofacistas e neonazistas, são produto do conluio dessa cúpula militar que jamais esteve ao lado do povo, a despeito da presença de centenas de patriotas de baixa patente nas três Forças, soldados oriundos das camadas mais humildes do povo. Não há que se confundir os interesses da casta castrense, aliada ao bolsonarismo infame, com aqueles que pela origem de classe estariam em outras fileiras.

O sangue dos mártires dessa ditadura fala, grita por todos. Os que morreram na tortura, como Wladmir Herzog e Manoel Fiel Filho, Virgilio Pedro da Silva, Stuart Edgar Jones, Joaquim Seixas, Mário Alves, Luiz José da Cunha, o Comandante Crioulo, Onofre Pinto, ambos negros comandantes das duas principais organizações revolucionárias da resistência armada – a ALN e VPR -, não podem falar.

Pedimos licença para falarmos nós por eles.

As famílias a quem foi negado o sagrado direito de enterrar seus mortos, como a de Rubens Paiva, travam até hoje, uma luta sem trégua pelo direito à memória e a verdade. Não haverá esquecimento nem perdão.

Os que tiveram suas liberdades suprimidas, os humilhados, os ofendidos, os explorados, seguem por aí, agora expostos a um vírus mortal e a fome, pela política do genocida, o último fruto podre produzido pela ditadura.

Nestes 57 anos que lembramos com profundo respeito aos mártires da resistência, os militares que novamente ameaçam o povo com golpes a que chamam de “ruptura da ordem institucional”, como se para a maioria do povo em algum momento tivesse havido alguma ordem senão a dos humilhações, do desrespeito aos direitos, da desigualdade, da fome e da violência da polícia, deveriam lembrar, na data fatídica em que romperam com a ordem constitucional, de uma lição que a geração derrotada na resistência deixou às novas: se houver nova ruptura e novo ciclo de violência, muitos morrerão, mas a resistência estará viva.

Combateremos como os insurgentes de Argel nas batalha pela libertação contra os franceses. Combateremos como os vietcongs no Vietnã, que tiveram a ousadia de enfrentar e derrotar a maior potência militar do planeta. Seremos a nova Coluna Prestes. O espírito de Marighela renascerá em milhões de jovens da nova geração, nas favelas, nos mocambos, nas periferias das cidades, para combater a tirania.

Os soldados “armados amados ou não/quase todos perdidos de armas na mão” deveriam esquecer as “antigas lições” que lhes ensinam nos quartéis de “morrer pela pátria e viver sem razão”. Há uma nova lição a ser aprendida: deixem de servir de base de apoio e de manobra de um governo que pratica um verdadeiro genocídio contra o seu próprio povo. Voltem para os quartéis!

O povo brasileiro não tem do que se orgulhar de um Exército que se assume como o partido armado do capital e protege um governo genocida. O povo brasileiro só terá orgulho do seu Exército, no dia em que ele estiver ao lado do povo e das suas bandeiras pela libertação econômica e política e por uma Pátria livre e soberana.