A COPA finalmente começou, e cada vez fica mais claro para nós, brasileiros, que os problemas que estamos presenciando -e sofrendo- aqui devem ser parecidos com os que nos esperam no próximo Mundial, no Brasil.
Transporte público precário (mais ainda do que o nosso, é preciso que se diga), trânsito caótico, informações desencontradas, medo da violência e, por fim, obras inacabadas, tanto nos estádios como nas ruas. Improvisação e desordem, em suma. Soa familiar?
Mas as qualidades positivas também se assemelham dos dois lados do Atlântico Sul. O calor humano e a simpatia da maioria das pessoas quase compensam, muitas vezes, a ineficiência de um serviço, como ocorre com tanta frequência no Brasil. Completa as semelhanças uma certa vocação dionisíaca, um know-how do prazer e da alegria, aquilo que o músico e professor de literatura José Miguel Wisnik chamou de “tecnologia de ponta do ócio”.
A Copa que está começando aos trancos, barrancos, sustos e sorrisos na África do Sul nos coloca diante de um desafio interessante: como oferecer ao mundo, daqui a quatro anos, um padrão aceitável de organização, segurança e eficiência sem perder o jogo de cintura, a alegria e a afetividade? E não é esse, em última análise, o desafio que temos de enfrentar de modo permanente como nação?
Futebol mediano
Como costuma acontecer nas aberturas de Copas do Mundo, África do Sul e México não fizeram ontem um grande jogo de futebol. Mais do que o gol de empate feito pelo México, foi a ausência de Nelson Mandela que frustrou as expectativas dos 90 mil espectadores presentes ao Soccer City, inclusive deste que escreve estas mal traçadas.
O empate sem gols entre França e Uruguai confirmou que esse Grupo A é um dos mais embolados e imprevisíveis da Copa.
A África do Sul, sem que ninguém nos ouça, é um time limitadíssimo. O México, um pouco menos. O Uruguai tem poucas chances de surpreender, e a França está meia-boca, para dizer o mínimo.
Ou seja, nenhum candidato ao título e nenhum saco de pancadas. Mais sem graça que isso, só entrevista do Dunga.
O texto foi publicado, primeiro, na edição deste sábado, 12/06 do Jornal Folha de S. Paulo

José Geraldo Couto