A velha discussão sobre o racismo brasileiro não é um temática do passado, é do presente, reatualizada, multifacetada, constante, recorrente no dia dia e nem sempre ocupa os noticiários como deveria. Contudo, novamente o racismo no futebol foi pauta da mídia: o jogador Aranha do Santos foi xingado de macaco por parte da torcida do Grêmio em Porto Alegre.

O Brasil acostumado a se horrorizar com cenas racistas nos campos de futebol europeus virou manchete na imprensa local e internacional com atos de racismo, diferenciado apenas pela complexidade do racismo.

Aqui as coisas parecem meio abstratas, meio “sul real” e hipócrita quando analisamos a fundo, onde a subjeção se confunde com o ato, abrindo espaço para que o problema seja identificado como sendo sempre do “outro”, do branco racista ou do negro rancoroso e não da sociedade como um todo. É como se não tivéssemos nada a ver com “aquilo” e a zona de conforto de um país que se diz harmonioso, multirracial ganha corpo e alma.

Puro cinismo. Assim, nos escondemos atrás do tal fato que nada tem de “isolado”, seguimos pateticamente nossas vidas, tudo dentro da tal “normalidade”.

Exemplos de que as coisas se dão exatamente dessa forma estão por todo lado. Em 1995 pesquisa realizada em nosso país mostrou que quase 100% dos brasileiros negam ser racistas, mas quase 100% acreditam que as pessoas são racistas. Portanto, o racista é sempre o outro.

O fato por aqui chama mais atenção quando se procura penalizar a prática, na Europa, por exemplo, onde clubes com torcedores racistas são severamente punidos até com rebaixamento para divisões inferiores, no Brasil único país do mundo onde a Constituição descreve o racismo como crime inafiançável, não se conhece ninguém que foi parar atrás das grades.

A levar pelas formas que sempre acabam as coisas por aqui, é bem possível que a torcedora racista do Grêmio, denunciada, irá se apresentar nesta semana dizendo que tem uma avô, uma vizinha ou até uma empregada negra e que sempre as tratou bem.

Aliás, essa desculpa já esta sendo utilizado pelo próprio Grêmio que correu para mostrar em seu site um vídeo com seus jogadores negros do presente e do passado. Coisas da hipocrisia do racismo brasileiro.

 

Maurício Pestana