S. Paulo – A fotografia de Charles “Chuck” Martin é um olhar passeando por lugares, por cidades, por pessoas, nas quais se fixa. Não é pautada.  “Chuck” tem a descontração e o relaxamento de um único compromisso: captar imagens que lhe agradam, que aguçam sua curiosidade de viajante. “O que não me agrada não fotografo. Por que guardaria na minha câmera imagens desagradáveis?”, pergunta em tom de quase inocência.

No desfile de imagens há aquela da senhora portuguesa, em Lisboa, que – alvo da câmera atenta e curiosa de “Chuck” – corre para dentro de casa e vai buscar a família e, de repente, eis que aparece na cena outros personagens, inclusive um homem (provavelmente o marido), de pijama. Ou das Torres Gêmeas, ainda de pé, iluminadas, na foto tirada do terraço do seu apartamento em Manhattan.

Há pintores impressionistas, outros da natureza morta. “Chuck” fotografa como um pintor dos reflexos, dos espaços vazios, dos olhares, da natureza humana capturada com descompromisso – quase ao acaso.

O fotógrafo norte-americano reuniu amigos e admiradores de seu trabalho, na Imã Foto Galeria, que fica na Fradique Coutinho, na Vila Madalena, na noite desta quinta-feira (25/07) para falar de suas viagens por lugares distintos como Argel, a capital da Argélia-, Manhattan, Salvador, S. Paulo e Maranhão.

Sala lotada com pessoas de pé, sentadas em cadeiras e outras tantas no chão, clima de absoluta descontração, lembrava uma assembleia estudantil ou reunião de diretório acadêmico no auge do movimento estudantil nos anos 70/80. Quem foi queria conhecer o personagem e o trabalho de “Chuck”.

Na abertura da Roda de conversa, que teve como mestres de cerimônia o fotógrafo Luiz Paulo Lima, a produtora Gabriela Watson, autora de “Nosotros Afro-peruanos”, e Nabor Jr., “Chuck”o foi logo confessando o seu amor pelo Brasil, amor que diz ter adquirido após viagens a Bahia, Maranhão, Rio e S. Paulo. “Aqui me sinto em casa”, afirmou com o sotaque característico, mas em português fluído, o suficiente para ser compreendido sem dificuldade e ainda com o charme e a narrativa de quem passeia pelas palavras relaxado e confortável.

Ao editor de Afropress, jornalista Dojival Vieira, “Chuck”, que já foi entrevistado pelo nosso correspondente em Nova York, Edson Cadette, em resposta a uma pergunta falou sobre as similaridades e pontos de contato entre Argel, Nova York, e S. Paulo. E respondeu porque os EUA conseguiu eleger um negro para ocupar a Casa Branca por duas vezes, e não conseguiu ainda expurgar o racismo do sistema de Justiça, como se pode ver na recente absolvição de George Zimmerman, o assassino confesso do adolescente Trayvon Martin, em fevereiro de 2012, e que desencadeou uma onda de manifestações em mais de 100 cidades americanas.

“Eu sou um dos muitos que acham que a eleição do Obama, de fato, foi uma coisa importante em termos de referência. Como imagem ele é o presidente dos EUA. Mas, sabemos, não é livre para fazer qualquer coisa”, afirma.

Por outro lado, para "Chuck", Obama é alvo dos setores que ainda não assimilaram o fato de os EUA terem um negro na Casa Branca. “O tratamento que ele recebe é claramente racista. Não estão acostumados a reverenciar uma pessoa negra naquela posição”, assinala.

Segundo "Chuck" as próprias origens de Obama são a expressão de contradições do sistema norte-americano de poder. “Eu acho que ele recebeu muito mais apoio por ter tido uma mãe branca. Se a mãe dele fosse negra, acho que não teria ganhado”, conclui.

No final, em meio a uma breve jam session de jazz, no melhor estilo novaiorquino, Chuck autografou seu mais recente trabalho “Bacause of Algiers” (Por causa de Argel, na tradução livre para o português). No domingo ele retorna a Nova York.

– E quando volta ao Brasil?

– Ah, não sei. Nem tinha previsão de vir desta vez e acabei vindo”.

Tudo simples, relaxado, confortável, “cool” como diriam os novaiorquinos. Como a fotografia de “Chuck”.

Confira a entrevista de Charles "Chuck" Martin a Edson Cadette, correspondente de Afropress em Nova York.

http://www.youtube.com/watch?v=7dBACLJeR4s

Da Redação