“Se estivessem a serviço do bem – ensina Lobo – poderiam utilizar a sua fértil imaginação para trabalhar em torno de uma agenda positiva que resultasse em proveito da causa que dizem defender”.
Da fala, transformada em comunicado oficial, duas conclusões inevitáveis: além de ignorar o que sejam e para que servem políticas de ação afirmativa – no que expõe sua incompetência porque desde 2003 o Estado dispõe de um Plano de Ações Afirmativas, mantido em alguma gaveta do Palácio, apenas para efeito de marketing – o secretário divide o mundo e as pessoas em dois tipos: os que estão a serviço do bem (naturalmente os que concordam com ele) e os que não estão a serviço do bem – no caso, nós, e os conselheiros que dele discordam, o que dá uma idéia de como ignorância, incompetência e tosquice caminham, neste caso, de braços dados.
Sim, porque o argumento do secretário é tosco demais, primário mesmo, intelectualmente indigente. É patético que um Secretário de um Estado como S. Paulo se paute por tamanho maniqueísmo em pleno Estado democrático de Direito. E mais ainda quando se trata de um dirigente partidário de um partido democrático: Lobo é,nada mais nada menos, que o presidente do diretório municipal do PSDB paulistano.
Fosse na ditadura, nós – identificados por ele, como o mal – muito provavelmente teríamos o destino que tiveram muitos dos opositores do regime: as prisões, a tortura, a morte, os desaparecimentos. Como já não vivemos essa longa noite, e conquistamos a Democracia – inclusive para que esse senhor ocupe altos cargos na administração pública, regiamente pago, e muito bem pago, com dinheiro do contribuinte – nos restará certamente as perseguições surdas, as portas fechadas, o estigma de indesejáveis, as tentativas de intimidação.
Nada disso, contudo, nos assusta ou amedronta. Não temos vocação para serviçais de palácios. Nem truculência é sinônimo de força.
Não se sabe, ademais, onde Lobo foi buscar autoridade para distribuir lições, de como devem se comportar os meios de informação numa sociedade, em que a comunicação e a informação são direitos humanos fundamentais constitucionalmente garantidos. Tampouco, o que faz um Secretário de Estado do alto do seu poder transformar em alvos de sua ira, conselheiros e um instrumento como a Afropress, mantida pela dedicação e trabalho voluntário de umas poucas pessoas, que transformaram a causa do combate ao racismo e a luta pela igualdade e cidadania plenas, no Brasil, em meta, e a informação em instrumento para alcançá-las.
Ao contrário da extraordinária máquina de propaganda mantida pelo Governo de S. Paulo, cujos gastos, este ano, pularam de R$ 2,35 milhões para R$ 17,16 milhões – um acréscimo de 630% – a Afropress não se mantém com recursos públicos, mas graças ao trabalho voluntário de sua Redação e colaboradores. Somos um estilingue combatendo bazucas. Nossa diferença é que um estilingue numa boa e justa causa, desde templos bíblicos, pode valer mais do que bazucas.
Autoritarismo à parte, as declarações do secretário dispensam traduções. Na falta de argumentos, para comprovar a suposta “defesa intransigente dos direitos dos discriminados e dos marginalizados”, ele recorre ao testemunho de amigos do peito.
E cita Hélio Santos, Maria Aparecida de Laia, entre outros – não se sabe, se com ou sem autorização dos citados. Quanto à Laia, publicamente saiu em sua defesa. Hélio Santos, por ora, mantém um silêncio constrangido e útil.
Subserviência cega
Mas, o mais grave do episódio e da patética reunião do Conselho da Comunidade Negra, foi a revelação de até que ponto vai a subserviência transformada em postura política, e a transformação da causa da igualdade e o combate ao racismo em ponto de negociação da agenda de partidos e de governos.
No primeiro caso, Elisa Lucas, que sempre foi figura política menor no tucanato negro, se superou. Nos dias que antecederam a reunião alegou uma crise de hipertensão para sair de cena, e passou a alimentar o próprio Lobo, de quem é subordinada, utilizando-se das matérias sobre a crise provocada pelas desastradas declarações do chefe de que ações afirmativas só em 500 anos.
Pressionada a falar, escondeu-se, e, ao fazê-lo, foi para dizer a quem serve e qual o papel que ocupa na história: a de porta-voz de recados no imaginário (porém, muito real, para alguns) circuito Casa Grande/Senzala. Esqueceu-se de que estamos em plena República, no século XXI, e que a senzala – afortunadamente – desapareceu da História e da cena brasileira no dia 13 de maio de 1.888 – há 121 anos, portanto.
Como se não bastasse, tentou inibir conselheiros constrangendo a sua independência, ao montar um aparato tecnológico na reunião, com gravadores e aparelhagem de som, adiantando-se aos presentes que “estava gravando”, conforme depoimento da professora Silvany Euclênio, postado nesta Afropress.
Na ditadura, os mais velhos lembram, de como se tornaram tristemente célebres os bate-paus do Dops – o Departamento de Ordem Política e Social do regime -, os agentes encarregados de filmar e gravar as reuniões para levar aos seus superiores as falas de opositores.
Elisa, entretanto, não está só. Sem representatividade alguma e com um mandato a que se autoconcedeu até 2.011, escolhida por conselheiros indicados a dedo por ela própria – numa estranha coligação de tucanos com petistas de segundo escalão – ela só continua a cumprir o triste papel a que se reservou, porque se beneficia dessa estratégia nefasta de partidos políticos de usarem a causa por políticas públicas para os 47,9% de afro-brasileiros como pontos de negociação de sua agenda política.
Laços servis
No caso do Conselho de S. Paulo, o grave é que esta aliança mantém concretamente esses laços servis. É o que o ativista Ras Adauto chama, em comentário postado nesta Afropress, de “herança maldita”, herdada do período colonial, uma relação de subordinação permanente, a permanência da senzala como o lugar do negro para sempre.”
“Tomara que as gerações futuras de negros e negras possam estar livres desse teatro absurdo (…) Para que isso aconteça é preciso coragem e determinação em nossas ações e fatos. O Brasil está precisando dessa lição radical, que nós podemos dar a esse país, para termos realmente igualdades de direitos e não essa farsa política que estamos assistindo em todas as esferas políticas do país. Nosso futuro está em jogo. E mais tarde seremos cobrados por nossa falta de coragem e nosso arremedo de democracia. Temos um compromisso com a nossa História e nossos ancestrais. Fora disso é nada, subordinação, bico calado e migalhas da Casa Grande”, diz Adauto.
Nessa mesma direção vai o ex-conselheiro Paulo César Pereira de Oliveira, que há dois anos vinha alertando e denunciando o papel do tal Conselho e que, num gesto de dignidade política, renunciou recusando-se ao “papel de vaquinha de presépio”.
“A leitura que o Movimento Negro deve fazer na atual conjuntura é de que basta coragem, postura político-ideológica e compromisso com o combate ao racismo e a discriminação para abalar as estruturas de poder. Realmente, nós não somos herdeiros da falsa elegância eurocêntrica, usada como símbolo de civilização para exterminar os povos não brancos. Como disse um poeta francês “A África foi civilizada com pólvora”. Essa elegância que esconde e escamoteia o racismo incrustado dentro de si e promove a discriminação e perpetua a exclusão da maioria da população, os afrodescendentes, nada tem a ver conosco. Sabemos que o Senhor Secretário está acostumado a lidar com negros domesticados, e por isso sentiu-se agredido com a nossa postura”, completa o agora ex-conselheiro.
A lição do que acontece em S. Paulo é que nada temos a ver com esse movimento negro herdeiro das piores tradições e das relações da Senzala com a Casa Grande; nada temos a ver com os amigos do rei, animadores de festas e de atos em palácio; nada temos a ver com a subserviência sabuja; nada temos a ver com os acordos costurados entre correntes de partidos políticos, que transformam nossas reivindicações em objetos de barganhas; nada temos a ver com esse movimento negro transformado em lobbie inútil; útil apenas para que seus protagonistas se coloquem em melhor posição para apanhar – nos puxadinhos que servilmente ocupam – as migalhas que caem da mesa da Casa Grande.
Coragem, determinação e altivez é o mínimo que se exige de quem se propõe a representar a nossa Causa e a honrar a história de fogo e sangue escrita pelos nossos ancestrais. Os que se acomodaram às posições de serviçais de palácios serão cobertos de vergonha. E a eles viraremos às costas.