Inicialmente levantadas pelo então presidente do Instituto de Advocacia Racial e Ambiental do Rio, advogado Humberto Adami (hoje Ouvidor da Seppir), as denúncias foram, de pronto, recepcionadas pelo Ministério Público Federal do Trabalho.
O promotor Otávio Brito Lopes – hoje o procurador geral do MPFT – diante da denúncia, entrou com ações civis públicas contra os maiores bancos, inicialmente apenas os de Brasília. O promotor pediu indenização de R$ 30 milhões ao Bradesco, Itaú, ABN-Amro Real, HSBC e Unibanco por danos morais coletivos.
Nas Ações, o Ministério Público afirmava que, ao cruzar dados sobre a População Economicamente Ativa do DF e as informações sobre o quadro de pessoal fornecido pelas instituições financeiras, ficava demonstrado que o número de negros e mulheres empregados não correspondia à oferta de mão-de-obra, o que caracterizava a discriminação.
Pressionados pelo MPFT, os bancos reagiram, e aqui começa a nebulosa história que resultou não em condenações (todas as ações foram rejeitadas pela Justiça de Brasília), mas na atual desavergonhada campanha de marketing desenvolvida pela Febraban diante da cumplicidade generalizada e do silêncio que não é o dos inocentes.
A estratégia dos banqueiros foi certeira. Primeiro, mobilizaram o seu lobby no Congresso e, por meio da Comissão de Direitos Humanos e Minorias, articularam audiências públicas, com a presença de lideranças negras.
Nessas audiências, comprometeram-se a adotar medidas, traduzidas em um Mapa da Diversidade, lançado com pompa e circunstância em um hotel de luxo da região dos jardins, em S. Paulo, com a presença do próprio presidente da Febraban,o banqueiro Fábio Barbosa, do Santander.
Para dar credibilidade a iniciativa, a Febraban contratou o CEERT – Centro de Estudos das Relações do Trabalho e Desigualdades – dirigido pela professora Cida Bento, conhecida especialista em políticas de diversidade que, durante meses movimentou uma equipe de técnicos e especialistas. O trabalho ficou pronto no final do ano passado e apenas confirmou a descarada e escancarada política de discriminação (veja matéria https://www.afropress.com/noticiasLer.asp?id=2041).
Embora a escolaridade entre negros e brancos sejam equivalentes nos níveis superior e pós – 83% e 83,6% , respectivamente -, funcionários negros recebem apenas 64,2% dos brancos e os pardos 67,6%, dado que equivale a uma confissão da prática de discriminação contra negros na política de recrutamento de pessoal.
Diante disso, o que se esperava? Que as lideranças negras, parlamentares, MPFT e opinião pública, exigissem medidas efetivas para por fim ao escândalo – um caso de discriminação em que os próprios autores confessam o crime.
Nos Estados Unidos, diante da comprovação de que seis empresas de construção, pagavam salários menores de acordo com a cor, etnia e país de origem em relação funcionários brancos de origem irlandesa, o procurador Andrew Cuomo, de Nova York, não teve dúvidas: abriu processo em que cobra US$ 4 milhões das empresas pela prática de discriminação.
Deste lado dos trópicos, na terra da democracia racial, contudo, empresas – inclusive bancos – podem confessar que praticam tais crimes, sem o risco de irem parar nos tribunais. Melhor ainda:tem grandes chances de ainda serem aplaudidas por lideranças negras – boa parte das quais, outrora denunciantes – como aconteceu nas duas audiências da promovidas pela Febraban na Câmara e no Senado.
O silêncio, neste caso, é ensurdecedor. O Ministério Público Federal do Trabalho, que depois de ver rejeitadas as ações em primeira instância, não tocou mais no assunto; as lideranças negras, que outrora faziam grande alarido, passaram a fazer parte do seleto grupo agora convocado para as audiências da Febraban, em que os banqueiros, em relatórios cheios de imagens, cores e gráficos, simplesmente confessam a descarada política de discriminação e ainda fazem marketing, declarando, por meio de seu representante, que “resultados consistentes só em três a cinco anos”.
É demais.