Ela, diferentemente de todos os dias, quando vai buscá-lo, quis “puxar conversa” com outras mães na tentativa de fazer o tempo passar mais rápido. Comentaram a expectativa de ver as crianças recitando, contaram peripécias de seus filhos, que em geral, interessam apenas a elas mesmas, falarams do tempo etc. Enfim, dessas coisas possíveis de serem ditas nesses breves encontros em que não deseja-se estabelecer relações duradouras. E, assim, o que era apenas um grupo pequeno de pais/mães tornou-se um público de umas cinqüenta pessoas, barulhentas e apressadas. Finalmente, às 17:25, os portões se abriram e todos puderam sentar à espera dos poetinhas. Aos poucos, eles foram chegando, mais barulhentos e apressados que seus pais. Cheios de expectativas também.
Cada poetinha percorria o público à procura da “sua” pessoa mais importante. Quando encontrada, era sorriso. Sabedora disso, a senhora – que já esteve do outro lado como professora -, sentou-se bem à frente. O seu poetinha quando a encontrou, sorriu. Um sorriso largo, daqueles que fazem aparecer em seu rosto, duas “covinhas” que levam todos ao comentário: ” Como ele é lindo!”.
Começa a apresentação. Concentração total dos pais. Uma apresentação após a outra despertava em todos um misto de prazer e orgulho: Cecília Meireles, Vinicíus de Moraes, José Paulo Paes, entre outros, percorriam os lábios daquela gente pequena. A senhora estava enlevada, muito feliz, até que um dos grupos apresentou a poesia de Vinícius “A Porta”. Não há nada errado com o poema. Ele é melódico e bem humorado. Mas ….o que a senhora que era negra assistiu quebrou o enncato daquele momento.
Havia nesse grupo de crianças uma única menina negra de nome Luara, aliás a única menina negra de toda a escola. Começaram: “- Eu abro devagarinho, Pra passar o menininho. E veio um menino. Todos riram das caras engraçadas que faziam ao interpretarem os personagens do poema. Estava divertido. Em seguida: “Eu abro bem com cuidado, Pra passar o namorado.” Agora era a vez de uma menina loira de cabelos cacheados. Ela, menina, representava o namorado. “Eu abro bem prazenteira, Pra passar a cozinheira.” E quem vem? Se você pensou na menina negra de nome poético, acertou. Ela foi “escolhida” para representar a cozinheira. A cozinheira? Entre tantas crianças, meninos e meninas? A menina negra é a cozinheira…Coincidência? Talvez ?
Mas ao saber dessa história fiquei com vontade de recitar em alto e bom som…
” Eu fecho o quarto do racismo, Fecho a casa do preconceito, Fecho tudo no mundo , que maltrada o povo negro. Só vou abrir o portão, prá sair toda a discriminação!”

Lucimar Rosa Dias