O Festival, que terminou no final do mês passado, também tem a participação do Balé Folclórico da Bahia, e da orquestra “Mombaça e Banda” e, além do Brasil, contou com atrações do Benin, Gana e Costa do Marfim.
Com 64 anos, Janú, como é mais conhecido pelos amigos, já fez capas de disco de artistas como Tom Jobim, Caetano Veloso, Chico Buarque, Fagner, Belchior, Fafá de Belém, Raul Seixas, Edu Lobo e Leci Brandão. No fotojornalismo atuou como freelancer em jornais como O Globo, Jornal do Brasil, O Dia, A Tribuna, Manchete, Fatos & Fotos e Revista da Unesco.
De Lomé, ele concedeu, por e-mail, a entrevista à Afropress. “Aqui é muito difícil trabalhar com a Intenet; a luz cai toda hora. Comecei a fazer esse trabalho às 2 da tarde; nesse período a luz caiu cinco vezes”, comentou.
Afropress – Como foi a exposição sobre a Diáspora no Togo? Quem promoveu e qual a repercussão na mídia local?
Januário Garcia – A exposição foi muito bem, basta dizer que ela está sendo reprogramada para visitar diversas cidades do Togo. Teve a mesma aceitação na Nigéria. Existe um traço comum, e que muitas pessoas encontram nas fotos traços idênticos a parentes e amigos.
Foi promovida pela ACOFIN – que é uma Associação de Salvaguardas do Patrimônio Cultural Africano; é uma organização muito poderosa no seu campo de trabalho no continente africano. A A ACOFIN promoveu o 2° Festival de Divindades Negras – De Volta às Raizes Brasileiras . Além do Togo e Brasil participaram Gana, Benim e Costa do Marfim. A maioria dos palestrantes acompanhando os dirigentes da ACOFIN disseram, em várias palestras realizadas, que a essência da cultura africana está no Brasil, por isso fazem esse retorno. A repercussão foi muito grande não só na mídia local como nos demais paises de língua francesa. A rádio internacional francesa montou um estúdio aqui e transmitia ao vivo para França e demais países.
Afropress – Qual a percepção que a África, no caso o Togo, tem hoje do Brasil e do Movimento Negro Brasileiro? Como você vê a importância dessa experiência de intercâmbio?
Janú – O Festival foi realizado no cidade de Aného, antiga cidade de Anejô, de onde saíram os africanos das etnias Ewe e Mina para o Brasil. Tive oportunidade de conversar com o Rei Togbe Ahuawoto Zankli Laxson VIII, que pertence a uma dinastia que está no poder desde 1620. Pude ouvir algumas histórias sobre esses embarques. Para nós brasileiros foi um retorno a essência da raiz, aqui chegamos com a religiosidade das Ialorixás da Bahia, a dança através do Balé Folclórico da Bahia, a música, através do cantor e compositor Mombaça, e a imagem através da mostra de fotografia, foi um reencontro da ancestralidade africana brasileira e africanos do Togo, Benin, Gana e Costa do Marfim.
Afropress – Como militante do Movimento Negro há muitos anos, como você está acompanhando a mobilização pela aprovação do Estatuto, PL 73/99 e PEC 02/06, encabeçada pelo Fórum SP da Igualdade Racial?
Janú – Mais uma tentativa de avançar, mas entramos em campo com o time dividido e isso se deve ao processo do movimento negro ser antropofágico; qualquer tentativa de avanço pode representar perigo para alguns setores, eu não me refiro ao momento atual, mas sim ao longo da história recente do MN.
Existe um dado que é muito importante, muitos de nossas questões são inseridas nos governos e não no Estado. Ocorre que o governo é passageiro e o Estado é permanente; s não criarmos leis para inserí-las no Estado nós negros nunca poderemos exigir nada porque todos são iguais perante a lei e você só pode acionar o Estado quando você tem uma lei, e pode, portanto, exigir que cumpra-se a lei. Ok!, há leis que pegam e outras que não pegam, para pegar só depende de nós.
Afropress – Qual a sua posição?
Janú – A questão do Estatuto e da Pec não são assuntos para serem vistos somente do ponto de vista do Movimento Negro. Temos que pensar em termos mais amplos, hoje a população brasileira já atingiu 190 milhões, no barato somos 50% – 85 milhões, eu acho que o MN não é 1% dessa massa brasileira. Não se pode discutir essas coisas em termos tão reduzidos, mas, sim, como projeto de Nação. Até hoje nunca mostramos ao Brasil um projeto da Nação que nós queremos do ponto de vista da economia, finanças, ciência e tecnologia, saúde, educação, cultura, desenvolvimento, meio ambiente, relações interncionais, política partidária e sistema de governo, e politicas anti-racistas. Nunca fomos capazes de fazer isso e perdemos Milton Santos, Lélia Gonzalez, Hamilton Cardoso, Beatriz Nasimento e outros.
Afropress – Quando pretende vir a São Paulo trazer a mesma exposição. Tem idéia de fazê-la pelo Brasil?
Janú – A Exposiçao “Diásporas Africanas na América do Sul – Uma Ponte Sobre o Atlântico”, é feita à duas mãos, eu fazendo a parte iconográfica, e Júlio César Tavares fazendo a parte antropológica que resultaráem um livro. Nosso trabalho começou fazendo uma carreira internacional. Ela foi participar do Encontro de Cúpula da AFRAS, uma organização que reúne países africanos e da América do Sul, e tambem foi inaugurar a nova Embaixada do Brasil na Nigéria. Ela deve começar a carreira dela no Brasil através do CCBB de Brasilia e vai percorrer vários Estados.
Afropress – Faça as considerações que julgar pertinentes.
Janú – Para finalizar, depois de atuar por muitos anos na base do Movimento Negro de rua (porque é na rua que a gente sensibiliza muito mais os segmentos da sociedade, muito mais do que a Internet), eu estou voltado para trabalhar essa Diáspora africana e hoje no meu arquivo tenho fotos de negros na Argentina, Peru; Colombia, Uruguai, Suriname, França, Estados Unidos, Espanha, Israel, Portugal, Ucrânia e tambem fazendo fotos dos africanos para mostrar no Brasil.
Devo dizer, e muitos já viram e sabem disso, eu continuo nas ruas fazendo minha militância, mas hoje com grandes painéis fotográficos mostrando nossas coisas, um fato ocorre:formam-se grupos diversos de negros e brancos para discutir a questao racial.

Januário Garcia, em entrevista ao Editor de Afropress, direto de Lomé, capital do Togo.