Somos aproximadamente 62 milhões os (as) eleitores (as) pretos (as) e pardos (as), portanto, negros(as), num colégio de 125 milhões aptos a votar nas eleições deste domingo. Sendo metade autodeclarada do país, as eleições deveriam representar para nós a oportunidade de fazer mudanças profundas para reverter a situação histórica de desvantagem.

 

O voto negro poderia fazer governadores, bancadas imensas de deputados e senadores e eleger o próprio presidente da República, forçar os governantes a implementar políticas públicas verdadeiramente afirmativas, com caráter reparatório, em todas as áreas. Nenhum dos (as) candidatos (as) pode ignorar a histórica desvantagem que vem se acumulando e crescendo como uma bola de neve desde o dia 14 de maio de 1888 – o day after pós-abolição, uma abolição que nunca se deu no plano material, pois ficou na forma.

Quase 120 após, empregados negros ganham menos que os brancos – até 50% menos, dependendo da região do Brasil; negros têm 2,2 anos a menos de escolaridade média do que os brancos, desde 1.929, segundo estudo do IPEA; a indigência é 70% negra, embora representemos 45,6% da população; o analfabetismo é maior entre negros que entre brancos, quadro que se mantém inalterado apesar da redução do analfabetismo em ambos os grupos; o esgoto e a água tratada vão menos a lares negros do que a lares brancos; apenas 2% dos negros chegam a Universidade pública; a expectativa de vida para os negros segue sendo, em média, seis anos menor que os brancos.

Todos conhecem esses números, pelos quais passam ao largo, comodamente. A situação de desvantagem se expressa na ausência dos negros nos postos de comando do país. O professor José Jorge de Carvalho, no seu livro “A Inclusão Étnica e Racial no Brasil – A questão das Cotas no Ensino Superior”, revela o tamanho do descompasso. – Dos 620 procuradores da República, apenas sete são negros – 98,6% brancos; – No Poder Judiciário, dos 77 ministros dos quatro tribunais superiores, há apenas 2 negros – um no Tribunal Superior do Trabalho e um no Supremo Tribunal Federal; – De acordo com a Associação dos Juízes Federais, dos 970 juízes, o número de negros é menor que 5%; – No Supremo Tribunal de Justiça, há 33 ministros, todos indicados pelo Governo, todos brancos; – No Ministério Público do Trabalho, de 465 procuradores apenas sete são negros – 98% brancos; – Na Câmara Federal, há 513 deputados, dos quais 20 são negros – 96% brancos; – No Senado Federal, apenas 2 dos 81 senadores são negros – 97% brancos; – No Itamaraty entre os 1000 diplomatas, menos de 10 deles são negros – 99% brancos – Entre os professores universitários da rede das 53 universidades federais, 99% são brancos.

Se alguém ainda tem dúvida sobre o tamanho do apartheid, aí estão os números. As eleições deste domingo poderiam representar o momento de um ajuste de contas com a iniqüidade quantificada, no quadro desta frágil democracia que temos e do imperfeito e sofrível sistema político que nos reservaram.

Entretanto, não temos ilusão de que isso vá ocorrer. A despeito do avanço da consciência, nós negros ainda não superamos históricas dificuldades. A dispersão, a fragmentação, a divisão e a cultura do “farinha pouca, meu pirão primeiro”, continuam pontificando. O sistema racista se estruturou de forma tão engenhosa que, em eleições em que somos metade do eleitorado, não conseguimos ainda contar com lideranças capazes de superar preconceitos, vaidades, o infernal “show de egos” que vem sendo a regra, e dar respostas unificadas para os mesmos e conhecidos problemas.

Divididos em partidos, na Academia, em espaços simbólicos, a maioria é acometida por uma espécie de “autismo social”, cortando laços, interrompendo vínculos com as origens comuns. Não fosse isso, a solidariedade entre irmãos e irmãs negros saberia como se expressar. Mas, todos sabemos, dividir para reinar sempre foi a máxima dos sistemas de exploração e opressão. Eis o que temos. Daí que, em um momento em que aumenta a consciência do fosso de desigualdade racial existente no país, atravessamos a campanha eleitoral sem que o tema freqüentasse a agenda dos partidos e candidatos.

Há um Estatuto da Igualdade Racial e um PL 73/99, que criam Ações Afirmativas e Cotas, e o distinto eleitorado não conseguiu sequer ficar sabendo qual é a posição dos candidatos a Presidência sobre essas matérias, fundamentais para a população negra do país. Todos os candidatos, de todos os partidos – da esquerda à direita – fingiram-se de mortos.

Ninguém ficou sabendo de Lula, Alckmin, Heloisa Helena, e Cristovam, qual é a sua real posição, em relação ao tema central que nos interessa. Mesmo assim, o povo negro vai às urnas nestas eleições e pode fazer as escolhas menos piores, desde que vote e se prepare para fiscalizar e cobrar os compromissos do eleito a partir desta segunda-feira. Mesmo porque, as eleições terminam às 17h, já o edifício do apartheid cordial, este, com toda certeza continuará, ainda por muito tempo.

Até que o coloquemos abaixo!

Editorial