Todos os telejornais (Globo, Bandeirantes, Record, Cultura, SBT), deram com destaque a movimentação da massa humana que, por quatro horas percorreu do vão do MASP na Paulista ao Parque do Ibirapuera, pela Brigadeiro Luiz Antonio.
Militantes de longa data, ativistas mais jovens, negros e não negros mobilizados pelo Movimento Brasil Afirmativo e por entidades como a Unegro, CONEN, MNU se juntaram na Parada Negra e na III Marcha da Consciência para dizer um “Não” enfático ao racismo e exigir Ações Afirmativas e Cotas, e a identificação e punição dos bandidos que atacam lideranças negras, o fim do genocídio que atinge a juventude. Durante todo o percurso – acompanhado respeitosa e solidariamente por centenas de pessoas de todas as cores e etnias – não houve um único incidente.
As vozes de sacerdotes e sacerdotisas das religiões de matriz africana se juntaram a outras vozes de todas as religiões. Os mais velhos levaram seus filhos e netos; a Paulista – o coração financeiro do país – ouviu que não aceitamos mais viver em um Brasil com discriminação racial, em que homens negros ganham cerca da metade do salário de homens não negros, segundo órgãos oficiais como a Fundação Seade.
Passada a euforia, chegou a hora de aprender com as lições que a Parada deixou, e a primeira delas é para as lideranças, verdadeiras ou autodenominadas. É só exercitar o diálogo respeitoso que as soluções aparecem; é só não sabotar o esforço dos que verdadeiramente querem o diálogo, que temos, sim, capacidade de construir uma agenda de unidade, capaz de liderar o povo negro e fazer com que ele se assuma como força social e política transformadora.
Aliás, líderes existem exatamente para isso. Liderança exige paciência, determinação, ousadia, sabedoria. Não é para quem quer. É para quem sabe. Há um outro dado que convém lembrar: lideranças são necessárias, acrescentamos: cada vez mais necessárias. Não basta acreditar que as “entidades” assim mesmo genericamente colocadas podem substituí-las. Na hora da decisão, são pessoas que decidem e elas tem nome, sobrenome, história etc.
Antes que algum apressado aponte o dedo para vislumbrar voluntarismo, messianismo, ou qualquer outro “ismo” na afirmação, convém antecipar: lideranças se constroem quanto maiores (ou melhores), quanto maior for sua sintonia com o coração do povo e dos setores que defende, com as Causas que representa. Não se constrói líderes em estruturas burocráticas – território de chefes e chefetes que vão se sucedendo sob o controle de organizações verticalmente hierarquizadas. Líderes não são chefes: chefes mandam; líderes comandam.
Neste sentido, cabe às lideranças do Movimento Social Negro paulista assumirem suas responsabilidades, a começar pela avaliação da manifestação. Indispensável que se deixe de lado o supérfluo, o secundário – se foi Marcha ou foi Parada, por exemplo. Quem é líder – qualquer que seja o campo político em que atua – sabe que essa é uma discussão bizantina; é como discutir “se os anjos têm sexo”, ou coisas desse tipo.
Parada ou Marcha, não é o que importa. O que, de fato, importa é que o povo negro e outros milhares de pessoas estavam nas ruas, numa segunda feira em que a cidade estava vazia pelo feriado prolongado. Com um detalhe: não foram atraídas por artistas nem por celebridades; foram porque queriam ir, e sabiam, ou intuíam, a justeza da Causa.
Nós, da Afropress, que nos orgulhamos de ter assumido desde a primeira hora a mobilização pela Parada Negra, seguimos acreditando que o espírito da Parada é mais compatível para uma manifestação negra e anti-racista; é mais agregador, aglutina gente de diferentes segmentos da sociedade comprometidos com o anti-racismo; é mais afirmativo.
Não se trata apenas de marketing, há um sentido político no conceito Parada Negra, que é mais amplo do que Marcha. Usa-se o conceito Marcha para um evento determinado, com um sentido determinado. Por exemplo: a Marcha de um milhão de homens sobre Washington, a Marcha Zumbi + 10. Fora disso, o uso recorrente acaba reduzindo sua dimensão pela força do desgaste, esvaziando-lhe o sentido.
A Parada Negra veio pra ficar. E não apenas porque a mídia inteira a encampou. Nada acontece por geração espontânea. A mídia abriu espaço para a Parada porque houve um trabalho competente de assessoria; jornalistas foram atendidos com respeito; a eles foram passadas informações qualificadas. A imprensa brasileira que, secularmente, tratou a questão racial com desdém (quando viu, porque o padrão foi a invisibilidade), abriu-se para a Parada não apenas com quatro fotos na primeira página como a “Folha”, mas por meio de matérias em que mostrou seu lado humano e a justeza das nossas reivindicações.
A segunda lição é para certos setores do ativismo, que continuam confundindo seriedade e compromisso com a luta anti-racista com “tempo de casa”. Alguns chegam a estufar o peito: “tenho 38 anos de Movimento Negro”. Perguntamos: e daí? Desde quando antiguidade virou posto?
Todos os negros e negras deste país, têm de militante o mesmo tempo que têm de vida. Nascemos todos em uma sociedade racista; sofremos desde que nos entendemos como gente, com as seqüelas com que o racismo impregna e contamina as relações sociais, econômicas, políticas e culturais. Sofremos as conseqüências da desvantagem que carregamos pelos 350 anos de escravismo e mais os 118 de racismo pós-abolição.
Ser do Movimento Negro não é “grife”. Não se mede conseqüência, seriedade, compromisso, por “tempo de casa”. Quem assim pensa e age, na verdade, se apega ao mais descarado corporativismo que, invariavelmente, é o outro nome do conservadorismo mais empedernido também em relação à questão racial. Mude-se tudo para que tudo continue como está, é a outra tradução desse discurso.
E por fim, a terceira e última lição, é para os nossos mestres e doutores. Temos nomes de excelência em todas as áreas do conhecimento. Todos muito respeitáveis, todos exemplos do quanto poderíamos ser mais na Academia, se oportunidades tivessem havido para todos.
O conhecimento que produzem é fundamental para as novas gerações. O fenômeno do racismo hoje está dissecado; a mentira da democracia racial também; os dados e indicadores produzidos pelos institutos de pesquisa mais respeitáveis escancaram que há algo de errado com uma democracia que nos nega e com uma República que nos vira as costas.
Entretanto, os milhares de militantes e ativistas da Causa anti-racista presentes à Parada Negra disseram uma outra coisa, de uma forma nada sutil e com todas as forças: a nós só interessa, só nos é útil e necessário, o conhecimento que leva à ação. Melhor dizendo: estamos fartos de interpretar a sociedade profundamente discriminatória e o racismo, como se manifesta e os males que nos causa; chegou a hora de colocar abaixo este edifício de iniqüidades.