Vejamos:
a) Obama fez, durante a campanha, um discurso que os analistas chamaram de “pós-racial”, ou seja, a raça não se constituiu em momento algum elemento central da estratégia de sua campanha, ainda que o candidato – por razões mais que óbvias – jamais tenha renegado à sua condição de afro-americano e as suas origens paternas africanas.
Mais do que isso: a prudência o fez afastar-se do pastor Jeremiah Wright e do próprio reverendo Jesse Jackson, reconhecido líder do movimento dos direitos civis, candidato a candidato à Presidência por duas vezes, que se manteve em posição discreta em toda a campanha. Ambos, Wright e Jackson, expoentes da visão clássica da militância negra, nos tempos duros do movimento dos direitos civis.
No Brasil, o discurso “pós-racial” de Obama não faria o menor sucesso e não teria o menor ibope, pelo menos entre os nossos auto-proclamados líderes, porque para a maioria deles, a raça continua constituindo a razão de ser do movimento e alguns vão além e flertam abertamente com a idéia de um Brasil bi-racial, ou seja: nosso papel seria superar a supremacia branca para afirmar a supremacia negra, o que é mais do que um equívoco político: é uma estupidez que nos botaria às portas da barbárie fratricida.
A estratégia de combate ao racismo, para esses ditos líderes, passa necessariamente pela afirmação da raça, porém, mais do que isso: o enfrentamento e a superação dessa chaga social, é um problema dos negros. Ou seja: não há estratégia.
Cogitar a formação de um movimento amplo, aberto aos brancos progressistas não racistas, protagonista de uma mudança de paradigmas na sociedade, capaz de superar as chagas geradas pelo escravismo e pelo racismo pós-abolição, nem pensar. Soa herético, para esse tipo de líder, repetimos.
Se alguém tem alguma dúvida, tente tratar desse tema e ouvirá, além dos impropérios variados, o insulto de que isso só pode ser “coisa de branco” para prejudicar o Movimento. A miopia por aqui chega ao nível de pessoas brancas e anti-racistas se sentirem desconfortáveis toda vez que “penetram” em reuniões ou quaisquer outros tipos de eventos, convidadas ou não. Quem já presenciou cenas constrangedoras – para negros e para brancos – de brancos em reuniões do Movimento Negro, sabe muito bem do que falamos. Óbvio que essa não é a posição da maioria dos negros brasileiros, mas, é sim, o comportamento padrão de boa parte de uma certa liderança estrábica e defensora da pureza racial, que ainda pretende falar por nós negros em fóruns e congressos.
Obama, ao contrário, é afro-americano, nunca negou essa condição, se orgulha dela, porém, tem a capacidade de falar para todos, falar para o povo americano. Não existe uma América branca e uma América negra, existem os Estados Unidos da América, disse mais de uma vez.
Seu discurso foi dirigido a todos os americanos, independente da cor da pele, e sua vitória, para além da crise econômica mundial e do desastre do governo Bush, se tornou possível precisamente por essa capacidade e esse talento.
Os negros norte-americanos são apenas 13,8% da população e representam só 13% do eleitorado, no qual Obama obteve 95% dos votos. Fato extraordinário, registre-se, e muito distante do que se daria entre nós, em que negros não votam em negros como ficou demonstrado nas últimas eleições municipais e com o decréscimo da bancada negra no Congresso Nacional. Nos EUA, mesmo sem tornar a questão racial sua plataforma, Obama teve quase 100% dos votos dos negros.
b) Obama tornou-se um líder comunitário, logo cedo, e depois entrou no Partido Democrata, disposto a ocupar o seu lugar.
Por aqui, os negros entram nos partidos para ocuparem o clássico puxadinho, que a elite racista reserva aos que mais se destacam. Esses puxadinhos estão no Estado, nas várias esferas, na Academia e nos Partidos, que praticam, a exemplo das demais instituições, racismo institucional aberto e isso não é segredo prá ninguém.
Para os mais conservadores, não passamos de um elemento da cultura, presença folclórica; para os mais à esquerda, massa de manobra para atrair votos no grosso da população, majoritariamente pobre e negra, porque a questão central, para os mesmos, é a questão de classe.
Os mais brilhantes tem espaço reservado nos puxadinhos e, em troca, oferecem o silêncio, que não é o dos inocentes – ao contrário: é dos que não tem inocência alguma, porque há sempre compensação para os que aceitam o papel subalterno. Dessa visão torta, chega-se a inúmeros equívocos.
Se Obama tivesse se contentado com o espaço do puxadinho, muito provavelmente, seria ministro da igualdade racial de qualquer governo republicano, do tipo McCain ou mesmo Bush.
Aqui, sem líderes com estatura política, sem projeto político e submetidos a estratégia da inclusão subalterna patrocinada pelos beneficiários do racismo e da discriminação, os nossos auto-proclamados líderes, aceitam que isso é o máximo a que um negro pode sonhar.
É a estratégia da inclusão subalterna que explica não apenas a ocupação dos puxadinhos, mas também a notória cultura autofágica na relação entre negros – peça fundamental na manutenção desse nosso racismo tão peculiar. Sofisticado até na arte de tornar negros inimigos viscerais de outros negros, sem qualquer ponto em comum e ou consenso possível a não ser a condição racial abstrata que não chega a se constituir em cimento para a união, organização e solidariedade. Sem solidariedade, não temos movimento, mas lobbies.
No momento em que o mundo celebra os sinais de mudança e o próprio Obama proclama, no histórico discurso da vitória no Grant Park de Chicago, que a mudança chegou, é hora de nós, negros, no Brasil, rompermos com as amarras que ainda nos mantém presos a guetos e aos falsos auto-proclamados líderes que ajudam – por ação, omissão e ou despreparo – a manter a população negra submetida à opressão do sistema racista em troca de migalhas.
Construir, como Obama, um movimento amplo na sociedade para enfrentar o racismo – elemento estruturante da desigualdade social; adquirir a capacidade de falar para todos, independente da cor da pele; romper os guetos; liquidar com a cultura autofágica, subproduto do racismo; assumir todo e qualquer espaço – nos Partidos, na Academia, no Estado – de forma altiva, não subalterna, são as primeiras lições que podemos tirar do resultado das eleições americanas. Estamos órfãos de líderes da estatura de um Obama no Brasil. Precisamos construí-los.
Yes, we can! Sim, nós também podemos!