Este texto também foi usado para solidificar uma postura racista contra os negros no Brasil. Um texto bíblico muito interessante que merece reflexões coerentes com história. Antes quero afirmar o que sempre digo quando perguntado sobre quando os negros e as negras são retratados na bíblia.
A Bíblia é um livro que conta primordialmente a história de povos negros. A questão não é encontrar negros na Bíblia, mas sim, brancos. Portanto, a Bíblia é um livro sagrado que fala dos negros e da sua história desde o início do mundo.
Partindo sob esta perspectiva, notamos que este texto fala de uma família de negros. Entretanto, alguns afirmam que existe a possibilidade de que o Cam fosse negro. Esta interpretação é muito contraditória, mas aceita em muitos lugares e foi assim aceita por vários teólogos. Esta possibilidade alicerçou as interpretações racistas sobre os negros e negras do mundo.
O texto fala que Noé plantou a primeira vinha e bebeu vinho até se embriagar. Esse vinho possivelmente era muito gostoso! Diz o texto bíblico, que Noé ficou nu na tenda e Cam, um dos seus filhos, viu a nudez do seu pai e foi contar aos seus irmãos. Esta ação não foi nada agradável para Noé. Foi para ele um desrespeito. Os irmãos Sem e Jafé cobriram Noé e o respeito deles era tão grande que o fizeram de costas para não verem a nudez do pai e o desrespeitassem. Noé, então, acordou e quando descobriu o caso ficou furioso e lançou uma maldição.
As pessoas racistas que utilizam este texto dizem que Cam foi amaldiçoado e a maldição foi a pele preta. Pasmem! Esta besteira foi anunciada na igreja evangélica por anos e em alguns casos ainda tem sido pregada. Para esmiuçarmos este texto precisamos fazer duas perguntas importantes: Quem foi amaldiçoado por Noé? Qual foi a maldição?
A Bíblia é muito explícita e objetiva quando lemos as palavras de Noé.”Maldito seja Canaã”. Percebemos que quem foi amaldiçoado foi Canaã e não Cam. A Bíblia diz em outro texto, mas na mesma história que “Deus abençoou Noé e seus filhos…”(Gen 9:1). Cam não podia ser amaldiçoado, pois foi abençoado por Deus. Quem foi amaldiçoado pela autoridade do pai por Noé foi o seu neto e não diretamente o seu filho.
O que os racistas teológicos de plantão não conseguem perceber é que Cam não tinha só Canaã como filho. Cam tinha outros filhos que formaram grandes nações. Povos fortes e poderosos. Só para dar uma idéia entre os filhos de Cam estavam Cuch, Misraim, Fut. Segundo o teólogo Andrés Ibáñez Arana, no seu comentário “Para compreender o livro do Gênesis, edições Paulinas”, Cuch é território ao sul do Egito: Núbia ou Etiópia. Mizraim é o Egito. Fut parece ser a Líbia”. Já Canaã, segundo o autor e pesquisador, compreendia o povo da Palestina antes da chegada dos israelitas, e a Fenícia. O texto bíblico continua falando da descendência de Cuch e das nações que dessa descendência se originou como os Babilônios, que estavam na Assíria. Ainda a descendência de Cam se espalhou por toda a Arábia.
A outra pergunta precisa ser respondida. Qual foi a maldição. O texto diz assim: “Maldito seja Canaã. Escravo de escravos será para os seus irmãos”. A idéia aqui de escravidão é de sujeição de parte deste povo. Alguns textos posteriores dão a entender que isto foi cumprido (Josué 9:27,16:10, Juízes 1:28, 30,33,35; I Reis 9:20-21).
O que desejo ressaltar aqui é que a maldição obviamente não pode atingir ao povo negro, pois muitos outros filhos de Cam também eram negros além de Canaã e foram povos poderosíssimos. Se é que esta teoria de que só Cam dos filhos de Noé era negro tem algum fundamento.
Portanto, essa foi mais uma mentira promulgada nas igrejas evangélicas do Brasil. Teorias como estas têm origem no sul dos Estados Unidos no tempo em que se cria serem os negros e negras inferiores. Como no Brasil, infelizmente, se tem o mau hábito de engolir todo o lixo ideológico americano, a Igreja Evangélica brasileira pregou esta maldita interpretação como se for uma verdade incontestável.
Por estas e outras reitero que a Igreja Evangélica no Brasil deve ter uma postura de reparação para com negras e negros brasileiros. Sugiro aqui também políticas ações afirmativas a partir da igreja e o faço dizendo que essa postura seria a demonstração prática do Evangelho puro e simples.
Uma das maneiras de fazer políticas afirmativas será quando as escolas de confissão religiosas como nas denominações Batista, Presbiteriana, Metodista, Luterana e outras houver cotas raciais visando à população negra. Quando as crianças negras puderem estudar nessas escolas que são, desde sempre, excelentes centros de ensino, mas que fazem abertamente posição elitista.
Também vejo possibilidade de termos negros como pastores nas maiores Igrejas Evangélicas do Brasil. Quando nas grandes Igrejas denominacionais os negros estiverem presentes como lideranças sem necessidade de terem esposas brancas ou vários títulos acadêmicos e diplomas para serem aceitos, a Igreja Evangélica estará dando passo importante para a reparação histórica.
E por fim, quero dizer que outra forma de políticas de ações afirmativas é dar poder de decisão aos negros e as negras tanto nas Igrejas como nos setores decisórios das denominações. Porque ainda percebemos que para muitas igrejas a vontade de Deus ainda não escolheu negros para ocuparem os setores mais importantes de suas estruturas ou das hierarquias denominacionais.

Pr. Marco Davi de Oliveira