As versões que predominam criam uma história mal-dita, porém dominante, que inferiorizam as narrativas de alguns grupos do lugar. Desta forma, inventam também, uma justificativa à crueldade do sistema-mundo-capitalista-moderno-favelofóbico (Grosfoguel, 2008) que, sobretudo, canibaliza as lutas locais, a partir da lógica de um colonialismo-colonialidade dos saberes, que exclui dos discursos as contradições desse sistema-mundo e as aberrações sociais que ele cria. Mais que isso, culpabiliza as vítimas, condenando-as a morte social e moral, primeiro, depois, a morte física.
Na favela da Rocinha há, por exemplo, subáreas que guardam os resquícios da presença dos povos negros, como um local conhecido como Dionéia, que, até pouco tempo, apresentavam sinais de algumas ruínas que sugerem a existência de construções dos Quilombolas que habitaram aquele local. Essa presença não consta nos relatos de origem dos discursos oficiais predominantes sobre a Rocinha.
O livro Varal de lembranças, organizado pela professora Lygia Segala, fonte importante de depoimentos dos moradores antigos da Rocinha, apresenta duas versões de origem para essa favela: “morava aqui uma mocinha muito bonita, muito loura, que chamavam de Russinha. Aí veio se passando a história e ficou o nome de Rocinha. Não tinha nenhuma roça aqui.” (Depoimento de Ivan Martins, do G.R.B.C. Unidos da Rocinha, Varal de Lembranças, 1983: 30). E uma outra na qual a história do nome Rocinha se deu porque viviam lá umas mulheres espanholas que fizeram uma horta. “Elas, como eram plantadoras de hortaliças, chamavam o pessoal: – Venham ver a minha rocinha! Então pegou, por causa da roça, da chácara que elas tinham. Pegou o nome.”(Depoimento de Ismael Elias da Silva, Varal de Lembranças, 1983: 30).
Porém, há outras versões, não registrada em livros, mas presente na memória e consubstancializada nas narrativas de outros moradores. Vejamos o que diz o Sr. José (um nordestino, branco, morador antigo da Rua 1, parte alta do morro), quando pergunto sobre a questão racial na Rocinha.
Sr. José: Ali (na Rocinha) sempre foi misturado. Sempre preto e branco. Nunca teve isso de mais preto e menos branco. Sempre igual.
Pergunto: Tinha algum lugar onde era concentrado mais negros?
Sr. José: Tinha, tinha! Ali pro lado do Sansão (referência a um comércio local, situado na Rua 1, descendo o morro em direção à rua 2 ). Tinha mais aquele pessoal preto, naquele lado ali de baixo, onde tem a creche Maria, Maria.
Rodrigo: No local onde o pessoal chamava de Cesário?
Sr. José: É! Lá no Cesário!
Rodrigo:O que é Cesário?
Sr. José: Rapaz, o nome dele era Cesário mesmo. O nome de um cara. Aí depois que ele morreu.
Rodrigo:Era um negro?
Sr. José: Era um moreno fortão, o falecido Cesário. Ele foi quem construiu muitas casas ali embaixo. Ali nos lados da Maria, Maria (creche).
Rodrigo: Aonde a maioria era negra?
Sr. José: É! A maioria era negra, ali. Os filhos dele, os irmãos, as tias… Entendeu? Aquele pessoal todo, ali, tudo eram parentes dele.
Rodrigo: Ah! Então era meio que assim: grupos de parentes dele, todos próximos.
Sr. José: Isso! Tudo próximo um do outro. Ninguém chegava ali perto. Tudo era deles.
Rodrigo: Entendi! Agora olha só, falando disso, essa galera, da família lá do Cesário, pelo que você está falando, esse pedaço, era um pedaço onde a predominância era de pessoas negras.
Sr. José: Era a maioria, depois foi se misturando.
Rodrigo: Então, até essa época, 1964, de certa forma, eram eles que eram os donos de lá. Você lembra da origem do Cesário, se ele era nordestino…?
Sr. José: Não lembro, não, da origem dele, de onde ele veio… Não sei, não. Se era mineiro… Ele dava mais aparência com mineiro (é interessante mencionar, que a esposa do Sr. José é negra, e mineira. Talvez por isso, ele faz essa relação).
Rodrigo: É! Porque dizem uma história que ali (Cesário), há muito tempo atrás, até antes de ser essa Rocinha que você está falando, era um Quilombo, de escravos, já escutei isso.
Sr. José: Já escutei isso também. Eu escutei uma história, mostrando numa reportagem, que a Gávea, todinha, ali, era um canavial. E o engenho, onde moía a cana para fazer as cachaças, fazer açúcar, rapadura, essas coisas, era lá aonde é o Jóquei Clube, hoje. O engenho era ali.
Rodrigo: Mas você acha que pode ter alguma ligação dessa história?
Sr. José: Pode ter porque a Rocinha já existe desde essa época.
Rodrigo: Você acha que tem alguma história de ex-escravos ali?
Sr. José: Não (enfaticamente)! Não cheguei a ouvir isso, não.
É interessante observar na fala do Sr. José, há alguns elementos que apontam para uma noção ideológica de democracia racial, muito difundida até hoje, através do mito das três raças (Freyre, 2002). Em seguida, o Sr. José afirma a existência de uma espacialização racializada, na favela da Rocinha, em um local denominado Cesário que, segundo suas palavras, tem esse nome em função de ser um lugar com uma marca diferenciada de organização espacial naquela subárea da favela, sobretudo, porque se organizava em torno de uma pessoa, o que configura um tipo de experiência de espaço semelhante ao dos Quilombolas, ou seja, uma organização de território em torno de um ancião.
Entretanto, ainda que como um lugar que “tinha mais aquele pessoal preto”, no caso aqui problematizado, a memória traz a marca do silenciamento da história desse povo que ali viveu. Quando o Sr. José nega, enfaticamente, a existência de histórias sobre a possibilidade de relação entre o povo do Cesário e os remanescentes de Quilombos, nos permite abrir duas chaves analíticas: a primeira, mais simplista, pode nos levar a pensar que ele não quis admitir já ter escutado alguma coisa, sobre escravos naquele local (visto que, paradoxalmente, quando comento sobre histórias que já ouvi de Quilombos na Rocinha, ele imediatamente diz “Já escutei isso também”, e discorre sobre uma história de um engenho na Gávea…), em função de um racismo, propriamente dito. Uma outra possibilidade de reflexão sobre essa “omissão”, seria uma impossibilidade “concreta” de ver-ouvir-lembrar das histórias, em função da violência simbólica e da carga ideológica que lhe foi imposta, como um reflexo do processo de colonialidade dos saberes-pensares, presente no atual sistema-mundo-Brasil, e que pode, a partir da narrativa de experiência local do Sr José, ser evidenciado.
Para não concluir…
Gostaria, à guisa de conclusão, de fazer uma reflexão à luz de um debate do campo da Biologia, que tem discutido as transformações de determinados solos, a partir do crescimento de plantas que, de acordo com a inclinação natural em que crescem, dificultam a entrada de raios solares no solo que a circundam. Desse modo, onde elas fazem sombras, torna-se um terreno hostil para elas mesmas, pois a terra recebe menos calor e fica inadequada para o desenvolvimento da sua espécie. Entretanto, o lugar torna-se propício para o desenvolvimento de novas espécies, que irão suplantá-las.
Quando o Sr. José diz “era tudo misturado…”, me permite fazer uma relação metafórica entre a luta do povo negro na favela da Rocinha e esse debate da Biologia. É possível indagar se o processo de ocupação nessa favela, pelos nordestinos, a partir das décadas de 50 e 60, não provocou o mesmo efeito do que acontece com o desenvolvimento de determinadas plantas em alguns tipos de ambientes.
Os povos negros transformaram os morros da cidade em um território propício à ocupação dos mais pobres (os nordestinos, por exemplo), que chegavam para construir a cidade “moderna” do Rio de Janeiro. Contudo, as histórias de lutas e resistências dos negros nos quilombos que antecederam as favelas foram suplantadas pelos discursos de origens que supervalorizaram as narrativas brancas que se aproximavam dos modelos e rituais USA/eurocêntricos, como o forró e o cangaço, e desconsideraram e/ou aniquilaram os relatos e as narrativas dos povos de origem africana, privilegiando, com isso, os discursos hegemônicos de que a Rocinha: é uma favela dos nordestinos.
O título original do artigo é “As marcas dos Quilombos na favela da Rocinha: arqueologia de uma história mal-dita”.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
FREYRE, Gilberto. Sobrados e mucambos. 13ed. Rio de Janeiro: Record, 2002.
GROSFOGUEL, Ramon. Descolonizando os paradigmas da economía-política: transmodernidade, pensamento fronteiriço e colonialidade global. Disponível em: Rodrigo Torquato da Silva