Embora tendo movimento negro, na Taubaté daqueles tempos não havia grupos de Hip-Hop, nem passeata em louvor a Zumbi dos Palmares, nem discussões a respeito de políticas de discriminação positiva para negros. Não eram muitos os companheiros de militância que acreditavam na possibilidade de algum país europeu, latino-americano e mesmo a América vir a ter presidente negro, e não me recordo de alguém ter provocado discussões a respeito de cotas para estudantes afro-descentes no ensino superior.
Aliás, me parece que a própria expressão afro-descendente surgiria bem mais tarde. Enfim, era um tempo em que se discutia temas clássicos, tais como: o estereótipo do branco superior e do negro inferior, a suposta democracia racial brasileira e, naturalmente, os horrores da escravidão negra e as conseqüências do pós-abolição. Mas, não obstante a pouca experiência em militância de boa parte da turma, os colóquios eram bem-intencionados e entusiasmados, além de promovidos e protagonizados por uma juventude idealista e absolutamente comprometida com a causa negra.
A militância em Taubaté e em São José dos Campos proporcionou a edição de dois FECONEZUs1 na região: o primeiro, em 1983, em São José dos Campos; o segundo, em 1987, em Taubaté. Contudo, ao meu modo de ver, o principal mérito dos movimentos supracitados não foi sediar duas edições dos FECONEZUs e sim ter ajudado no despertar da consciência negra e no fortalecimento da alta-estima de muitas negras e negros do Vale do Paraíba paulista daquela época. E uma vez conscientes e fortalecidos, foi possível equiparar as poucas diferenças que existiam entre nós, diferenças essas que até então respondiam pelos contrastes.
Transcorridos quase trinta anos, acredito que o principal desafio dos atuais movimentos negros do Vale paulista – em especial, o de Taubaté – continua sendo basicamente o mesmo de outrora: despertar a consciência negra e fortalecer a alto-estima do pessoal. Mas acredito, ainda, ser necessário ter em mente que os tempos atuais sinalizam no sentido de que se traga para os grupos de discussões temáticas como, por exemplo, o respeito às diversidades existentes no mundo, além do incentivo à adoção de práticas anti-racistas.
Tudo porque, em pleno século XXI, não dá para continuar pensando e desejando que segmentos com históricos diferentes se submetam ao mesmo sistema de regras, e não dá para não considerar as transformações sociais ocorridas ao longo dos anos.
Sendo assim, para ajudar na construção dessa identidade, talvez fosse interessante que os atuais movimentos negros resgatassem uma das práticas daquela turma do passado – de Taubaté e de São José dos Campos – precisamente: o estudo coletivo e sistematizado das temáticas negras, mas não se esquecendo de acrescentar os temas correlatos acima mencionados e tantos outros. É que ao meu modo de ver, somente o estudo permitirá entender e interpretar o conjunto de informações gerais e particulares – nem sempre oficiais – que formam o repertório cultural da gente negra deste país e desta região; e só o estudo permitirá compreender os porquês da existência das práticas racistas e, também, da presença em nossas vidas da estupidez denominada intolerância.
Todavia, esse estudo seria sem prejuízo da proposta pedagógica elaborada a partir da Lei Federal 10.635, mas ganharia, sim, importância significativa à medida que não se desconhece que no seio dos movimentos negros também existem aqueles que por diferentes motivos não freqüentam ou nunca freqüentaram escolas oficiais.
Então, considerando a possibilidade dessa prática sistemática vir a ser resgatada pelos atuais movimentos negros do Vale do Paraíba paulista, penso que ela poderia/poderá ajudar senão erradicar ao menos diminuir o número de pessoas que ainda hoje seguem ignorando – e até desprezando – as próprias tradições, costumes e crenças; penso, ainda, que o referido estudo poderia/poderá ter a propriedade de clarear a mente de todos nós, sendo que uma das conseqüências disso seria mais pessoas não permitindo que estorvos se levantem para tentar nos humilhar a inteligência, abalar a nossa fé, diluir os nossos sonhos individuais ou coletivos.
E uma vez com a mente clarificada, tornar-se-ia muito mais fácil para todos compreender a extensão e a profundidade da frase pronunciada recentemente por um negro de projeção transcontinental, aquela frase que brilhantemente advertiu e sentenciou: “nós podemos”.
Sim, uma vez criada essa infra-estrutura – sem a qual corre-se o risco de se adotar a argumentação do “eu acho”, “eu penso”, mas sem nenhuma fundamentação – creio que ela nos proporcionaria/proporcionará muito mais argumentos, meios e modos para lutarmos, por exemplo, por feriado no dia 20 de novembro nas cidades da região, por políticas de discriminação positiva para negros que vivem por aqui, para a implantação de conselhos da comunidade negra em nossas cidades, enfim, para se exercer efetivamente o papel didático que sempre caracterizou os movimentos negros deste país.
Mas enquanto esse momento não chega, a condição de uma das decanas de um dos movimentos negro do Vale paulista – o de Taubaté – acaba me levando à prática de contar e recontar histórias, mas também me obriga a ter mente e espírito abertos aos novos e diferentes acontecimentos. Por fim, também me dá a certeza de que é, do meu dever, apoiar e participar das ainda que tímidas iniciativas do meu pessoal. Porém, é essa mesma condição que me leva desejar enxergar nos meus atuais companheiros, aquela estuante vivacidade que musicava o rosto do pessoal do passado, aquele sorriso que dançava na carinha de todos nós, aquela alegria que nos fazia cachinar dos próprios rompantes. Aquele comprometimento incondicional, aquela rebeldia com causa, aquela necessidade de se dizer a que se veio.
Não, não sou saudosista, embora tenha, sim, inúmeras e deliciosas lembranças a me acompanhar. Em verdade, sou aquela que acredita que militância em movimento negro – no passado ou no presente, aqui ou em qualquer lugar – vai além, muito além daqueles encontros que, embora bem-intencionados, acabam sendo basicamente mais uma curtição de pagode e feijoada.
Referências do texto:
1 FECONEZU – Festival Comunitário Negro Zumbi
O título original do artigo é “AS PERSPECTIVAS DO MOVIMENTO NEGRO PARA 2009
ALÉM, MUITO ALÉM DO PAGODE E DA FEIJOADA”

Sônia Ribeiro