Os dois Santanas – Flávio e Januário – entraram na mira de um mesmo inimigo, quase sempre silencioso, mas não menos letal: o racismo brasileiro, que torna o negro – qualquer negro – um suspeito em potencial do crime – qualquer crime.
Flávio retornava para casa, feliz, depois de embarcar a namorada suíça – Anita Joos – de volta a seu país. Um comerciante, que acabara de sofrer o assalto, não teve dúvidas em apontar o dedo assassino: é ele. O que aconteceu depois foi apenas a execução da sentença de morte pelo braço armado do Estado.
Januário, acompanhado da mulher, dois filhos menores, a irmã e um cunhado, saiu de casa para fazer compras no último dia 07 de agosto. O alarme de um assalto, não confirmado, o transformou em alvo.
Suspeito padrão
Negro de aparência humilde, e ainda por cima na direção de um EcoSport, nada mais suspeito para o racismo brasileiro. O suspeito padrão potencializado pelo veículo, cuja posse está associada aos segmentos da classe média abastada. Pouco importa que tenha sido comprado em 72 prestações de R$ 789,00 pagas religiosamente em dia.
O que aconteceria depois, naturalmente, seria nova execução. A profecia macabra apenas não se confirmou porque o instinto de sobrevivência da vítima falou mais alto. Januário lembrou da lição aprendida como praticante de lutas marciais, de que não devia deixar ao atacante a iniciativa; antecipou-se e entrou em luta corporal, antes do tiro fatídico.
Tendo sobrevivido, conta, respirou aliviado: “Graças a Deus! Estou salvo”, afirmou, rodeado e rendido por seguranças, já tendo o pé de um deles sob a cabeça.
Lesões corporais e cárcere privado
Os sobreviventes, no entanto, não estão à salvo da fúria e do ódio enrustido que permeia todas as relações em uma sociedade racista – mesmo nas do tipo camuflado como a nossa. Deveria receber o castigo devido, por ousar defender-se evitando a execução. Teria uma pena a pagar ainda, como se fazia, sob o escravismo, aos negros fujões recapturados.
Os quase trinta minutos de socos, coronhadas, tentativas de esganadura, em uma salinha do supermercado Carrefour, da Rede francesa (“É lá que agente vai encontrar”), é mais do que a expressão do horror: revela e expõe que tipo de sociedade é essa que pretende conciliar modernidade com barbárie, metáfora de um Brasil que pretende aliar cordialidade – vendida prá fora como um genuíno produto brasileiro – com doses cavalares de crueldade humana em estado puro contra os pobres, dentre eles, na sua maioria, os negros.
Tortura
Januário sobreviveu ao inferno da sessão de torturas, não sem antes o Estado – na figura de policiais militares, seus agentes – se revelar por inteiro, como cúmplice dos capangas do Carrefour.
O Santana sobrevivente ainda teve que suportar a tortura de ser tratado como suspeito – o suspeito padrão. “Você tem cara de ter pelo menos umas três passagens, conta prá gente, negão”, disse o policial, a um Januário já quebrado, com rosto e nariz sangrando e uma prótese dentária – arrancada a socos – nas mãos.
Feita a prova de que o EcoSport lhe pertencia, o Estado – a quem cabia a proteção – deixa Januário, o filho, a filha de dois anos, que dormia, a mulher, o cunhado e a Irmã, no estacionamento, prostrado, à espera de socorro médico, que não veio. Ele próprio teve que buscá-lo no Hospital Universitário da USP.
O espancamento e as humilhações sofridos seriam mais um caso – dos muitos que acontecem diariamente nas salinhas de torturas dessas instituições modernas como Carrefour, praticadas não necessariamente com socos, mas com doses de humilhações, constrangimentos e desrespeitos à dignidade humana.
Agredido, humilhado, fragilizado, vilipendiado na sua honra, Januário reagiu, primeiro procurando a Afropress. Depois – uma semana depois, registre-se – os grandes veículos de comunicação do país (rádios, jornais, telejornais) pararam para ouvir a história.
Silêncio
O Jornal Nacional, da poderosa Rede Globo – a mesma que tem como diretor de Jornalismo, Ali Kamel, o mesmo que diz que “Não somos Racistas” – abriu espaço para o caso. As demais Redes – incluindo a Record, em briga com a Globo por fatias do mercado – se renderam.
Passado o primeiro momento e, paralelamente, ao acompanhamento do inquérito policial que apontará os nomes dos responsáveis pela barbárie – que devem ser denunciados e condenados com base na Lei, e marcará a entrada de duas ações de indenização contra o Carrefour e contra o Estado – é urgente que a indignação provocada se transforme em ação coletiva contra esse estado de coisas; estado em que, negros são suspeitos padrão de qualquer crime, e também são frequentemente executados, abatidos como moscas, apenas porque são suspeitos padrão.
E quem achar que carrega-se nas tintas, basta lembrar a última pesquisa da Secretaria de Direitos Humanos do Governo Federal, que revela o Índice de Homicídios na Adolescência (IHA): jovens negros tem quase três vezes mais chances de serem mortos antes de completar 19 anos que não negros.
É assim que vem caminhando esse nosso “Brasil varonil, Pátria Amada, Mãe Gentil” – que, em verdade, está mais para madrasta, e madrasta das más – diga-se -, das mais cruéis, das que espancam e torturam seus filhos em salinhas e quartinhos.
Indignação
As manifestações já começaram como a promovida pela Frente 3 de Fevereiro, surgida para não deixar cair no esquecimento o caso Flávio Santana.
Chama a atenção, porém, mais uma vez, o silêncio de entidades e articulações políticas que se apresentam como de lideranças negras, que deveriam estar à frente, tomar a dianteira de iniciativas desse tipo, mas que, nessas horas, lamentavelmente calam e, ao calarem, não apenas deixam de cumprir o papel que justifica suas existências, mas o mais grave: se tornam cúmplices.
Neste caso, como em todos os outros – com mortos ou sem mortos, – não é possível mais aceitar essa mudez acovardada e conveniente. Muito menos a cumplicidade criminosa.
Com a palavra, os que se apresentam como líderes, os que falam em nosso nome. Ainda que pretendam se esconder sob o silêncio, não tenham dúvida: desta vez, mesmo este será ouvido por todos, assim como os gritos de dor e humilhação de Januário rendido e atacado pelos capangas do Carrefour.