São Paulo – A ativista afro-americana e consultora Lorelei Williams, cujo nome foi citado pelo diretor executivo do Instituto Mídia Étnica, jornalista Paulo Rogério Nunes, na entrevista em que faz o balanço do Plano de Ação Brasil-Estados Unidos para Promoção da Igualdade Racial e Étnica (JAPER, na sigla em inglês), como pessoa que teria o papel de assessorar a execução do acordo bilateral, não representa a sociedade civil americana como ponto focal encarregada de monitorar o Plano há mais de seis meses. Ela também não vive na Bahia, mas nos Estados Unidos.
A informação é da própria Williams que pediu seja corrigida a informação de que seria, na condição de ponto focal, a destinatária da metade dos recursos que a embaixada repassará para a elaboração do portal do Plano. Ela acrescentou nunca ter “aferido nenhum recurso institucional ou pessoal em sua participação nessa articulação”. (Leia comentário na Palavra do Leitor).
A informação da consultora foi transmitida por e-mail no final do mês passado (23/12) e só agora é tornada pública diante da ausência de resposta a e-mail enviado por Afropress, pedindo que informasse, entre outras coisas, quando deixou de ser ponto focal; quem são atualmente os pontos focais americanos em nome da sociedade civil; se continua exercendo algum papel de consultoria e se mantém alguma ligação com o Instituto Mídia Étnica.
Williams não respondeu, embora a mensagem tenha sido enviada por e-mail e por meio de sua página na Rede Facebook de relacionamentos.
O nome da ativista foi citado por causa da decisão da Embaixada dos EUA de repassar dinheiro ao Instituto Mídia Étnica para a montagem de um Portal do Projeto na Internet. Inicialmente, os US$ 55 mil – o equivalente a R$ 98.198,10 com a atual cotação do dólar – seriam destinados a entidades brasileiras que trabalham com comunicação focada na temática étnico-racial.
No final, prevaleceu a decisão de que os recursos deveriam ser divididos: metade para o Instituto Mídia Étnica e metade para os representantes da sociedade civil americana na fiscalização e monitoramento do Plano.
O dinheiro ainda não foi liberado por causa dos trâmites burocráticos, o que deverá acontecer entre o final deste mês e o início do próximo. O lançamento do portal está previsto para o dia 21 de março – Dia Internacional de Luta Contra a Discriminação Racial – criado pela ONU.
Na entrevista que concedeu a Afropress, em outubro, Paulo Rogério elogiou a decisão. “Certamente nossos colegas afro-americanos sofrem da mesma dificuldade de captação de recursos e estão compartilhando do mesmo sentimento que temos aqui no Brasil de que esse Plano possa ter êxito. Além disso, com a gestão compartilhada desse recurso, aumentaremos a transparência do processo e maior publicização das ações”, afirmou.
Consultoria
Afropress apurou que a ativista teria atuado como consultora para organizações como a Fundação Ford, Fundação Brasil, e para o Instituto Brasileiro de Mídia Étnica, entre outras.
Questionado, há duas semanas, sobre a relação de Williams com a entidade que dirige, Paulo Rogério, desconversou: “Sobre a relação de Lorelei Williams com o Instituto Mídia Étnica, ela é a mesma que mantemos com dezenas de militantes negros do Brasil e de outros países da Diáspora. Compartilhamos os mesmos objetivos no que diz respeito a luta contra o racismo e nos encontramos em eventos sobre a questão racial”, afirmou.
Entrevista
O nome da ativista afro-americana foi citado pelo jornalista, quando, em entrevista publicada na íntegra no veículo que dirige – o Correio Nagô, de Salvador -, fez uma avaliação do Plano e das iniciativas do Governo Brasileiro.
“Além disso, contamos com a assessoria de dois entusiastas do Plano e que acompanharam as discussões iniciais: Daniel Bento, do CEERT (SP), e a Lorelei Williams, uma ativista afro-americana, que já atuou junto ao Instituto Steve Biko na Bahia. Nosso papel é acompanhar as discussões e informar a sociedade civil”, afirmou.
Na mesma entrevista ele cita ainda os nomes da professora da UCLA, Kimberle Crenshaw, “notória pesquisadora sobre ações afirmativas e o professor Clarence Lusene da American University e pesquisador de relações internacionais” como pontos focais da sociedade civil”.
“O que os pontos focais brasileiros e estadunidense questionam é que, apesar do espaço criado para participação das entidades sociais nesse Plano, nossa atuação é bastante limitada pois o governos não têm repassado as informações”, acrescentou, após informar os nomes dos pontos focais que representam a sociedade civil brasileira”, levando a conclusão de que Williams teria participação na gestão do projeto.
Posteriormente, questionado sobre a presença da ativista como ponto focal, em e-mail enviado em 29 de dezembro, Paulo Rogério disse que seria a própria ativista “a pessoa ideal para informar sobre até que data e como atuou na condição de ponto focal no Plano Brasil/EUA, e repassou o e-mail: “O que posso informar com certeza é que no momento ela não mais representa a sociedade civil americana”, sublinhou.
Sem correção
Nos contatos mantidos anteriormente, inclusive, no artigo que escreveu e que está postado na secção Colunistas, o diretor do Mídia Étnica, em nenhum momento corrigiu a informação de que Williams não apenas não era mais ponto focal “há mais de seis meses”, como também não vive Bahia nos EUA, do qual se supõe fôsse conhecedor.
Segundo ele, a decisão de compartilhar o recurso com os pontos focais dos Estados Unidos foi uma decisão tomada pela embaixada dos EUA “partindo da idéia de que se é um plano de cooperação, seria importante que a sociedade civil estadunidense também participasse da gestão desse recurso e produzisse conteúdo em inglês”.

Da Redacao