Rio – O músico, escritor e ativista Antonio José do Espírito Santo (foto), conhecido como Spirito Santo no movimento negro e nos meios culturais cariocas, classificou nesta quarta-feira (19/03) o relatório produzido pelos participantes da reunião com a presidente Dilma Rousseff na semana passada (13/03) no Palácio do Planalto, de “pífio e típico” e disse que os participantes do encontro são "funcionários e pelegos aparelhados" pelo Governo.

“Claro que eles sabem das demandas, mas sabemos também, tanto quanto eles, que a estrutura governamental não está aparelhada nem tampouco interessada em equacionar nada neste sentido”, afirmou o ativista, referindo-se aos presentes à reunião como “funcionários e pelegos aparelhados”. A reunião foi convocada por Dilma com pessoas escolhidas pela ministra chefe Luiza Bairros, da SEPPIR, sob o pretexto de participarem do ato em que foram homenageados jogadores e um árbitro vítimas recentes de manifestações racistas nos estádios.

No dia anterior, a escritora Cidinha da Silva, chefe da representação da Fundação Palmares, em S. Paulo, havia divulgado longa carta, em formato de relatório, assinado pela acadêmica Ana Flávia Magalhães Pinto, que se assumiu como porta-voz do grupo. (Veja a íntegra da carta-relatório).

http://cidinhadasilva.blogspot.com.br/2014/03/da-bala-bola-presidenta-dilma-rousseff.html

Pressão externa

Misturando um discurso típicamente acadêmico e análises abstratas das posições do Governo em relação ao tema do racismo e da discriminação racial, Ana Flávia, que diz pertencer ao Grupo chamado Pretas Candangas, faz um longo histórico da reunião para ao final concluir que o encontro deixou evidente “que nossas demandas só serão encaminhadas  se houver forte pressão externa”.

“É de ressaltar o ato falho que representa esta expressão "pressão externa" como sugestão tática; "eles", dizem os pelegos, estão com o Governo, são os "internos", fizeram a sua parte. Assim lavam as mãos e nos aconselham a "pressionar" o Estado por nossa própria conta e risco.”, sublinhou Spirito manifestando indignação.

Para o ativista os participantes da reunião “prestam-se ao vergonhoso papel de buchas da propaganda governista pré-eleitoral”. “Óbvio que a estrutura partidária governista a qual prestam serviço, com a tensão e impacto provocado pelo agravamento do racismo e a consequente projeção de uma imagem ruim do país no exterior e esta convocação deles, em sua maioria funcionários e pelegos aparelhados, serve para legitimar um discurso governista supostamente positivo”, afirmou.

Cinismo

Spirito rebateu a afirmação de Ana Flávia de que a Presidente teria se mostrado surpresa e descontente com o fato de o Ministério da Saúde ter pretendido tratar a implementação da Política Nacional de Saúde da População Negra num nível abaixo de onde já estava. “O Ministério da Saúde boicota ou subestima ações na área de políticas nacionais de saúde da população negra e a presidente se "surpreende"? Ora, ela não é a responsável final pelas ações dos seus ministérios?”, pergunta.

Também manifestou estranheza diante da posição do atual presidente da Fundação Cultural Palmares, Hilton Cobra, o Cobrinha. "Na cultura, não fossem as denúncias frequentes de fraudes em editais na Funarte e instituições afins, somos obrigados a ver Hilton Cobra da Fundação Palmares, outrora combativa liderança, transferir para a "sinhazinha presidente" os louros pelo lançamento da proposta de cotas na distribuição de verbas na área do MinC (Ministério da Cultura) proposta que julgávamos ser dele mesmo, como filha única de mãe solteira de suas propostas à frente da FCP".

O ativista acrescentou em tom de desabafo: “A ressaltar apenas o ranço bajulatório constrangedor dos elogios rasgados à "Presidenta", colocada mais, quase que como um Mandela branco e de saias e a revoltante transferência do problema da histórica falta de empenho do Estado na resolução de nossas demandas contra o racismo na conta de uma vaga "forte pressão externa", ou seja: na nossa conta, da nossa pressão", concluiu.

Respostas evasivas

Por sua vez, o professor de História Douglas Belchior, do Conselho Geral da UNeafro, entidade dissidente da Rede Educafro, que vinha boicotando respostas a pedidos de entrevistas da Afropress, desta vez respondeu às perguntas encaminhadas na semana passada pela Redação do veículo: "Como participante da reunião com a Presidente em que o movimento negro escolhido a dedo pela ministra chefe [Luiza Bairros] se propôs a legitimar a ação marqueteira do Governo na Copa: 1 – quais foram as suas impressões; 2 – o que de positivo destacaria na reunião; 3 – qual foi o encaminhamento dado a carta de denúncias que você representando algumas entidades participou; 4 – participou como liderança da sociedade civil e do movimento ou como membro do PSOL. No aguardo de resposta, agradecemos a atenção".

Veja a resposta na íntegra:

"Segui a lógica de suas questões para escrever uma Nota que publiquei no meu Blog agora a pouco, mas antes, duas questões: 1 – Em nome da Uneafro-Brasil e dos demais movimentos os quais subscreveram a Carta de Reivindicações que apresentei, não nos propomos a legitimar coisa alguma. essa é uma afirmativa sua. Não nos cabe nem atinge; 2 – Sou militante do movimento negro Uneafro-Brasil e além deste, representei naquele momento os grupos que subscreveram a Carta de reivindicações onde estão expostas em curto espaço, parte das ideias e formulações que defendemos", afirmou evadindo-se das respostas.

A Nota é acompanhada de uma carta entregue a Dilma com reivindicações que vão desde o pedido de regulamentação do art. 5º da Constituição, em que ignorara-se que o art. foi regulamentado precisamente pela Lei 7.716/89 – (a Lei Caó), ao fim da "revista vexatória", passando por "imediato mutirão do Judiciário para revisão de penas dos presos". É assinada por entidades próximas ou ligadas ao PSOL e a microgrupos chamados por Belchior de "organizações negras", como a sua própria organização – a Uneafro Brasil – o Círculo Palmarino, o Núcleo de Consciência Negra na USP, o Instituto Luis Gama, Coletivo Quilombação – USP -, Grupo Pesquisas Novo Bandung – UFABC – Blog NegroBelchior – Carta Capital; Associação Franciscana de Defesa de Direitos e Formação Popular.

Confira na íntegra.

http://negrobelchior.cartacapital.com.br/2014/03/17/na-pratica-dilma-tem-pouca-sensibilidade-as-demandas-do-movimento-negro/

Da Redacao