S. Paulo – A tentativa de troca de um telefone com defeito no Supermercado Carrefour do Shopping Eldorado, Zona Oeste de S. Paulo, pela enfermeira e ativista social Sônia Maria Lofredo, tornou-se um pesadelo que durou pelo menos duas horas e acabou no 15º DP do Itaim Bibi, para onde a enfermeira de 44 anos foi conduzida por dois Policiais Militares, depois de ser obrigada a deixar os dois filhos menores e um amigo destes, na casa onde mora no Jardim Paulistano.
O caso aconteceu no dia 13 de janeiro deste ano, uma sexta-feira, e só agora a enfermeira resolveu tornar público, porque não consegue esquecer a violência que sofreu na frente dos filhos. “Vou estourar sua cara sua negra desgraçada” teria dito, segundo conta, um segurança baixo e atarracado com cicatrizes que pareciam de queimadura ao abordá-la, antes de ser encaminhada a salinha para esperar a chegada da Polícia.
Sônia, que é negra, mas nunca tinha enfrentado situação de discriminação, também acusa seguranças e funcionários do Carrefour de chamá-la de “negra doida” e outras ofensas relacionadas à sua condição racial, de ameaças de agressão física e de terem montado um teatro para incriminá-la.
Teatro
O pretexto para acusá-la de agressão foi o fato dela, indignada, ter atirado o aparelho com defeito no chão, diante da recusa da funcionária de efetuar a troca a que teria direito, segundo o Código de Defesa do Consumidor. No teatro montado, a gerente de vendas, Edimeire Moraes de Andrade Santos disse a Polícia que o telefone teria atingido sua cabeça, o que Sônia nega. “Ela estava do meu lado, como pode o aparelho ter atingido a cabeça dela, se foi jogado no chão?”, pergunta.
“Entrei no Carrefour como consumidora com uma queixa, tentando fazer uma troca que estava no meu direito. Sai de lá, ré, agredida no meu direito de cidadã e de consumidora e passando por constrangimento moral que me atingiu e aos meus filhos”, conta.
Filhos assistiram
Segundo ela, os dois filhos C.X. R. e H.X.R., respectivamente de 10 e 12 anos, que estavam acompanhados de um amigo K.M.F., também de 12 anos, ainda se ressentem do que aconteceu.
“O menor, no dia seguinte, dormiu o dia inteiro e agora só faz desenhos de perseguição. Eu não consegui sair de casa com depressão e sintomas físicos de pânico como taquicardia e diarréia e passei a ter dificuldades prá dormir. Pela primeira vez na minha vida um médico me indicou um medicamento tarja preta. Continuo com os sintomas de pânico, parecendo que vou engolir o estômago. Estou com dificuldade para me concentrar, dormir e trabalhar”, acrescenta.
Na versão contada pelos seguranças e funcionários da loja, porém, a enfermeira é acusada do crime de lesão corporal previsto no art. 129 do Código Penal, que prevê penas de 3 meses a um ano de detenção.
Contida por seguranças
A suposta vítima, a gerente de vendas do Carrefour, Edimeire Moraes de Andrade Santos, que teria sofrido “lesões” disse a Polícia que clientes que estavam na loja teriam tentado agredir Sônia e que a mesma teria tentado “fugir do local, mas foi contida por seguranças”.
O caso está registrado no 15º DP do Itaim Bibi, Zona Oeste de S. Paulo, porém, o Inquérito ainda não foi aberto porque a apuração do crime depende de representação da suposta vítima.
“Por tudo o que estou passando, sou eu que agora quero que tudo seja apurado para que a verdade apareça e os responsáveis sejam punidos”, afirmou Sônia.
Para isso, o advogado Dojival Vieira protocolará nesta terça-feira (06/02) uma representação pedindo a instauração de Inquérito para apurar os crimes de falsa comunicação de crime e denunciação caluniosa, ameaça, injúria racial e violação de artigos do Estatuto da Criança e do Adolescente, pelo fato da agressão a Sônia ter ocorrido na frente dos filhos e do outro menor que os acompanhava.
Veja a entrevista da ativista ao cinegrafista Jefferson Ferreira com exclusividade para a Afropress

Da Redacao