S. Bernardo – O meio de rede Deivid, 22, atleta da equipe de vôlei de S. Bernardo, que jogou no último sábado (05/02) em Londrina, denunciou ter sido alvo de ofensas racistas por parte de torcedores paranaenses, que o hostiizaram durante o jogo – em que seu time perdeu por 3 sets a 0 – chamando-o de “negro macaco”.
“Nos dois primeiros sets, o pessoal nos xingava e nós até dávamos risada. Com isso, a gente está acostumado, mas quando me chamaram de macaco no terceiro set, passaram do limite”, disse Deivid, ressaltando que nunca havia passado por situação semelhante.
O jogo chegou a ser interrompido, diante da revolta do banco de reservas da equipe do ABC. Seguranças do ginásio retiraram o grupo, mas tiveram que liberá-los após a chegada de um advogado.
Terminada a partida, o supervisor do S. Bernardo, Rubens Rizzo, registrou Boletim de Ocorrência em uma delegacia de Londrina. “Se tivesse uma força policial efetiva no ginásio, teríamos conseguido identificar os torcedores”, lamentou o técnico do São Bernardo, Roberley Leonaldo, o Rubinho.
O delegado da partida, Olegário Júnior, disse que não ouviu as ofensas, mas registrou o caso em relatório enviado à CBV (Confederação Brasileira de Vôlei).
“Os atletas que estavam na zona de aquecimento me contaram que ouviram um xingamento racista de um torcedor. Foi isso o que eu escrevi no relatório”, afirmou.
A CBV, por meio de sua assessoria, avisou que aguarda a chegada do relatório feito pelo delegado à sede, localizada no Rio, para depois tomar as medidas cabíveis.
Indignação
O técnico do São Bernardo disse ser inadmissível atitudes como essa e gostaria que houvesse punição exemplar, mas ressaltou que se trata de um “ato isolado” no vôlei. “A gente não está acostumado com isso no vôlei. O vôlei tem um público mais familiar”, disse o técnico.
Ao contrário do futebol, a grande maioria dos atletas de ponta do vôlei são brancos.
Desculpa velha
O supervisor do Londrina, Luiz Roberto Maccagnan, pôs em dúvida a denúncia de ofensa racial sofrida por Deivid, no ginásio Moringão.
“Eu falei com os meninos [acusados de ter proferido as ofensas]. Não são moleques de rua, nem maloqueiros. Eles me disseram que não falaram essa palavra ‘macaco’. Não sei se chamaram de negão”, afirmou o dirigente, que diz ter ido pessoalmente pedir desculpas a Deivid após o jogo.
O dirigente usou a velha desculpa, de que seu “melhor funcionário é da cor preta” e colocou em dúvida a versão do atleta do ABC. “Quando fui falar com o atleta – não lembro o nome dele -, eu até tive que me policiar para não chamá-lo de negão porque o cara tem 2 m de altura”, relatou Maccagnan. Deivid tem 2,05 m.
“Eu disse: ‘Estou aqui em nome da equipe, me desculpa, foi um caso isolado, Londrina não tem esse tipo de comportamento’. Aí eu falei: ‘O meu melhor funcionário é da cor preta. Não temos nada contra”, relatou.
O dirigente disse ter ficado surpreso com o fato de Deivid não ter esboçado reação ao seu pedido de desculpas e até levantou a hipótese de a equipe paulista ter feito uma denúncia falsa em relação às ofensas.
“Ele ficou assustado, não falou nada. Ou ele realmente estava horrorizado com a situação ou ele não soube como reagir, porque eu fui lá pedir desculpa por alguma coisa que talvez não tenha acontecido”, declarou.

Da Redacao