S. Paulo – Depois de um trabalho de 15 anos de buscas do Ministério Público Federal e da Comissão de Familiares de Desaparecidos, será entregue nesta sexta-feira, 1º de setembro, à família, em Ato Inter-Religioso às 9h30, na Catedral da Sé, os restos mortais de Luiz José da Cunha – “Comandante Crioulo” – o dirigente negro da Aliança Libertadora Nacional, uma das muitas organizações de esquerda que combateram o regime militar (1964-1985).
Cunha foi o único negro encontrado entre os desaparecidos enterrados como indigentes no Cemitério de Perus, em S. Paulo. Seus restos mortais (na verdade, parte dos ossos) foram encontrados sem a cabeça e é assim que serão entregues numa urna mortuária à viúva Amparo Araújo, para depois seguirem para Recife, onde, neste sábado, 02/09, serão enterrados junto ao túmulo de sua mãe.
O Ato da Sé será iniciado com a entrada da urna pelo Corpo de Bombeiros na Catedral, ao som do Hino nacional. Os procuradores federais Eugênia Augusta Gonzaga Fávero e Marlon Alberto Weichert cuidaram de todos os detalhes, convidando representantes de todas as religiões – inclusive as religiões de matriz africana – para a última homenagem ao militante morto.
No final, entregarão a urna à viúva Amparo, e os familiares, com cartazes com fotos de outras vítimas e ao som de um tambor, acompanharão até a saída da Igreja onde haverá novamente a entrega da urna ao Corpo de Bombeiros. Da Igreja os restos mortais serão levados até o aeroporto de Congonhas para serem embarcados para Recife.
Quem foi
Luiz José da Cunha,- o “Comandante Crioulo” – nasceu em Recife em 02 de setembro de 1943. Estaria fazendo neste sábado 63 anos, portanto. Filho de José Juviniano da Cunha e Maria Madalena da Cunha, começou sua militância no Partido Comunista Brasileiro, ainda como secundarista no Colégio Estadual Beberibe, em Recife.
Com o racha das organizações de esquerda que tinham divergências sobre como enfrentar o regime militar, foi um dos primeiros a aderir ao chamado de Carlos Marighela, outro dirigente de origem afro-brasileira da esquerda, para organizar a ALN.
Preso numa emboscada pela equipe do Grupo Especial do DOI-CODI de S. Paulo, chefiada pelo agente conhecido como “Capitão Nei” e tenente da PM “Lott”, na Avenida Santo Amaro, nas proximidades do nº 2000, no dia 13 de julho de 1.973, foi morto em seguida sob tortura.
No laudo necroscópico assinado pelos médicos legistas Harry Shibata e Orlando Brandão,
sua identidade racial foi adulterada: sua cor consta como branca, o que já foi retificado por meio de ação do Ministério Público Federal.
A morte de Luiz José da Cunha foi reconhecida como de responsabilidade do Estado, nos termos da Lei 9.140, por decisão da Comissão Especial dos Desaparecidos Políticos.

Da Redacao